PRISO DE GELO

Dean Koontz

Traduo de Manuel Cordeiro
Crculo de Leitores

O gelo claro  constitudo pela gua mais pura do Mundo.

Moscovo 10 de Fevereiro - De acordo com cientistas russos, a
gua que compe a calota de gelo rtico tem uma contagem de
bactrias muito inferior  gua que agora bebemos e que
utilizamos para irrigar as culturas. Uma vez que o recurso aos
gelos polares pode vir a ser mais barato  do que qualquer
processo de dessalinizao actual ou previsvel e em
particular porque a gua no necessitar de ser purificada,
alguns investigadores russos especulam sobre a possibilidade
de na prxima dcada vrios milhes de hectares de terra
agrcola poderem vir a ser irrigados a partir de
gua de icebergs derretidos.


Os cientistas pensam que os icebergs podem vir a fornecer
gua doce
Bostn, 5 de Setembro - Falando perante o Congresso anual da
Sociedade Americana dos Engenheiros do Ambiente, o Dr. Harold
Carpenter disse que as crnicas faltas de gua na
Califrnia, Europa e noutras regies do Mundo, podero ser
aliviadas pela fuso controlada de icebergs rebocados para Sul
a partir do Crculo rtico. A esposa do Dr. Carpenter, e sua
companheira de investigao, Dr. Rita Carpenter afirmou que as
naes interessadas deveriam reunir os fundos necessrios
para a investigao e desenvolvimento, uma vez que
se trata de um investimento que, nas suas palavras, "ser recompensado
cem vezes na prxima dcada".
  De acordo com os Carpenters, que no ano passado receberam
o prmio da Fundao Nacional para as Cincias, o conceito
bsico  muito simples. Um grande icebergue seria "arrancado"
aos campos de gelo, e derivaria para sul, arrastado
pelas correntes naturais. Mais tarde, enormes cabos de ao seriam
fixos ao icebergue e um rebocador levaria o gelo para
instalaes de converso instaladas na costa, junto s zonas
de seca. "Como o Atlntico Norte e o Pacfico Norte so mares
frios, talvez se perdesse apenas quinze por cento do gelo
antes de o mesmo ser convertido em gua, que seria depois canalizada
para as propriedades agrcolas sujeitas  seca",
acrescentou
o Dr. Harold Carpenter.
  Contudo, os Carpenter avisaram que ningum podia ter a
certeza de que a ideia daria resultado. "H ainda muitos
problemas por resolver", afirmou a Dra. Rita Carpenter, "e
so necessrias muitas investigaes na calota polar..."



[3]

A SECA AFECTA COLHEITAS
  NA CALIFRNIA




  Sacramento, Califrnia, 20 de Set. - Funcionrios do Departamento
de Estado da Agricultura calculam que a falta de
gua na Califrnia pode ter sido responsvel por perdas de at
cinquenta milhes de dlares em colheitas de segunda poca
to diferentes como as laranjas, os limes, alfaces e
cantalupos...

[4]

  NO H RECURSOS SUFICIENTES
PARA ALIMENTAR MILHARES DE VTIMAS DAS
  SECAS



  Naes Unidas, 18 de Out. - O director do Gabinete de
Emergncia das Naes Unidas anunciou que as ms colheitas
nos Estados Unidos, Canad e Europa impossibilitam os Africanos
e Asiticos atingidos pelas secas de comprarem cereais e
outros produtos s naes ocidentais que em geral so ricas em
alimentos. J morreram mais de 200 000 pessoas...


(5]

  FUNDO ESPECIAL DAS NAES UNIDAS
PARA ENVIAR CIENTISTAS  CALOTA POLAR



  Naes Unidas, 6 de Jan. - Onze pases membros das Naes
Unidas contriburam para um fundo que ir custear uma
srie de experincias cientficas na calota polar rctica. A
principal
inteno do projecto  estudar a possibilidade de
rebocar
grandes icebergues para sul, onde podero ser aproveitados
para a irrigao de culturas.
  "Pode parecer fico cientfica", disse um funcionrio
britnico,
"mas desde os anos sessenta que os cientistas encaram
a ideia como tendo um verdadeiro potencial." Se tal plano se
revelar praticvel, as principais naes produtoras de alimentos
talvez nunca mais venham a conhecer ms colheitas. Apesar
de os icebergues no poderem ser rebocados para os mares
quentes do Sul da sia e da frica, todo o mundo lucrar com
a garantia de boas colheitas nos pases directamente
beneficiados...
"


  EQUIPA DE CIENTISTAS DA ONU INSTALA
ESTAO DE INVESTIGAO NA CALOTA POLar


  Thule, Gronelndia, 28 de Set. - Esta manh, os cientistas
sob a orientao dos Drs. Harold e Rita Carpenter, que foram
galardoados com o Prmio Rothschild deste ano para as
Cincias da Terra, aterraram na calota rctica entre a Gronelndia
e Spitzbergen, na Noruega. Iniciaram a construo de
uma estao de investigao a trs quilmetros do rebordo dos
campos de gelo, onde efectuaro, durante mais de nove meses,
estudos patrocinados pelas Naes Unidas...


EXPEDIO RCTICA
  PARTE DA CALOTA



  Thule, Gronelndia, 14 de Jan. -  meia-noite de amanh,
os cientistas da Estao Edgeway, patrocinada pelas Naes
Unidas, faro rebentar uma srie de engenhos explosivos
a fim de separar um icebergue com cerca de um quilmetro
quadrado do rebordo invernal da calota polar, 350 milhas a
nordeste da costa da Gronelndia. Os rebocadores das Naes
Unidas, equipados com sistemas de localizao electrnica,
aguardam 230 milhas mais para sul, de onde seguiro o progresso
do icebergue.
  A experincia destina-se a determinar se as correntes do
Atlntico se modificam substancialmente nas regies norte durante
o severo Inverno rctico...


  MEIO-DIA
DOZE HORAS PARA A DETONAO


  Com um rudo de cristais a estilhaarem-se, a ponta da
broca enterrou-se profundamente no gelo do rctico. A lama
branco-acinzentada escorreu para fora do orifcio, deslizou
por cima da neve e ficou novamente congelada em poucos segundos.
A broca brilhante j no se via e a maior parte da comprida
haste de ao tambm desaparecera no furo de dez centmetros
de dimetro.
  Observando a broca, Harry Carpenter teve uma curiosa
premonio de desastre iminente. Foi com um fraco adejar de
alerta, como a sombra de uma ave a passar por cima de uma
brilhante paisagem. Estremeceu, apesar de estar protegido
com roupas fortemente isoladas.
  Como cientista, Harry respeitava as ferramentas da lgica,
do mtodo e da razo... mas j aprendera a nunca pr de parte
um palpite, em especial no gelo, onde podiam acontecer as
coisas mais estranhas. Era incapaz de identificar a fonte daquela
sbita inquietao, mas seria de esperar que uma pessoa
tivesse maus pressgios quando estava a lidar com explosivos
de alta potncia. A probabilidade de uma das cargas detonar
prematuramente, matando-os a todos, era quase nula. No entanto...

  Peter Jobert, o engenheiro electrnico que era tambm o
perito em explosivos da equipa, desligou a broca e afastou-se
dela. Com o seu fato Gore-Tex/Thermolite todo branco, uma
parka e um capuz forrados de pele, Peter parecia-se com um
urso polar... excepto no que se referia .ao seu rosto moreno.
- Claude Jobert desligou o gerador porttil que fornecia
  energia  broca. O silncio da resultante provocou uma
sensao de expectativa to fantasmagrica e intensa que Harry
comeou por olhar para trs das costas e depois para o cu,
meio
  convicto de que alguma coisa se precipitava ou lanava sobre
  ele.
  Se a morte beijasse algum naquele dia... era mais provvel
que lhes surgisse debaixo dos ps do que de cima. Quando
a sombria tarde se iniciou, os trs homens preparavam-se para
fazer descer para as profundidades do gelo a ltima carga de
cinquenta quilos de explosivos. Era a sexagsima carga de demolio
com que lidavam desde a manh anterior e todos eles
tinham a conscincia, algo nervosa, de se encontrarem por cima
de explosivos plsticos suficientes para os destruir a
todos num claro apocalptico.
  No era necessria uma imaginao frtil para se verem a
morrer naqueles climas hostis: a calota de gelos era um tmulo
perfeito, completamente sem vida, que chegava a encorajar
pensamentos de imortalidade. As interminveis plancies azuis
e brancas rodeavam-nos em todas as direces, sombrias e
mal-humoradas durante a longa poca de escurido quase
constante, de crepsculos breves e de cus permanentemente
cobertos. De momento, a visibilidade era boa porque o dia
atingira a altura em que o horizonte era pintado por um vago
crescente de luz solar, filtrado pelas nuvens. Contudo, o sol
pouco tinha para iluminar naquela paisagem rida. Os nicos
pontos elevados eram os irregulares espinhaos provocados pelas
presses no interior dos gelos e as centenas de placas de
gelo
- algumas grandes como um homem e outras maiores do
que casas - que se haviam separado do campo e se erguiam
como gigantescas lpides tumulares.
  Pete juntou-se a Harry e a Claude, que se encontravam
perto de alguns carros de neve que haviam sido especialmente
preparados para os rigores do plo, e disse-lhes:
  - A broca j mergulhou a vinte e oito metros. Mais um
tubo de extenso... e o trabalho estar feito.
  - Graas a Deus! - exclamou Claude Jobert, estremecendo
como se o seu fato trmico no lhe fornecesse qualquer espcie
de proteco. Apesar da pelcula transparente de geleia
de petrleo que lhe protegia as partes desprotegidas do rosto
contra as queimaduras pelo frio, o seu rosto mostrava-se plido
e tenso. - Voltaremos para o acampamento esta noite! J
imaginaram? Ainda no me senti quente durante um nico minuto
desde que samos de l!
  Em geral, Claude no se queixava. Era um homem pequeno,
jovial e enrgico.  primeira vista, parecia frgil, mas
no era esse o caso. Com um metro e sessenta e sete de altura e
pesando sessenta e cinco quilos, era magro, rijo e duro. Tinha
uma cabeleira branca agora oculta pelo capuz, uma face marcada
e desgastada por toda uma vida passada sob climas extremos,
e brilhantes olhos azuis to claros como os das
crianas.
Harry nunca vira dio ou ira nesses olhos. At ao dia anterior
tambm no vira neles qualquer espcie de autopiedade, nem
sequer trs anos antes, quando Claude perdera a esposa, Colette,
num sbito e insensato acto de violncia. Deixara-se
consumir pelo desgosto mas nunca cedera  autocomiserao.
  Contudo, desde que haviam abandonado o conforto da Estao
Edgeway, Claude no se mostrara jovial ou enrgico e
queixara-se constantemente do frio. Com cinquenta e nove
anos, era o membro mais velho da expedio, dezoito anos
mais velho do que Harry Carpenter, e atingira a idade limite
para algum a trabalhar naquelas latitudes inspitas.

  Apesar de ser um excelente gelogo rctico, especializado
na dinmica da formao e do movimento dos gelos, aquela
expedio seria a sua ltima a qualquer dos plos. A partir
dali as investigaes seriam feitas em laboratrios e computadores,
muito longe das severas condies das calotas geladas.
  Harry interrogava-se sobre se Jobert no estaria mais incomodado
com o conhecimento de que o trabalho que adorava
se tornara demasiado exigente para a sua idade... do que com
o frio. Um dia, tambm Harry teria de enfrentar a mesma verdade...
e no estava certo de vir a conseguir retirar-se com
dignidade. Os grandes e imaculados espaos do rctico e do
Antrctico encantavam-no por causa do poder dos climas extremos,
dos mistrios que cobriam as paisagens brancas e geomtricas
e se acumulavam nas sombras azuladas de cada fenda
aparentemente sem fundo, do espectculo das noites claras
quando as auroras boreais cobriam o cu de vibrantes faixas
de luz com as cores das pedras preciosas, e por causa dos vastos
campos de estrelas que surgiam quando as auroras se apagavam para as revelar.
  De certo modo ainda se sentia como o garoto que crescera
numa tranquila quinta de Indiana, sem irmos, irms ou amigos
de brincadeiras. Continuava a ser o rapaz solitrio que se
sentira asfixiado pela vida em que nascera, que sonhara em
viajar at lugares distantes e ver todas as maravilhas
exticas do mundo, que nunca quisera ficar amarrado a um bocado de
terra e ansiara por aventuras. Agora era um homem maduro e
j sabia que as aventuras eram um trabalho duro. Mesmo
assim, de tempos a tempos, o rapazinho que existia dentro dele
  deixava-se abruptamente avassalar por uma sensao de maravilha,
largava o que estava a fazer e descrevia um crculo
lento para observar o mundo de um branco brilhante que se encontrava
 sua volta, e pensava: "Deus do cu, estou realmente
aqui, to longe de Indiana, no topo do mundo!"
  Pete Johnson declarou:
  - Est a nevar.
  Harry avistou os preguiosos flocos que desciam em espiral,
num bailado silencioso, no preciso momento em que Pete
falou. No havia vento mas aquela calma talvez no durasse
muito mais tempo.

  Claude Jobert fez uma careta:
  - Esta tempestade s estava prevista para logo  noite.
  A viagem desde a Estao Edgeway - que ficava sete quilmetros
a nordeste, em linha recta, do actual acampamento
temporrio, mas a seis horas de carro de neve, por cima de altos
espinhaos e de profundos precipcios - no fora difcil.
Mesmo assim, uma m tempestade poderia fazer com que a
viagem de regresso se tornasse impossvel. A visibilidade poderia
descer rapidamente at zero e seria fcil perderem-se
devido a desvios da bssola. Se os carros de neve ficassem sem
combustvel... ento morreriam gelados, uma vez que at os
fatos trmicos eram insuficientes contra uma prolongada exposio
s temperaturas assassinas que cavalgavam os ventos de
tempestade.
  As neves profundas no eram to vulgares na calota de gelos
da Gronelndia como seria de esperar, em parte por causa
das temperaturas extremamente baixas que o ar podia atingir.
Em certo momento de quase todas as tempestades, os flocos
de neve metamorfoseavam-se em agulhas de gelo, mas a visibilidade
continuava fraca.
  Estudando o cu, Harry disse:
  - Talvez seja apenas um fenmeno local.
  - Sim... e tambm foi isso o que as previses meteorolgicas
disseram a semana passada, a respeito daquela tempestade
- recordou-lhe Claude. - Afirmaram que s iramos ter
pequenos neves locais na periferia da tempestade... mas depois
caiu tanta neve e gelo que at o Pai Natal ficaria em
casa
mesmo que fosse noite de Natal.
  - Ento...  melhor acabarmos rapidamente com este trabalho.

  - Seria melhor se o acabssemos... ontem.
  Como que para confirmar a necessidade de se despacharem,
levantou-se um vento de oeste to limpo e to sem odores
como s era possvel num vento que percorrera centenas
de quilmetros de terras geladas. Os flocos de neve tornaram-se
mais pequenos e comearam a descer em ngulo, j sem
descreverem preguiosas espirais, como se fossem os flocos no
interior de um bibelot de cristal.
  Pete soltou o motor da broca da haste enterrada no gelo,
erguendo-a da estrutura de apoio como se pesasse apenas um
dcimo dos seus quarenta e dois quilos.
  Uma dcada antes fora uma estrela do rguebi da Pensilvnia
e recusara vrias ofertas de equipas da liga nacional. No
quisera desempenhar o papel que a sociedade ditava a todos os
negros, heris do rguebi, que tivessem um metro e noventa
de altura e cem quilos de peso. Preferira ganhar bolsas de estudo,
tirar duas licenciaturas e conseguir um emprego bem remunerado
entre os "crebros" da indstria de computadores.
  Agora era um elemento vital para a expedio de Harry.
Fazia a manuteno do equipamento electrnico de recolha de
dados que se encontrava em Edgeway, e como fora ele quem
desenhara os engenhos explosivos era o nico que poderia lidar
com eles, com toda a confiana, se alguma coisa corresse
mal. Alm disso, a sua fora tremenda era uma vantagem naquele
inspito fim do mundo.
  Enquanto Pete tirava o motor para fora do caminho, Harry
e Claude foram buscar um metro de tubo de extenso a um
dos reboques de carga ligados aos carros de neve e enroscaram-no
ao tubo j enterrado no gelo.
  Claude ligou novamente o gerador.
  Pete colocou o motor no seu lugar, deu a volta  chave para
o prender com firmeza em redor do tubo e tratou de terminar
o furo de vinte e nove metros de profundidade no fundo
do qual seria colocada a carga explosiva tubular.
  Enquanto a mquina rugia, Harry olhou para os cus. Nos
ltimos minutos, o clima deteriorara-se de um modo alarmante.
A maior parte da luz acinzentada desaparecera por detrs
de nuvens opressivas. Caa tanta neve que o cu j no parecia
malhado de cinzento e branco, uma vez que a cobertura de nuvens
deixara de poder ser vista atravs das torrentes
cristalinas. Por cima deles via-se apenas uma profunda e rodopiante
  brancura. J a contrarem-se e a tornarem-se granulosos, os
  flocos picavam ligeiramente a sua pele coberta de gordura.
  O vento aumentara talvez para trinta e cinco quilmetros por
  hora e o seu som era um zumbido lamentoso.
  Harry continuava a pressentir um desastre iminente. A sensao
no tinha forma e era vaga... mas inabalvel.

  Quando rapaz, na sua quinta, nunca lhe passara pela cabea
que a aventura pudesse ser trabalhosa, mas compreender;
que poderia ser perigosa. Para um garoto, o perigo fizera parte
do encanto. Contudo, durante o processo de crescimento
depois de perder os progenitores por doena e de ter aprendido
as maneiras violentas do mundo, deixara de encarar a morte como
sendo algo de romntico. Contudo, tinha de admitir
uma certa nostalgia perversa pela inocncia que outrora lhe
tornara possvel descobrir emoes agradveis nos riscos
mortais que eventualmente viesse a correr.
  Claude Jobert inclinou-se para ele e gritou por cima do rudo
do vento e da broca.
  - No te preocupes, Harry. Em breve estaremos de volta
a Edgeway. Um bom conhaque, um jogo de xadrez, Benn Goodman
no leitor de CD's... e todos os outros confortos
  Harry Carpenter acenou... mas continuou a olhar para o
cu.

12.20 HORAS


  Gunvald Larsson encontrava-se junto da pequena janela do
posto de comunicaes da Estao Edgeway, mordendo nervosamente
o bocal do cachimbo apagado e espreitando para a
tempestade, que ganhava fora rapidamente. As infindveis
vagas de neve rodopiavam sobre o acampamento como as ondas
fantasmagricas de um mar antigo, evaporado h milnios.
Fora apenas meia hora antes que raspara o exterior dos vidros
triplos da janela, mas os novos padres de cristais j
cresciam
ao longo do permetro da moldura. Dentro de uma hora, o vidro
estaria coberto por uma nova catarata que o cegaria.
  Do ponto de vista de Gunvald, ligeiramente elevado, a Estao
Edgeway parecia-lhe to isolada - e num contraste to
grande com o ambiente em que se erguia - que poderia ser
apenas uma espcie de posto avanado num planeta aliengena.
Constitua a nica mancha de cor naqueles campos brancos,
prateados e cor de alabastro.
  As seis tendas Nissen de um tom amarelo-canrio, haviam
sido erguidas sobre a calota de gelo em seces prefabricadas,
mas  custa de tremendos esforos e despesas. Cada uma daquelas
estruturas de um s piso media seis metros por quatro e meio.
  As paredes - formadas por camadas de metal e de leve espuma
isoladora - estavam rebitadas a longarinas arqueadas e
o pavimento de cada cabana encontrava-se enterrado no gelo.
eram To pouco atraentes como casas de bairro de lata e um pouco
menos atulhadas do que caixotes de mudanas, as tendas eram
no entanto de confiana e perfeitamente seguras contra os ventos.

  Uma centena de metros a norte do campo via-se uma estrutura
solitria. Abrigava os tanques de combustvel que alimentavam
os geradores. Como os tanques eram de gasleo,
que ardia mas no podia explodir, os perigos de incndio eram
mnimos. De qualquer modo, a ideia de virem a ser apanhados
num fogo repentino, alimentado pelos ciclones rcticos, era
to aterrorizadora - em especial por no existir gua com que
o combater, mas apenas o intil gelo - que haviam sido tomadas
precaues excessivas capazes de garantir a paz de
esprito
de toda a gente.
  A paz de esprito de Gunvald Larsson fora quebrada horas
antes, mas o que o preocupava no era o fogo. O seu problema
eram os tremores de terra. Mais especificamente, os tremores
de terra subocenicos.
  Filho de pai sueco e de me dinamarquesa, fizera parte da
equipa sueca de esqui em dois Jogos Olmpicos de Inverno.
Ganhara uma medalha de prata e tinha orgulho na sua herana:
cultivava a imagem de um imperturbvel escandinavo e em
geral possua uma calma interior que correspondia ao seu exterior
frio. A esposa costumava dizer que os seus vivos olhos
azuis mediam continuamente o mundo como se fossem compassos.
Quando no trabalhava no exterior em geral usava calas
e coloridas camisolas de esqui. De momento, de facto, estava
vestido como se preguiasse numa cabana de montanha
depois de um agradvel dia a passear de esquis e no se encontrasse
num abrigo isolado, sobre a calota polar invernal, 
espera que a calamidade se abatesse sobre ele.
  Contudo, durante as ltimas horas, perdera uma grande
parte da sua compostura caracterstica. Mordiscando o bocal
do cachimbo, virou as costas  janela orlada de gelo e fez uma
careta para os computadores e equipamento de recolha de dados
que cobriam trs paredes do posto de comunicaes.
  Ao princpio da tarde anterior, quando Harry e os outros
haviam partido rumo a sul, para junto da extremidade dos gelos,
***Gunvald ficara para trs a fim de receber eventuais chamadas
e para vigiar a estao. No era a primeira vez que todos
os membros da expedio saam de Edgeway para levarem
a cabo experincias nos gelos, deixando para trs uma nica
pessoa, mas isso nunca antes acontecera com Gunvald. Depois
de semanas a viver numa pequena comunidade com oito vizinhos
demasiado prximos, estivera ansioso pelo seu prprio
turno de solido.
  Todavia, cerca das quatro da tarde do dia anterior, quando
os sismgrafos de Edgeway registaram o primeiro abalo, Gunvald
comeara a desejar que os outros membros da equipa no
se tivessem aventurado to perto da beira dos gelos, onde a
calota
polar confinava com o mar. s quatro e catorze, o abalo
fora confirmado pelo relatrio via rdio que recebera de
Reiquiavique, na Islndia e de Hammerfest na Noruega.
Ocorrera um considervel deslizamento no fundo do mar,
um quilmetros a norte de Raufarhofn, na Islndia. O choque
verificara-se na mesma cadeia de falhas interligadas que trs
dcadas antes provocara destruidoras erupes vulcnicas na
Islndia. Desta vez no se tinham verificado prejuzos nas
terras
em volta do mar da Gronelndia apesar de o terramoto ter
atingido uns slidos 6 5 na escala de Richter.
  As preocupaes de Gunvald provinham da suspeita de
que o tremor no fora um incidente isolado... nem o principal
acontecimento geolgico. Tinha boas razes para crer que se
tratava de um pr-abalo, precursor de um terramoto de muito
maior magnitude.
  Desde o incio que a equipa pretendera estudar, entre outras
coisas, os leves tremores que tinham lugar no fundo do
mar da Gronelndia, para aprender mais alguma coisa sobre as
falhas submarinas locais. Trabalhavam numa zona da Terra
  que era geologicamente activa e em que ningum poderia confiar
at ser melhor conhecida. Se dezenas de navios iriam
rebocar icebergues colossais naquelas guas, ento precisariam
de saber com que frequncia era o mar perturbado por grandes
abalos submarinos e pelas resultantes vagas ocenicas. Um
tsunami - uma vaga titnica com a sua origem no epicentro
de um poderoso tremor de terra - podia pr em perigo at os
navios grandes, mas no tanto no mar aberto como acontecera
junto a uma costa.
  Teria ficado muito satisfeito com a oportunidade de poder
observar to de perto as caractersticas e padres dos principais
sismos na rede de falhas tectnicas do mar da Gronelndia...
mas a verdade era que no o estava.
  Servindo-se de uma ligao por microndas aos satlites de
comunicao em rbita, Gunvald podia ligar-se e ter acesso a
  todos os computadores da rede mundial Infonet. Apesar de se
  encontrar geograficamente isolado, tinha  sua disposio
virtualmente todas as bases de dados de investigao e todo o
  software a que teria acesso se se encontrasse numa grande
cidade.
  No dia anterior recorrera a esses impressionantes recursos
 para analisar os dados sismogrficos fornecidos pelo recente
 abalo. O que descobrira deixara-o preocupado: a enorme
energia do tremor de terra fora libertada no por um movimento
lateral do fundo do mar mas sim por um violento empurro
para o alto. Esse era precisamente o tipo de movimento
que causaria uma maior tenso nas falhas interligadas que
se encontravam para leste daquela onde se verificara o primeiro
abalo.

  A Estao Edgeway propriamente dita no corria perigo
iminente. Se ali perto se verificasse um acentuado deslize dos
fundos marinhos, o tsunami rolaria por baixo dos gelos e causaria
algumas mudanas: formar-se-iam, principalmente, novos
precipcios e novos espinhaos de presso. Se o tremor de terra
estivesse relacionado com actividades vulcnicas submarinas
em que milhes de toneladas cbicas de lava derretida escorressem
para o fundo do mar, ento talvez a gua aquecida
abrisse alguns buracos temporrios na calota de gelos. Todavia,
a maior parte da paisagem polar permaneceria imutvel e
era extremamente improvvel que o acampamento-base fosse
danificado ou destrudo.
  Contudo, os outros membros da expedio no podiam estar
to certos de se encontrarem em segurana como Gunvald
estava da sua. Para alm de criar espinhaos de presso e fendas
no gelo, era muito provvel que um tsunami quente arrancasse
seces de gelo no rebordo da calota polar. Harry e os
outros poderiam ver a calota a cair debaixo dos ps enquanto
o mar subia, negro, frio e mortal.
  s nove horas da noite anterior, cinco horas depois do primeiro
abalo, o segundo tremor - 5,8 na escala de Richter atingira
as falhas tectnicas. O fundo do mar agitara-se
violentamente, cento e noventa quilmetros para nordeste de Raufarhofn.
O epicentro localizara-se sessenta quilmetros mais
perto de Edgeway.
  Gunvald no tirava qualquer conforto do facto de o segundo
abalo ter sido mais fraco do que o primeiro. A diminuio
da fora no era prova absoluta de que o tremor mais recente
no passasse de uma rplica do primeiro. Era muito possvel
que ambos fossem pr-abalos... e que o grande tremor de terra
ainda estivesse para vir.
  Durante a guerra fria, os Estados Unidos haviam instalado
tanto no fundo do mar da Gronelndia como em muitas outras
reas estratgicas do mundo, toda uma srie de sensores
snicos extremamente sensveis, capazes de detectar a passagem,
quase silenciosa, dos submarinos inimigos armados com
ogivas nucleares. Depois do colapso da Unio Sovitica, alguns
desses sofisticados engenhos haviam comeado a desempenhar
duplas funes, controlando a passagem de submarinos
e fornecendo dados para fins cientficos. Desde o segundo abalo,
a maior parte dos equipamentos de escuta nas grandes profundidades
do mar da Gronelndia transmitia um fraco mas
quase contnuo rumor de baixas frequncias: era o agourento
som da crescente tenso elstica na crosta da Terra...
  Era possvel que se tivesse iniciado uma lenta reaco em
domin... e que os domins cassem na direco da Estao
Edgeway.
  Nas ltimas dezasseis horas, o nervosismo fizera com que
Gunvald passasse mais tempo a morder o cachimbo do que a
fum-lo.

  s nove e trinta da noite anterior, quando o rdio confirmara
a localizao e a fora do segundo abalo, Gunvald entrara
em contacto com o acampamento provisrio, dez quilmetros
para sudoeste. Falara com Harry a respeito dos abalos e
explicara-lhe os riscos que estavam a correr se permanecessem
no permetro dos gelos polares.
  - Temos um trabalho para fazer - retorquira Harry.
- Quarenta e seis cargas j esto no seu lugar, armadas e com
os relgios a funcionar. Retir-las outra vez do gelo antes de
detonarem seria mais difcil do que tirar as mos de um
poltico de dentro da tua algibeira. Se amanh no colocarmos as
outras catorze, com as suas cargas sincronizadas,  provvel
que no consigamos um icebergue com as dimenses de que
necessitamos. Seria o mesmo que fazer abortar a misso... e
isso est fora de questo.
  - Creio que devemos considerar a hiptese...
  - No. Nunca. O projecto  demasiado despendioso para
ser abandonado s porque pode existir um risco ssmico. O dinheiro
  justa. Talvez no tenhamos outra oportunidade se
perdermos esta.
  - Suponho que tens razo - reconhecera Gunvald -, mas
a situao no me agrada.
  A frequncia de rdio enchera-se de estalidos de esttica
quando Harry respondera:
  - Tambm no posso dizer que me agrade. Tens alguma
projeco sobre o tempo necessrio para que um grande deslizamento
das placas percorra toda a falha tectnica?
  - Ningum o sabe, Harry. Dias, semanas... ou at meses.
  - Ests a ver? O segundo abalo foi mais fraco do que o
primeiro, no  verdade? - inquirira Harry.
  - E tu sabes perfeitamente que isso no significa que a
reaco se esgote por si mesma. O prximo sismo tanto pode
ser mais pequeno como maior do que os dois primeiros.
  - De qualquer modo - dissera Harry -, o gelo tem duzentos
e dez metros de espessura no stio onde nos encontramos.
No se partir to facilmente como a primeira camada de
gelo de um lago.
  - Mesmo assim, quando a manh chegar... sugiro que tratem
de despachar as coisas o mais depressa possvel.
  - No precisas de te preocupar com isso. Viver nestas
malditas tendas insuflveis faz com que as barracas de Edgeway
paream suites no Ritz-Carlton.
  Depois daquela conversa, Gunvald Larsson fora para a cama.
No conseguira dormir bem. Durante os pesadelos vira o
mundo a desfazer-se, afastando-se dele em enormes bocados,
enquanto se precipitava num vazio gelado e sem fundo.
  s sete e trinta da manh, quando Gunvald se estava a
barbear e tinha os maus sonhos ainda bem frescos na mente,
o sismgrafo registara um terceiro abalo: 5,2.
  O seu pequeno-almoo consistira numa nica chvena de
caf. Perdera o apetite.
  s onze horas ocorrera o quarto sismo, apenas a trezentos
quilmetros para sul: 4,4 na escala de Richter.
  No o alegrava verificar que cada um dos abalos fora mais
fraco do que o precedente. Talvez a Terra conservasse as suas
energias para um nico golpe violento...
  O quinto sismo fora s onze e cinquenta. O epicentro fora
aproximadamente a cento e vinte quilmetros para sul. Fora
muito mais prximo do que o anterior... e quase lhes batera 
porta: 4,2 da escala de Richter.
  Chamara o acampamento provisrio e Rita Carpenter garantira-lhe
que a expedio abandonaria a beira dos gelos pelas
catorze horas.
  - O tempo vai ser um problema - preocupara-se Gunvald.

  - Aqui est a nevar, mas pensmos que fosse um fenmeno
local...
  - Receio bem que no. A tempestade alterou o seu curso
e est a ganhar velocidade. Vamos ter pesados neves durante
a tarde.
  - De certeza que estaremos de volta a Edgeway pelas
quatro da tarde - dissera Rita -, ou talvez antes.
  Ao meio-dia e doze, verificou-se outro deslize de placas na
crosta por baixo do mar, cento e oitenta quilmetros para sul:
4,5 da escala de Richter.
  Agora, ao meio-dia e meia hora, quando Harry e os outros
estavam provavelmente a instalar a ltima carga explosiva,
Gunvald- Larsson mordia o cachimbo com tanta fora que partiria
o bocal em dois se fizesse a mais ligeira presso
adicional.

12.30 HORAS



  A quase dez quilmetros da Estao Edgeway, o acampamento
temporrio encontrava-se instalado numa zona de gelo
plano, encostado a um espinhao que o protegia dos ventos.
  As trs tendas em nylon, insuflveis e impermeabilizadas,
haviam sido dispostas num semicrculo aproximadamente a
cinco metros do espinhao de gelo, de quinze metros de altura.
Os dois carros de neve estavam estacionados em frente das
estruturas. Cada tenda tinha trs metros e sessenta de dimetro
por dois metros e quarenta no ponto mais central. Estavam
firmemente ancoradas por compridas estacas metlicas e tinham
os pavimentos acolchoados com cobertores de isolamento
cobertos a folha metlica. Pequenos aquecedores alimentados
a gasleo mantinham o ar do interior a doze graus Celsius.
As acomodaes no eram espaosas nem confortveis, mas
tratava-se apenas de um acampamento temporrio que s seria
utilizado enquanto a equipa colocava as sessenta cargas explosivas.

  Uma centena de metros para o sul, num planalto que ficava
um a dois metros acima do acampamento, via-se um tubo de
ao espetado no gelo. O tubo servia de suporte a um termmetro,
um barmetro e um anemmetro.
  Com uma das mos enluvadas, Rita Carpenter afastou a
neve dos culos que lhe protegiam os olhos e limpou a superfcie
dos trs instrumentos. Forada a usar uma lanterna
elctrica
na escurido, que se tornava cada vez mais profunda, leu a
temperatura, a presso atmosfrica e a velocidade do vento.
No gostou do que viu. A tempestade s fora prevista para depois
das dezoito horas, mas estava a atingi-los com fora e
era possvel que chegasse  intensidade mxima antes de conseguirem
completar o trabalho e de fazerem a viagem de volta  Estao
Edgeway.
  Transpondo desajeitadamente a inclinao de quarenta e
cinco graus da vertente entre o planalto e a zona mais baixa,
Rita encetou o caminho de regresso ao acampamento temporrio.
Conseguia mover-se apenas desajeitadamente porque
usava o equipamento de sobrevivncia completo: roupa interior
trmica, de malha, dois pares de meias, botas de feltro,
botas exteriores forradas a pele, umas finas calas de l e
uma
camisola tambm de l, um fato trmico de nylon acolchoado,
um casaco forrado a pele, uma mscara de malha que lhe cobria
o rosto desde o queixo aos culos, um capuz forrado a pele
e amarrado por debaixo do queixo, e luvas. No clima to
cruel, o calor corporal tinha de ser conservado  custa da mobilidade.
A falta de jeito e os movimentos presos era o fardo
da sobrevivncia.
  Apesar de Rita estar suficientemente quente, a mordedura
gelada do vento e aridez da paisagem gelavam-na emocionalmente.
Por escolha, tanto ela como Harry haviam passado
uma grande parte das suas vidas profissionais no rctico ou na
Antrctida. Contudo, no partilhava do amor de Harry pelos
vastos espaos livres, pelas paisagens monocromticas, pela
imensa curva do cu e pelas tempestades primordiais... De facto,
forara-se a voltar repetidamente quelas regies polares
precisamente por as recear.
  Desde o Inverno em que tivera seis anos de idade, Rita recusara
teimosamente a render-se a qualquer medo. Nunca
mais se renderia... por muito que a rendio se justificasse.
  Agora, enquanto se aproximava da tenda da extremidade
oeste do acampamento, com o vento a empurr-la pelas costas,
passou repentinamente por uma reaco fbica to intensa
que quase a ps de joelhos. Criofobia, o medo do gelo e da
congelao. Frigofobia, o medo do frio. Chionofobia, o medo
da neve. Rita conhecia os termos porque sofria de formas suaves
dessas trs fobias. A frequente confrontao com as fontes
das suas ansiedades, tal como acontecia com as vacinas contra
a gripe, servira para lhe garantir apenas ligeiros incmodos e
inquietaes, e s muito raramente ficara aterrorizada. Contudo,
por vezes sentia-se avassalada por recordaes contra as
quais no havia nenhuma vacina capaz de lhe oferecer proteco...
tal como acontecia naquele momento. O tumultuoso cu
branco parecia precipitar-se sobre ela com a velocidade de
  a rocha em queda livre, comprimindo-a sem piedade como
  o ar, as nuvens e a neve que caa se tivessem metamorfoseado  ,
por magia, numa macia placa de mrmore que a esmagaria
contra a inflexvel plancie gelada. Sentia o corao a
martelar
com fora e precipitadamente, cada vez com mais fora e
precipitao... at que a sua cadncia frentica ressoava,
ressoava, ressoava com tanta intensidade nos seus ouvidos que
conseguia abafar o irado gemido do vento.
  Deteve-se  entrada da tenda, firmando-se, recusando-se a
fugir daquilo que a aterrorizava. Forou-se a aguentar o
isolamento daquele reino rido e envolto em sombras, como algum
que tivesse um medo irracional de ces mas se obrigasse
a afagar um deles at que o pnico desaparecesse.
  De facto, para Rita, o isolamento era a faceta do rctico
que mais a incomodava. Na sua mente, desde os seis anos, o
Inverno ficara indissoluvelmente associado  assustadora solido
dos moribundos, com o rosto cinzento e distorcido dos cadveres,
com as miradas congeladas de olhos mortos e sem vida,
com cemitrios, tmulos e um desespero sufocante.
  Tremia to violentamente que o feixe de luz da lanterna
danava na neve a seus ps.
  Virando as costas  tenda insuflvel, colocou-se de lado
contra o vento, estudando a estreita faixa plana entre o
planalto
e o espinhao de gelo. Inverno eterno. Sem calor, sem conforto
ou esperana.
  Sim, era uma terra que tinha de ser respeitada. Estava de
acordo. Todavia no era uma criatura, no possua sentimentos
e no pretendia prejudic-la conscientemente.
  Respirou fundo, de uma maneira rtmica, atravs da mscara
de malha.
  Para se ajudar a dominar o medo irracional que sentia pela
calota polar, disse para si mesma que tinha um problema muito
maior  espera na tenda que se encontrava a seu lado.
Franz Fischer.
  Conhecera Fischer onze anos antes, pouco depois de ter
conseguido o doutoramento e o primeiro emprego de investigao
num dos departamentos da International Telephone and
Telegraph. Franz, que tambm trabalhara para a ITT, era
atraente e no sem encanto - quando decidia revel-lo - e
tinham vivido juntos durante quase dois anos. No fora uma
relao amorosa inteiramente calma e descontrada... mas ao
menos tambm no se aborrecera. Haviam-se separado nove
anos antes, no momento em que se aproximava a publicao
do seu primeiro livro e se tornara claro que Franz nunca se
sentiria confortvel como uma mulher que era sua igual tanto
do ponto de vista profissional como intelectual. Franz
esperara dominar e ela no quisera ser dominada. Deixara-o, conhecera
,Harry, casara-se um ano depois... e nunca olhara para trs.
  Como surgira na vida de Rita depois de Franz, Harry era
da opinio,  sua maneira sempre razovel e doce, que o que
 passara entre eles no lhe dizia respeito. Sentia-se seguro
,do casamento e dele prprio. Mesmo apesar de ter conhecimento
da relao, recrutara Franz para meteorologista principal
da Estao Edgeway porque o homem era o melhor para a
tarefa.
  Naquele caso, um cime irracional teria sido melhor para
Harry - e para todos eles - do que a racionalidade. Uma segunda
escolha ter-se-ia revelado mais vantajosa.
  Nove anos depois da separao, Franz ainda insistia em fazer
o papel de amante desprezado, incluindo o ar amuado e os
olhares sentimentais. No se mostrava frio nem rude. Pelo
contrrio, esforava-se por dar a impresso de que passava a
noite, na privacidade solitria do saco-cama, a lamentar o seu
corao destroado. Nunca mencionava o passado, nunca mostrava
qualquer espcie de interesse imprprio por Rita nem
exibia uma conduta que no pudesse ser classificada de cavalheiresca.
Contudo, no espao limitado de uma estao
polar, o cuidado com que exibia o seu orgulho ferido era mais
perturbador do que se gritasse insultos.
  O vento gemia, a neve rodopiava em volta dela e o gelo
estendia-se a perder de vista desde tempos imemoriais... mas
as batidas do corao regressaram gradualmente ao ritmo normal.
Deixou de tremer. O terror passara.
  Vencera... mais uma vez.
  Quando Rita entrou finalmente na tenda, Franz estava de
jOelhos, arrumando instrumentos dentro de um caixote. DesCalara
as botas exteriores e despira o casaco e as luvas.
Procedera assim para que o trabalho no o fizesse suar porque isso
  lhe arrefeceria a pele, mesmo dentro do fato trmico, e perderia
um calor precioso quando tivesse de sair para o exterior.
  levantou os olhos para ela,fez um aceno e prosseguiu com a
tarefa.
O homem possua um certo magnetismo animal e Rita
compreendia porque se sentira atrada por ele quando era mais
nova. Tinha um espesso cabelo louro, olhos escuros e profundas
feies nrdicas. Media apenas um metro e setenta e
era dois centmetros e meio mais alto do que ela, mas
apesar dos seus quarenta e cinco anos conservava o corpo musculoso
e elegante de um jovem.

  - O vento subiu para os quarenta e trs quilmetros disse
Rita, empurrando o capuz para as costas e removendo os
culos. - A temperatura desceu para os doze negativos e continua
a baixar.
  - Com o arrefecimento provocado pelo vento j estaremos
nos vinte negativos, ou pior do que isso, quando chegar a
altura de levantar o acampamento. - Franz no olhou para cima.
Parecia estar a falar consigo mesmo.
  - Vamos regressar sem problemas.
  - Com zero de visibilidade?
  - As coisas no pioraro tanto, nem to depressa.
  - No conheces os climas polares como eu, por muito que
j os tenhas visto. Olha outra vez l para fora, Rita. A
frente
est a avanar muito mais depressa do que o previsto. Podemos
vir a ter problemas.
  - Ora, Franz, tu e o teu pessimismo teutnico...
  Algo semelhante a um trovo soou por baixo deles e o gelo
estremeceu um pouco. O rumor foi ampliado por um guincho
agudo e quase inaudvel quando as dezenas de estratos de gelo
se moveram uns contra os outros.
  Rita cambaleou mas conseguiu manter o equilbrio. Era como
se estivesse a caminhar pela coxia de um comboio em andamento.

  O rumor afastou-se rapidamente.
  A calma voltou.
  Os olhos de Franz acabaram por a fitar. Tossiu, para limpar
a garganta.
  - Seria o to apregoado grande terramoto do Larsson?perguntou.

  - No. Foi demasiado pequeno. Um grande abalo ao longo desta falha teria
de ser muito maior. Este pequeno tremor
nem sequer seria assinalado na escala de Richter.

  - Um abalo prvio?
  - Pode ser... - respondeu Rita.
  - Quando poderemos esperar o grande acontecimento?
  - Talvez nunca - retorquiu, encolhendo os ombros. - Ou
logo  noite... ou daqui a um minuto.
  Fazendo uma careta, Franz continuou a empacotar instrumentos
no caixote  prova de gua.
  - E estavas tu a falar da minha natureza pessimista...

12.45 HORAS


  Iluminados pelos cones de luz dos dois carros da neve, Roger
Breskin e George Lin acabaram de fixar o emissor de rdio
ao gelo com quatro estacas de sessenta centmetros de
comprimento e a seguir fizeram uma verificao do equipamento.
As suas longas sombras eram to estranhas e distorcidas
como as de selvagens debruados sobre um dolo, enquanto
o canto fantasmagrico do vento poderia ter sido a voz do
deus violento a quem estivessem a rezar.
  A luz sombria do crepsculo invernoso j desaparecera do
cu. Sem os faris dos carros da neve, a visibilidade desceria
para os dez metros.
  O vento fora seco e refrescante durante a manh, mas tornara-se
num inimigo cada vez mais mortal  medida que fora
ganhando velocidade. Naquelas latitudes, o frio de uma tempestade
forte podia atravessar camada aps camada de roupas
trmicas. A neve fina era j empurrada com tanta fora que
parecia passar por eles num percurso paralelo ao gelo do solo.
Era como se estivesse a cair horizontalmente do oeste, e no
do cu por cima deles, e nunca viesse a tocar no cho. De
poucos em poucos minutos eram obrigados a limpar o gelo dos
vidros dos culos e a quebrar a crosta do gelo que se formava
nas mscaras de malha que lhes cobria a metade inferior do rosto.

  Por detrs dos faris cor de mbar, Brian Dougherty desviava
a cara para no ser atingida pelo vento. Dobrando os dedos
dos ps e das mos para os impedir de gelar, perguntava a
si mesmo o que o levara at um local to perdido como aquele No
pertencia ali. Ningum pertencia ali. Nunca vira um stio
to rido. At os grandes desertos tinham mais vida do que
os gelos da calota polar. Todos os aspectos daquela paisagem
serviam para lhe recordar que a vida no era mais do que um
preldio para a morte inevitvel e eterna... e por vezes o
rctico deixava-o to sensvel que conseguia ver o crnio dos outros
membros da expedio, oculto por baixo da pele.
  Claro que fora precisamente por essa razo que resolvera
visitar a calota polar: por causa da aventura, do perigo e da
possibilidade da morte. No mnimo, j descobrira isso a seu
respeito. No entanto, nunca aprofundara o assunto e pensara
ter apenas uma vaga noo dos porqus da sua obsesso pelos
riscos extremos.
  No fim de contas, tinha muitos motivos para permanecer
vivo. Era jovem. Podia no ser considerado muito bonito, mas
tambm no era o corcunda de Notre Dame... e estava apaixonado
pela vida. No menos importante era a enorme fortuna
da sua famlia. Dentro de catorze meses, quando fizesse vinte
e cinco anos, passaria a ter todo o controlo sobre um fundo de
trinta milhes de dlares. No tinha a menor ideia do que iria
fazer com todo esse dinheiro... mas era reconfortante saber
que o teria ao seu dispor. Para alm do mais, o nome da famlia
e a simpatia dispensada a todos os membros do cl Dougherty
podiam abrir-lhe portas que nem sequer o dinheiro conseguiria
deitar abaixo. O tio de Brian, outrora presidente dos
Estados Unidos, fora assassinado por um atirador furtivo.
O pai, um senador dos Estados Unidos, da Califrnia, fora
atingido a tiro, e ficara aleijado, durante uma campanha primria,
nove anos antes. As tragdias dos Dougherty eram matria
para incontveis capas de revistas, desde a People 
Goor!
Housekeeping e da Playboy  Vanity Fair. Tratava-se de uma obsesso
nacional que parecia destinada a evoluir para uma
formidvel mitologia poltica em que os Dougherty eram encarados
no apenas como homens e mulheres vulgares mas sim como semideuses
e semideusas, encarnaes da virtude, da boa vontade
e do sacrifcio.
  A seu tempo, Brian poderia vir a ter uma carreira poltica
prpria, se assim o desejasse. Todavia, era ainda demasiado
novo para enfrentar as responsabilidades e as tradies do nome
da famlia. De facto, fugia a essas mesmas responsabilidades
e  ideia de um dia vir a ter de as aceitar. Havia quatro
anos que desistira de Harvard, apenas com dezoito meses de
estudos de advocacia. A partir de ento viajara pelo mundo,
vadiando  custa dos cartes da American Express e da Carte
Blanche. As suas aventuras escapistas tinham-no feito aparecer
nas primeiras pginas dos jornais de todos os continentes. Enfrentara
um touro numa das arenas de Madrid. Partira um brao
em frica, durante um safari fotogrfico, quando um rinoceronte
atacara o jipe em que se deslocava. Descera os rpidos
do rio Colorado, onde virara a embarcao e quase se afogara.
agora... passava um longo e impiedoso Inverno nos gelos polares.
  O seu nome e a qualidade dos vrios artigos para revistas
que escrevera no eram credenciais suficientes para conseguir
o lugar de cronista oficial da expedio. Todavia, a Fundao
da Famlia Dougherty concedera um subsdio de oitocentos e
cinquenta mil dlares ao Projecto Edgeway, o que fora virtualmente
suficiente para garantir que Brian seria um dos membros
da equipa.
  Durante a maior parte do tempo, fora bem aceite. O nico
antagonismo proviera de George Lin, mas mesmo isso no
passara de uma breve exploso de temperamento de que o
cientista chins acabara por pedir desculpa. Brian estava genuinamente
interessado no projecto e a sua sinceridade granjeara-lhe
amigos.
  Supunha que o seu interesse provinha do facto de ser incapaz
de pensar na hiptese de dedicar toda uma vida a um trabalho
como aquele, mesmo que no to rduo. Apesar de uma
eventual carreira poltica fazer parte do seu legado familiar,
Brian odiava esse jogo vil: a poltica era uma iluso de
servio que mascarava a corrupo do poder. Eram mentiras, enganos,
interesses pessoais e autopromoo, e tambm uma tarefa
apropriada apenas para loucos, venais ou ingnuos. A poltica
era a mscara coberta de jias que ocultava o rosto verdadeiro,
mas desfigurado, do fantasma. Quando ainda era rapaz, o
que vira dos meandros interiores de Washington fora o bastante
para o dissuadir de procurar o seu destino nessa cidade
corrupta.
Infelizmente, a poltica infectara-o com um cinismo
que levava a questionar o valor de qualquer realizao ou meta,
tanto dentro como fora da arena poltica.
Tirava prazer da escrita e pretendia produzir trs ou
quatro artigos sobre a vida no distante norte. De facto, dispunha
de material suficiente para um livro e sentia-se cada vez mais
  impelido a escrev-lo.
  Todavia, um empreendimento to ambicioso era algo que o
  assustava. Um livro - independentemente do facto de ter ou
no o talento e a maturidade para tanto - constitua um
compromisso importante... precisamente o tipo de coisa que andava
a evitar havia tantos anos.
  A famlia pensava que se sentira atrado pelo Projecto Edgeway
por causa do seu potencial humanitrio... e que comeava
a levar o futuro a srio. No quisera desiludi-los... mas
estavam enganados. Inicialmente, fora arrastado para a expedio
apenas por se tratar de uma nova aventura, mais excitante
do que todas as outras em que embarcara, mas igualmente
sem significado.
  E ainda continuava a ser uma aventura, garantia a si mesmo
enquanto observava Lin e Breskin a inspeccionar o emissor,
para alm de ser uma maneira de evitar, durante mais algum
tempo, ter de pensar no passado e no futuro. Mas
ento... porqu o impulso para escrever um livro? No conseguia
convencer-se a si mesmo de que tinha algo a dizer que
merecesse o tempo que algum iria perder a l-lo.
  Os outros dois homens puseram-se de p e limparam a neve
dos culos.
  Brian aproximou-se deles, gritando por cima do vento:
  - J terminaram?
  - Finalmente! - respondeu Breskin.
  O emissor seria tapado pela neve e pelo gelo dentro de
poucas horas mas isso no afectaria o seu sinal. Fora construdo
para funcionar sob condies rcticas e no seu interior
existiam vrias baterias cobertas por camadas de um isolamento
que fora originariamente desenvolvido para a NASA. Emitiria
um sinal muito forte - com dois segundos de durao, dez vezes
por minuto - durante oito a doze dias.
  Quando as cargas explodissem e aquele segmento da calota
polar se soltasse do campo de gelo com uma preciso quase cirrgica,
arrastaria consigo o emissor ao longo do chamado
"Caminho dos Icebergues" at entrar no Atlntico Norte. Dois
rebocadores, que faziam parte da esquadra do Ano Geofsico
das Naes Unidas, encontravam-se quase quatrocentos quilmetros
mais para sul, prontos para vigiar o sinal de rdio.
Com a ajuda de satlites polares geo-sncronos, definiriam a
posio do icebergue por triangulao e aproximar-se-iam at
o poderem identificar visualmente graas ao corante  prova
de gua e auto-expansivo que havia sido espalhado por cima
de vastas reas da sua superfcie.
  A finalidade da experincia era a obteno de uma compreenso
bsica do modo como as correntes de Inverno afectavam
os gelos  deriva. Antes de poderem ser feitos planos para
o reboque do gelo para o sul, para as costas das reas
atingidas pelas secas, os cientistas tinham de saber at que ponto o mar
poderia contrariar os esforos dos rebocadores e se seria
possvel aproveitar as suas correntes.
  No era prtico enviar os rebocadores at junto da calota
polar para capturar o gigantesco icebergue. O oceano rctico
e o mar da Gronelndia estavam cheios de gelos flutuantes e a
navegao era difcil naquela poca do ano. Contudo, dependendo
dos resultados da experincia, talvez viessem a descobrir
que os navios rebocadores no precisavam de tomar contacto
com o bloco de gelo imediatamente a sul do "Caminho
dos Icebergues". Era possvel que pudesse ser deixado ao sabor
das correntes naturais durante mais duzentos ou trezentos
quilmetros antes de se iniciarem os esforos para o conduzir
para as costas mais a sul.
  - Posso tirar algumas fotografias? - perguntou Brian.
  - No h tempo para isso - retorquiu George Lin com
secura. Esfregou as mos, soltando as placas de gelo que se
lhe tinham agarrado s pesadas luvas.
  -  s um minuto.
  - Temos de voltar para Edgeway - disse Lin. -
A tempestade pode barrar-nos o caminho. Se isso acontecer, de
manh seremos outros tantos blocos de gelo e faremos parte da
paisagem.
  - Podemos dispensar um minuto - afirmou Roger Breskin.
No gritava tanto como os outros, mas a sua voz mais
profunda era arrastada pelo vento, cujo gemido lamentoso j
ganhara a intensidade de um uivo ululante.
  Brian sorriu, agradecido.
  - Ests louco? - inquiriu Lin. - No vs esta neve...?
Se nos atrasamos...
  - George, j perdeste mais de um minuto com protestos.
- O tom de Breskin no era acusador, mas apenas o de
um cientista a afirmar um facto observvel.
  Roger Breskin, apesar de s oito anos antes ter emigrado
do Canad para os Estados Unidos, continuava a ser to tranquilo
e calmo como o esteretipo do Canadiano. Contido, reservado,
no fazia amigos - nem inimigos - com facilidade.
  Lin semicerrou os olhos por detrs dos culos. Resmungando,
concordou:
  - Est bem, tira as fotografias. Suponho que o Roger se
quer ver a si mesmo nas pginas das revistas elegantes... mas
Brian no teve outro remdio se no apressar-se. As condies
do tempo no lhe permitiam a procura dos melhores ngulos
nem uma focagem perfeita.
- Est bem assim? - perguntou Roger Breskin, colocando-se
 direita do emissor.
  - Est perfeito.
  Roger dominava a imagem que Brian enquadrou no visor.
Tinha um metro e setenta e oito, e pesava noventa quilos. Era
um pouco mais baixo e leve do que Pete Johnson, mas no
menos musculoso do que a antiga estrela de rguebi. Fora halterofilista
dos vinte aos trinta e seis anos. Tinha bceps
enormes,
cobertos por uma teia de veias que se pareciam com tubos
de ao. O volumoso equipamento rctico dava-lhe a
impressionante figura de um urso, e parecia, mais do que qualquer
dos outros, fazer parte daquelas vastides geladas.
  De p  esquerda do emissor, George Lin era to diferente
de Breskin como um beija-flor de uma guia. Era mais delgado
e magro do que Roger, mas as diferenas no se reduziam
apenas ao aspecto fsico. Enquanto Roger permanecia to silencioso
e imvel como um pinculo de gelo, Lin oscilava de
um lado para o outro como se fosse explodir de energia nervosa.
No tinha nada da pacincia que se dizia ser uma caracterstica
das mentalidades asiticas. Ao contrrio de Breskin,
no pertencia quelas vastides geladas e sabia-o.
  George Lin nascera em 1946, em Canto, China continental
- com o nome de Lin Shem-yang -, pouco antes da revoluo
de Mao Tse-Tung ter expulso o Governo do Kuomintang
e estabelecido um estado totalitrio. A famlia s conseguira
fugir para Taiwan quando George fizera sete anos. Naqueles
seus primeiros anos em Canto acontecera-lhe qualquer coisa
de monstruoso que o traumatizara para sempre. Ocasionalmente
aludia ao assunto mas recusava-se a falar dele directamente
por no ser capaz de enfrentar o horror das recordaes
ou porque a habilidade de Brian como jornalista era insuficiente
para lhe arrancar a histria.
  - Despacha-te! - incitou-o Lin. O seu bafo encapelava-se
em meadas de fios cristalinos que se desfaziam no vento.
  Brian focou a mquina e carregou no disparador. O claro
do flash electrnico reflectiu-se na neve e figuras de luz
saltaram
e danaram misturadas com figuras de sombras, mas a escurido
voltou imediatamente a cair sobre eles, detendo-se;
como que agachada, nos limites iluminados pelas lanternas de
cabea.
  Brian disse:
  - S mais uma para...

  Os gelos ergueram-se abruptamente, como o pavimento
motorizado de um divertimento de feira. Inclinaram-se primeiro
para a esquerda, depois para a direita... e desceram de repente.
  Brian caiu e bateu com tanta fora no gelo que nem sequer
o espesso acolchoamento das roupas chegou para amortecer a
pancada. O doloroso impacte ps-lhe os ossos a chocalhar, levando-os
a embaterem uns com os outros como se fossem pauzinhos
I Ching a tilintarem numa taa de metal. O gelo voltou
a subir, agitou-se e estremeceu, como se tentasse, com todas
as suas foras, libertar-se do topo do mundo e precipitar-se
no espao.
  Um dos trens motorizados, com o motor em funcionamento,
caiu de lado, a centmetros da sua cabea, lanando estilhaos
de gelo que lhe explodiram no rosto, agulhas brilhantes
que lhe picaram a pele e que, por milagre, lhe pouparam
os olhos... Os esquis da mquina vibravam suavemente, como
se fossem apndices de um insecto, mas o motor acabou por se
afogar.

  Entontecido, em choque, com o corao a martelar, Brian
levantou a cabea com cuidado e verificou que o emissor continuava
firmemente ancorado. Breskin e Lin estavam cados na
neve, depois de terem sido atirados para um lado e para o outro,
tal como ele, como se no passassem de bonecos. Brian
comeou a levantar-se... mas voltou a cair quando a calota
gelada se agitou ainda mais violentamente do que na primeira
vez.
  Brian tentou firmar-se numa pequena depresso no gelo,
encaixando-se dentro dos seus contornos naturais para no
ser atirado contra o tren motorizado ou contra o emissor.
era evidente que um macio tsunami passava directamente
por baixo deles. Centenas de milhes de metros cbicos de
gua a erguerem-se com a fria vingativa e com toda a fora
do despertar de um deus irado.
  O tren motorizado deslizou sobre um lado. A luz dos
faris passou por cima de Brian por duas vezes, expulsando
  sombras como se estas fossem folhas arrastadas pelo vento
provenientes de latitudes mais quentes, mas depois detiveram-se,
iluminando os outros homens.
Mas De sbito, por detrs de Roger Breskin e George Lin, o
  gelo estalou repentinamente, com um estrondo ensurdecedor,
abrindo-se como uma boca irregular e demonaca.
o mundo desfazia-se em pedaos.
  Brian gritou um aviso.
  Roger agarrou uma das grandes barras de ao que fixava
o emissor ao gelo, segurando-se com as duas mos.
  O gelo ergueu-se pela terceira vez. O campo branco inclinou-se
na direco da nova e gigantesca fenda.
  Apesar de tentar desesperadamente manter-se colado ao
cho, Brian deslizou para fora da depresso onde procurara
abrigo, como se no existisse qualquer espcie de frico
inibidora entre ele e o gelo. Precipitou-se em direco ao abismo,
agarrou-se ao emissor quando passou junto dele, embateu contra
Roger Breskin com toda a fora e segurou-se com firme
determinao.
  Roger gritou qualquer coisa a respeito de George Lin, mas
os uivos do vento e o rugido dos gelos a quebrarem-se subverteram
o significado das palavras.
  Espreitando pelos culos cobertos de neve, sem grande
vontade de largar o seu precrio apoio para os limpar, Brian
olhou por cima do ombro.
  Gritando, George Lin deslizava para o rebordo do abismo,
tentando agarrar-se ao gelo. No momento em que a ltima vaga
do tsunami passava por baixo deles e os gelos assentavam,
Lin desapareceu no precipcio.

  Franz sugerira que Rita continuasse a empacotar o equipamento
enquanto ele se dedicava  pesada tarefa de carregar as
caixas nos reboques de carga. Era to condescendente para
com o "sexo fraco", embora de uma maneira inconsciente, que
Rita rejeitou a sugesto. Puxou o capuz para cima, fez
deslizar os culos para os olhos e levantou uma das grandes caixas j
cheias antes que Franz tivesse tempo para protestar.
  No exterior, quando colocava a caixa  prova de gua sobre
um dos compridos reboques de carga, sentiu o primeiro abalo
a agitar o gelo. Foi atirada para a frente, para cima das
caixas.
O duro canto de uma das caixas cortou-lhe a face. Rolou para
o outro lado do atrelado e caiu na neve que se amontoara em
volta da mquina durante a ltima hora.
  Confusa e assustada, ps-se de p logo que passou a primeira
vaga do tsunami. Os trens motorizados tinham os motores
em funcionamento para irem aquecendo antes da viagem
de regresso a Edgeway. Os faris perfuravam a neve que caa,
dando-lhe a iluminao suficiente para ver aparecer a primeira
larga fenda na parede quase vertical do espinhao de presso
de quase quinze metros de altura que protegera - e que agora
ameaava - o acampamento temporrio. Surgiu uma segunda
fenda a partir da primeira, uma terceira, uma dzia, uma centena...
Era como a intrincada teia de fissuras no pra-brisas
de um automvel que tivesse sido atingido por uma pedra. O espinhao
de gelo ia ruir.
  Gritou para Fischer, que ainda se encontrava na tenda, na
extremidade oeste do acampamento.
  - Corre, Franz! - Foge da!
  Sem perder tempo, seguiu o seu prprio conselho sem sequer
ousar olhar para trs.

  A sexagsima carga explosiva no era diferente das outras
cinquenta e nove que j haviam sido colocadas no gelo: tinha
doze centmetros de dimetro, um metro e meio de comprimento
e extremidades lisas e arredondadas. A parte inferior
do cilindro era ocupada por um sofisticado sistema temporizador
e detonador, sincronizado com os detonadores das outras
cargas. A maior parte do tubo estava cheia de explosivos plsticos.
A extremidade superior do cilindro terminava numa
argola de ao que estava ligada a uma corrente de ao temperado.

  Harry Carpenter desenrolou a corrente do guincho com a
ajuda de uma pequena manivela, fazendo descer a carga quinze
quilos do invlucro metlico e cinquenta quilos de explosivos
plsticos - para o estreito furo aberto na neve. Trabalhava
com cuidado porque a carga era equivalente a setecentos
e cinquenta quilos de TNT. Teve de descer vinte e trs
metros de corrente antes de a sentir a tocar no fundo. Soltou
uma das extremidades da corrente e puxou-a com suavidade
para fora do estreito poo, acabando por a fixar numa vara espetada
no gelo, ao lado do buraco, com a ajuda de um mosPete
Johnson estava dobrado ao lado de Harry. Olhou para
Francs, por cima do ombro, e gritou para se fazer ouvir por
entre os uivos do vento:
- Estamos prontos, Claude.
Num reboque de carga, pousado sobre as resistncias de
um aquecedor elctrico, encontrava-se um barril que tinham
enchido com neve. Estava cheio, at ao cimo, de gua a ferver
O vapor erguia-se da superfcie da gua e gelava instantaneamente,
transformando-se em nuvens de brilhantes cristais
que dispersavam no meio da neve empurrada pelo vento.
era como se uma infindvel procisso de fantasmas se erguesse de
um caldeiro mgico e voasse para todos os cantos da

Claude Jobert fixou a mangueira de metal  vlvula do barril.
Abriu a vlvula e entregou a ponta da mangueira a Carpenter.
  Abrindo a torneira de purga, Harry despejou a gua quente
para o furo aberto no gelo. Ficou selado em apenas trs minutos.
A carga explosiva estava agora rodeada por gelo novo.
  Se o furo ficasse aberto, a fora da exploso dirigir-se-ia
quase toda para o alto, acabando por se perder. As cargas haviam
sido desenhadas para explodir para baixo e difundir a sua
energia para os lados, pelo que o orifcio no gelo deveria
estar bem fechado a fim de se obterem os efeitos desejados.
 meia-noite, quando aquela carga explodisse em simultneo
com as outras, o gelo novo introduzido no orifcio saltaria
para cima como uma rolha mas no permitiria a dissipao da
maior parte da fora da exploso.
  Pete Johnson passou as mos enluvadas por cima da rolha
de gelo.
  - Agora, j podemos voltar para Edgeway...
  Os gelos ergueram-se, inclinaram-se para a frente, rugindo
como um gigantesco monstro... e depois gemeram quando regressaram
 sua posio originria.
  Harry foi atirado para a frente e embateu com o rosto no
cho. Os culos comprimiram-se, com toda a fora, contra as
faces e as sobrancelhas. Sentiu o calor do sangue a escorrer-lhe
do nariz e saboreou-o na boca.
  Pete e Claude tambm tinham cado e estavam agarrados
um ao outro. Harry teve um breve relance dos dois homens,
grotescamente abraados, como se fossem um par de lutadores.
  O gelo voltou a agitar-se.
  Harry rolou de encontro a um dos trens motorizados.
A mquina saltava para cima e para baixo. Agarrou-se a ela
com as duas mos e rezou para que o tren no acabasse por
cair em cima dele.
  A sua primeira ideia foi a de que a carga explosiva lhe tinha
rebentado na cara e que estava morto ou moribundo. Porm,
quando os gelos se agitaram mais uma vez, compreendeu
que as vagas de mar, sem dvida provocadas por um violento
tremor de terra submarino, deveriam estar a passar por baixo
da calota polar.
  Quando a terceira vaga chegou, o mundo branco que rodeava
Harry estalou e guinchou como se um ser pr-histrico
h muito adormecido estivesse a erguer-se por baixo dele... e
viu-se suspenso no alto de uma rampa de gelo. S a inrcia o
manteve no meio do ar, no alto da vertente. De um momento
para o outro, poderia comear a deslizar para o fundo, ao lado
do tren motorizado, que talvez o atingisse.
   distncia, o som do gelo a partir-se e a esmagar-se perfurava
a noite e o vento. Eram os protestos agoirentos de um
mundo quebradio que se desfazia. O rugido aproximava-se de
segundo para segundo e Harry preparou-se para o pior.
  Depois, subitamente, to depressa como comeara - menos
de um minuto antes -, o terror cessou. Os gelos desceram,
tornaram-se planos e ficaram imveis.

  Tendo-se afastado o suficiente para se sentir a salvo da
queda do espinhao gelado, Rita parou e deu meia volta para
olhar para o acampamento temporrio. Estava s. Franz no
sara da tenda.
  Um pedao de gelo com as dimenses de um camio libertou-se
do espinhao e caiu com uma graa fantasmagrica, esmagando
a tenda no habitada na extremidade leste do acampamento
em forma de crescente. A cpula insuflvel rebentou
como um balo de criana.
  - Franz!
  O espinhao largou um outro fragmento de gelo, muito
maior do que o primeiro. Espiras geladas, placas e pedregulhos
precipitaram-se sobre o acampamento, fragmentando-se
em estilhaos gelados, esmagando a tenda central, virando um
tren motorizado e rasgando a tenda mais a oeste, de onde
Franz ainda no sara, e cuspindo milhares de fragmentos de
gelo que brilhavam como uma chuva de fascas.
  Tinha outra vez seis anos, gritava at a garganta ceder... e
de sbito j no sabia muito bem se chamava por Franz, pela
me ou pelo pai.
  Fosse por sua causa ou no, Franz gatinhou para fora da
tenda de nylon quando o dilvio ainda caa  sua
volta e correu para ela. Morteiros de gelo explodiam  esquerda
e  direita, mas o homem tinha a graa de um corredor de
corta-mato e a velocidade nascida do terror. Afastou-se da zona
da avalancha e atingiu a segurana.
 Enquanto o espinhao se estabilizava e o gelo deixava de
cair, Rita foi abalada por uma vvida imagem de Harry, algures
esmagado por baixo de um branco e brilhante monlito,
  naquela cruel noite polar a preto e branco. Cambaleou, no
  por causa do movimento de gelos, mas sim porque o pensamento
de vir a perder Harry a abalara. Desistiu de tentar manter
o equilbrio, sentou-se no gelo e comeou a tremer de um
  modo incontrolvel.
  S os flocos de neve se moviam, caindo em cascata da escurido
do oeste e desaparecendo na escurido do leste.
O nico som era o da voz amarga do vento cantando um requiem.

  Harry manteve-se agarrado ao tren motorizado, mas ps-se
de p. Tinha o corao a palpitar com tanta fora que parecia
estar a bater-lhe nas costelas. Tentou conseguir alguma saliva
para lubrificar a boca ressequida. O medo secara-a com tanta
eficincia como os ventos quentes do Sara. Quando recuperou a respirao,
tratou de limpar os culos e olhar em volta.
  Pete Johnson ajudava Claude a pr-se de p. O francs no
se aguentava nas pernas mas era visvel que no estava ferido.
Pete nem sequer vacilava sobre os joelhos. No fim de contas,
talvez fosse to indestrutvel como parecia.
  Os dois trens motorizados continuavam direitos e intactos.
Os faris apontavam para a vasta noite polar, mas nada revelavam
para alm daquele mar de neve fervilhante, soprada pelo
vento.
  Cheio de adrenalina, Harry voltou, por instantes, a
sentir-se como um rapazinho, corado de excitao, entusiasmado com o
perigo, encantado com o simples facto de ter sobrevivido.

  A seguir lembrou-se de Rita e sentiu que o seu sangue se
tornava mais frio do que se estivesse nu e sujeito ao
impiedoso vento polar. O acampamento temporrio fora montado debaixo
de uma grande parede de gelo, que o protegera. Nas condies
normais, aquele era o melhor lugar... Porm, com todos
aqueles abalos, a parede de gelo podia ter-se desfeito e...
  O rapazinho perdido sumiu-se no passado a que pertencia,
tornou-se apenas numa recordao, entre muitas outras, dos
campos de Indiana, dos esfarrapados exemplares do National
Geographic, das noites de Vero passadas a olhar para as estrelas
e para os horizontes distantes.
  "Mexe-te", pensou, envolto por um medo muito maior do
que o que sentira por ele prprio apenas momentos antes.
"Arruma as coisas, mexe-te, vai  procura dela."
  Apressou-se para junto dos outros homens.
  - Algum se magoou? - perguntou.
  - Estou apenas um pouco abalado - respondeu Claude.
Era um homem que no s recusava render-se  adversidade
como parecia sentir-se feliz no meio dela. Comentou, com um
sorriso muito mais brilhante do que todos os que exibira naquele
dia: - Que grande cavalgada!
  Pete lanou uma olhadela a Harry.
  - E tu? - inquiriu.
  - Estou bem.
  - Ests a sangrar.
  Quando Harry tocou no lbio superior, os brilhantes fragmentos
de sangue congelado, parecidos com rubis, agarraram-se-lhe
 luva.
  -  do nariz. J parou.
  - H uma boa cura para as pessoas que sangram do nariz...
- comentou Pete.
  - Qual ?
  - Gelo na nuca.
  - Devia abandonar-te aqui s por causa dessa graa!
  - Arrumemos tudo e vamo-nos embora.
  - O acampamento pode estar com problemas graves...
declarou Harry, sentindo o estmago a dar nova volta quando
considerou a possibilidade de ter perdido Rita.
  - Era nisso que eu estava a pensar...
  O vento empurrava-os enquanto trabalhavam. Os flocos de
neve eram finos mas caam em abundncia e a tempestade precipitava-se
sobre eles com uma velocidade surpreendente.
Num reconhecimento no expresso do perigo crescente, moviam-se
com uma urgncia tranquila.
  Pete chamou-o quando Harry fixava os ltimos instrumentos
no reboque do segundo tren motorizado. Limpou os culos e
dirigiu-se  segunda mquina.
  Mesmo sob a luz incerta, Harry viu a preocupao nos
olhos de Pete.
  - O que ?
  - Durante os abalos... os trens deslocaram-se muito?
  - Sim, andaram aos saltos para cima e para baixo, como
se estivessem num trampolim.
  - S para cima e para baixo?
  - Que se passa?
  - No se deslocaram de lado?
  - O qu?
  - Bom... no tero deslizado de lado e dado meia volta?
  Harry virou a cabea para o vento e inclinou-se para Pete.
  - Estive agarrado a um deles. No mudou de posio.
Que tem isso a ver...?
- De leste.
- Tens a certeza?
  - Absoluta.
  - Tambm eu. Recordo-me de a neve vir do leste.
  - Na direco do acampamento temporrio.
  O bafo das respiraes amontoava-se no pequeno espao
protegido, entre os dois, e Pete agitou a mo para dispersar
os cristais. A seguir, mordeu o lbio.
  - Ento... estarei a ficar louco?
  - Porqu?
  - Para j, por causa disto... - Bateu na cobertura plstica
da bssola do tren motorizado, fixada na frente do pra-brisas.
  Harry leu a bssola. De acordo com o ponteiro, o tren
motorizado estava virado para sul... o que constitua uma
alterao
de noventa graus em relao ao que indicara antes de o
gelo ter sido abalado pelas ondas ssmicas.
  - No  tudo - continuou Johnson: - quando estacionmos
aqui, sei muito bem que o vento nos atingia pelas costas,
talvez ligeiramente da esquerda. Recordo-me de como empurrava
a traseira do tren.
  - Tambm eu.
  - Agora, est a soprar de lado, da direita, para quem estiver
instalado por detrs do guiador.  uma grande diferena.
Os ventos de tempestade so constantes. No mudam noventa
graus em questo de minutos... No o fazem, Harry. Nunca!
  - Mas... se o vento no mudou de direco e os trens
motorizados no se deslocaram, isso quer dizer que o gelo em
que estamos...
  A voz morreu-lhe na garganta.
  Ficaram ambos em silncio.
  Por fim, Pete concluiu o pensamento:
  ... deve ter descrito um quarto de volta da bssola.
  - Como  que isso  possvel?
  - Tenho uma ideia...
  Harry acenou, relutante:
  - Sim, tambm eu.
  - S h uma explicao que faz sentido.
  -  melhor ir ver a bssola do meu tren.
  - Estamos num grande sarilho, Harry.
  - Sim, a perspectiva no  das melhores...
  Apressaram-se para junto do segundo veculo, com a neve
fresca a estalar por baixo das botas.
  Pete bateu na cobertura da bssola.
  - Este tambm est virado para sul.
  Harry limpou os culos mas no falou. A situao era to
estranha que no ousava p-la em palavras... como se o pior
no pudesse acontecer enquanto a possibilidade no fosse
anunciada.
  Pete observou a inspita paisagem que os rodeava.
  - Se o maldito vento ganhar velocidade e a temperatura
continuar a descer... e de certeza que ir descer... quanto
tempo sobreviveremos aqui?
  - Com os nossos abastecimentos... nem um nico dia.
  - A ajuda mais prxima...
  ... est nos rebocadores das Naes Unidas...
  ... a trezentos quilmetros de distncia.
  - Trezentos e sessenta.
  - Alm disso, no avanaro para o norte no meio de
uma tempestade to forte, por causa de todos os icebergues
que por a andam.
  Calaram-se os dois. O uivo fantasmagrico do vento preencheu
o silncio. A neve endurecida, atirada pela fria da tempestade,
mordia as zonas expostas do rosto de Harry, no obstante
ter a pele protegida por uma camada de vaselina.
  Por fim, Pete perguntou:
  - E agora?
  Harry abanou a cabea.
  - Uma coisa  certa... No  hoje que voltaremos para a
Estao Edgeway.
  Claude Jobert juntou-se a eles a tempo de ouvir a ltima
frase. A sua expresso de alarme foi inconfundvel mesmo
apesar de ter a parte inferior do rosto coberta por uma mscara
de neve e dos olhos s serem meio visveis por detrs dos
culos. Pousou uma das mos no brao de Harry.
  - Que se passa?
  Pete dirigiu-se a Claude:
  - Aquelas ondas... quebraram parte do campo de gelo.
  O Francs apertou o brao de Harry com mais fora.
  Sem vontade de acreditar nas suas prprias palavras, Pete
- Estamos  deriva, num icebergue.
- No pode ser! - exclamou Claude.
-  incrvel... mas  verdade - afirmou Harry. - Afastamos-nos
da Estao Edgeway a cada minuto que passa... e
mergulhamos cada vez mais no interior da tempestade.
Claude tinha relutncia em aceitar a verdade. Olhou de
relance para Pete, e depois perscrutou a assustadora paisagem
  Brian precisou de alguns momentos para absorver a notcia
e compreender todo o horror da situao.
  - Separmo-nos... Quer dizer que estamos  deriva?
  - Sim... num navio de gelo.
  O vento soprou com rajadas to fortes que durante meio
minuto Brian no conseguiria ser ouvido mesmo que gritasse a
plenos pulmes. Os flocos de neve agitavam-se furiosamente
como milhares de abelhas zangadas, mordendo-lhe as partes
expostas da pele e forando-o a puxar a mscara para cima,
para tapar a boca e o nariz.
  Quando as rajadas abrandaram, Brian inclinou-se para Roger
Breskin.
  - Que se passar com os outros?
  - Tambm podem estar neste icebergue... mas esperemos
que tenham ficado numa zona mais segura.
  - Deus do Cu!
  Roger desviou a luz da lanterna do local onde haviam esperado
que se encontrasse a outra parede da fenda. O feixe
apontou para baixo, para o vazio.
  No conseguiriam ver a face do precipcio de gelo que se
iniciava mesmo na frente deles a no ser que avanassem um
pouco mais e se debruassem, mas nenhum deles tinha vontade
de se expor a um risco to extremo.
  A plida luz apontou para a esquerda e para a direita, acabando
por tocar no mar encrespado e negro que se agitava vinte
ou trinta metros mais abaixo. Grandes placas de gelo planas,
fragmentos irregulares, contorcidos amontoados e pequenos
blocos delicados e rendados, sempre mutveis, mergulhavam
nas covas das vagas, entrechocavam-se na crista das ondas tocados
pela luz da lanterna, e brilhavam como diamantes espalhados
por cima de veludo negro.
  Hipnotizado pelo caos revelado pela lanterna, engolindo
com dificuldade, Brian disse:
  - George caiu ao mar. Perdemo-lo.
  - Talvez no.
  Brian no compreendia que pudesse ter-se verificado uma
alternativa mais feliz. O mal-estar nas tripas transformara-se
em verdadeiras nuseas.
  Rastejando sobre a neve com a ajuda dos cotovelos, Roger
avanou a pouco e pouco at poder espreitar por cima do rebordo
de gelo, directamente para a face do precipcio.
  No obstante as nuseas e de ainda se encontrar preocupado
com a possibilidade da chegada de outro tsunami que o lanasse
para o tmulo de George Lin, Brian arrastou-se para o
lado de Roger.
  A luz da lanterna encontrou o local onde a ilha de gelo
mergulhava no mar. A face do icebergue no fora cortada a direito.
Na sua base tinham-se formado trs terraos
irregulares, cada um deles com seis a oito metros de largura e separados
entre si por cerca de dois metros. Esses terraos tinham
tantas fendas e esquinas aguadas como o fundo de uma qualquer falsia
rochosa em terra firme. Como o icebergue tinha talvez
cento e oitenta metros mergulhados no mar, as ondas da tempestade
no podiam passar por baixo dele: atiravam-se contra
os trs terraos e desfaziam-se nas salincias de gelo
brilhante, explodindo em gordas gotas de espuma gelada.
  Se tivesse sido apanhado por tais vagas, Lin seria desfeito
em bocados. A sua morte teria sido mais piedosa se tivesse
mergulhado repentinamente naquelas guas terrivelmente geladas
e sofresse um ataque de corao fatal antes de as ondas
terem a oportunidade de o atirar contra os recortes do gelo,
despedaando-o.
  A luz deslocou-se mais lentamente, revelando novas zonas
da parede de gelo. Por cima dos trs terraos, l em baixo, e
numa distncia de talvez quinze metros, o gelo tinha uma
inclinao
de sessenta graus, o que podia no ser muito, mas s
era acessvel a um montanhista experimentado e bem equipado.
Seis metros abaixo deles, a face do icebergue era cortada
por um outro terrao apenas com algumas dezenas de centmetros
de largura, inclinado para a face do gelo. A partir da,
o gelo subia na vertical at ao ponto onde se encontravam.
  Depois de fazer uma pausa para limpar a crosta de neve
que lhe cobrira os culos, Roger Breskin serviu-se da lanterna
para explorar essa estreita salincia.
  George Lin, que at a se mantivera encoberto pela escurido,
cara na salincia e encontrava-se seis metros mais abaixo,
cerca de dois metros e meio para a direita. Estava
deitado de lado, com as costas encostadas ao icebergue e o rosto
virado para o mar. Tinha o brao esquerdo por baixo do corpo e o
  direito por cima do peito. Assumira uma posio fetal, com os
  joelhos puxados para cima tanto quanto o permitira a sua espessa
roupa rctica, e a cabea encostada ao peito.
  Roger levou a mo livre junto da boca e gritou:
  - George! Ests a ouvir-me? George!
  Lin no se mexeu nem respondeu.
  - Achas que est vivo? - perguntou Brian.
  - Deve estar. A queda no foi grande... e as roupas so almofadadas
e isoladas. Devem ter absorvido parte do impacte.
  Brian colocou as duas mos em volta da boca e gritou para
Lin.
  A nica resposta foi a do vento, que aumentava de fora...
e era fcil de acreditar que o seu uivo estava repleto de
alegria malevolente, que era um vento vivo que os desafiava a conservarem-se
mais algum tempo junto  beira do precipcio.
  - Temos de descer para o ir buscar - declarou Roger.
  Brian estudou os seis metros de parede de gelo vertical que
descia at  salincia.
  - Como?
  - Temos cordas e ferramentas.
  - Sim, mas no temos equipamento de alpinismo.
  - Improvisamos.
  - Improvisamos?! - exclamou Brian, com espanto. - Alguma
vez fizeste montanhismo nos gelos?
  - No.
  - Isto  de loucos!
  - No temos por onde escolher.
  - Tem de haver outra maneira!
  - Sim? Como?
  Brian ficou calado.
  - Vamos ver as ferramentas.
  - Arriscamo-nos a morrer ao tentar salv-lo.
  - No lhe podemos virar as costas.
  Brian olhou para a figura encolhida, deitada no rebordo de
gelo. Estivera numa arena espanhola, na savana africana, descera
o rio Colorado, fizera mergulho livre ao largo de Bimini,
numa zona infestada de tubares... Desafiara a morte sem
grande medo em lugares distantes e de muitas maneiras imaginativas.
Perguntava a si mesmo porque estaria a hesitar. Bem
vistas as coisas, os riscos que correra haviam sido inteis e
tudo no passara de um jogo de crianas. Agora, tinha uma boa
razo para se arriscar: havia uma vida humana em perigo. Ento,
qual era o problema? No queria ser um heri? J existiam
demasiados heris na famlia Dougherty... polticos sequiosos
de poder que se tinham feito heris para constarem
nos livros da histria...
  - Bom, vamos ao trabalho - declarou Brian, finalmente.
- O George morrer gelado se ficar ali muito mais tempo.

13.05 HORAS


Brian Dougherty serviu-se do sifo para retirar gasolina do
depsito do tren motorizado que se mantivera direito e despejou-a
numa zona de meio metro de comprimento, no rebordo
do gelo.
Roger Breskin torceu um fsforo qumico, para o abrir, e
atirou-o para a gasolina. As chamas irromperam, agitaram-se
ao vento como asas esfarrapadas e desapareceram em poucos minutos.
Ajoelhando-se no local do fogo, Brian examinou o rebordo
do precipcio. O gelo, que fora irregular, estava agora liso e
escorregadio. A corda deslizaria sobre ele sem se desgastar.
- Est bem assim? - perguntou Roger.
Brian concordou com um aceno.
Roger dobrou-se e pegou na ponta livre de uma corda de
5 metros que amarrara  estrutura do tren motorizado e
tambm prendera a uma comprida barra metlica semelhante
s que usara para fixar o emissor de rdio. Passou-a rapidamente
em volta do peito e ombros de Brian, improvisando
uma espcie de arns. Atou-a com trs fortes ns no centro do
peito do homem mais novo e disse:
- Vai aguentar.  de nylon, testada para suportar quinhentos
quilos. No te esqueas de segurar a corda por cima
da cabea para aliviar um pouco a presso sobre os ombros.
Temendo que a voz lhe sasse com reveladoras tremuras de
nervosismo, Brian voltou a acenar.
Roger regressou ao tren motorizado, que se encontrava
virado para o precipcio e que desligara do reboque de carga.
pulou para a cabina e fechou a porta. Aguentou os traves e
acelerou um pouco o motor.
Receoso, Brian deitou-se em cima do gelo, sobre a barriga.
respirou fundo atravs da mscara de malha, hesitou apenas
por um instante... e empurrou-se para o abismo, de ps para a
frente. Apesar de a queda no ter sido grande, o seu estmago
sobressaltou-se e sentiu o terror a percorr-lo como se fosse
uma corrente elctrica. A corda ficou esticada, detendo a descida
quando o alto da cabea se encontrava a apenas centmetros
do topo do icebergue.
  A corda suspensa no rebordo do gelo era ainda demasiado
curta para que a pudesse segurar com as mos por cima da cabea.
Era obrigado a aguentar todo o esforo com os ombros.
Sentiu imediatamente uma dor difusa nas articulaes, nas costas
e na base do pescoo. Era uma dor que rapidamente se tornaria
demasiado intensa.
  - Vamos, Roger, vamos... - murmurou. - Despacha-te.
  Brian encontrava-se virado para a parede de gelo. Tocava-lhe
e embatia nela sempre que os fortes ventos o empurravam.
  Atreveu-se a virar a cabea para o lado e olhar para baixo,
 espera de ver apenas um vazio negro. Contudo, longe do claro
dos faris dos trens, os seus olhos ajustavam-se rapidamente
 escurido e a vaga fosforescncia natural do gelo permitia-lhe
ver a parede lisa do icebergue e as salincias do
fundo. Dezoito ou vinte metros mais abaixo, as franjas brancas
das ondas revoltas exibiam uma fantasmagrica luminescncia prpria
quando se erguiam, em fileiras cerradas, do escuro da
noite, e se lanavam contra o icebergue numa fria espumosa:
  Roger Breskin ps o motor num andamento to lento que
a mquina quase se foi abaixo.
  Pensou no problema pela ltima vez: Dougherty tinha um
metro e oitenta de altura e o rebordo de gelo ficava seis metros
mais abaixo. Assim, tinha de descer Dougherty cerca de
seis metros para o colocar em cima do rebordo. A seguir teria
de lhe dar mais dois metros de corda para lhe permitir a mobilidade
suficiente quando tratasse de George Lin. Haviam
medido seis metros de corda, que estavam agora assinalados com
um brilhante farrapo de tecido vermelho. Quando essa marca
desaparecesse para l do rebordo, Dougherty estaria em posio.
Porm, a corda tinha de descer o mais devagar que fosse
possvel ou o rapaz arriscar-se-ia a bater contra o lado do
icebergue e a ficar inconsciente.
  Alm disso, o tren encontrava-se apenas a doze metros do
precipcio. Se avanasse demasiado depressa, Roger talvez no
conseguisse det-lo a tempo de se salvar a si mesmo... e muito
menos Dougherty e Lin. Preocupava-o a possibilidade de a
velocidade mnima da mquina poder ser demasiado rpida para
aquele trabalho. Hesitava... agora que estava pronto para comear.

  Uma rajada de vento mais violenta apanhou Brian por trs
e pela direita, comprimindo-o contra a parede do icebergue
mas empurrando-o tambm para a esquerda, pelo que ficou
pendurado num ngulo ligeiro. Momentos depois, quando o
vento abrandou talvez para os sessenta quilmetros por hora,
voltou a oscilar para a direita e ficou a balouar como um
pndulo,
descrevendo arcos de perto de um metro.
  Espreitou para o ponto onde a corda desaparecia na parte
superior do icebergue. Mesmo apesar de ter amaciado o gelo
com a gasolina a arder, qualquer frico poderia desgastar a
corda de nylon.
  Fechou os olhos e descontraiu-se no seu arns, esperando
que o descessem para o rebordo de gelo. Tinha a boca to seca
como um homem a vaguear pelo deserto e sentia o corao a
bater com fora suficiente para lhe partir as costelas.
  Como Roger tinha muita experincia com os trens motorizados,
parecera mais lgico e razovel que fosse Brian a
descer
para ir salvar George Lin. Agora, contudo, desejava ser ele o
especialista em trens. Porque seria que estava a demorar tanto?
- A sua impacincia evaporou-se quando, repentinamente, se
sentiu a cair como se a corda tivesse sido cortada. Aterrou no
rebordo de gelo com tanta fora que a dor lhe trepou pelas
pernas at ao alto da espinha. Os joelhos cederam como se
  fossem de carto molhado. Embateu contra a face do icebergue,
ressaltou e caiu do rebordo, suspenso na noite varrida pelo
vento.
- Estava demasiado aterrorizado para gritar.

O tren arrancou e atirou-se para a frente com demasiada velocidade.
Roger accionou o travo logo aps o ter soltado. O trapo
vermelho desaparecera para l da beira do icebergue, mas a
mquina continuava a avanar. Como a superfcie do gelo fora
limpa da neve e polida pelos ventos constantes, oferecia muito
pouca traco. O tren deslizou mais trs metros, antes de se
deter a menos de trs metros do abismo.

- arns apertava o peito de Brian logo por baixo dos braos.
Contudo, quando comparada com a dor pulsante que sentia
nas pernas e nas costas, essa nova agonia era
perfeitamente suportvel.
  Estava surpreendido por ainda continuar consciente... e
e vivo.
  Soltando a lanterna elctrica que levava no cinturo de ferramentas
que lhe rodeava a cintura, cortou a escurido  sua
volta com uma espada de luz enquanto as torrentes de neve se
precipitavam sobre ele.
  Tentando no pensar no mar gelado que se encontrava l
em baixo, olhou para o rebordo de gelo que ultrapassara. Estava
quase a um metro e meio acima da sua cabea. Um metro
para a sua direita, os dedos enluvados da mo direita de George
Lin, aparentemente inerte, sobressaam no gelo.
  Brian estava novamente a balouar para um lado e para o
outro. A corda que lhe protegia a vida raspava contra o rebordo
de gelo... que no fora amaciado com gasolina a arder e
que emitia um brilho duro. Pequenos fragmentos de gelo precipitavam-se
sobre ele enquanto a corda escavava uma concavidade
na superfcie abrasiva.
  Foi atingido pela luz de uma lanterna, vinda do alto.
  Brian levantou os olhos e viu Roger Breskin a espreit-lo
do topo do icebergue.
  Deitado no gelo, com a cabea por cima do precipcio e o
brao direito estendido para segurar na lanterna, Roger levou
a mo livre  boca e gritou qualquer coisa. O vento desfez as
palavras, transformando-as em incompreensveis farrapos de
som.
  Brian levantou a mo e respondeu com um aceno fraco.
  Roger voltou a gritar, agora com mais fora:
  - Ests bem? - A voz parecia vir do fundo de um tnel
ferrovirio com quilmetros de comprimento.
  Brian acenou to bem como era capaz: sim, estou bem:
No tinha maneira de transmitir, apenas com um aceno, o medo
que sentia e a preocupao por causa da permanente dor
nas pernas.
  Breskin gritou, mas Brian s conseguiu ouvir algumas palavras:
  - Vou... tren... atrs... te puxar.
  Brian acenou outra vez.
  ... devagar... pode... demasiado depressa... o gelo.
  Roger desapareceu apressadamente. Era bvio que se
dirigia para o tren motorizado.
  Deixando a lanterna elctrica acesa, Brian prendeu-a
no cinto com o feixe de luz a apontar para o seu p direito.
estendeu os braos para cima da cabea e agarrou a corda com
fora, iando-se um pouco, para aliviar a presso debaixo dos
braos, que j pareciam estar a querer soltar-se pelas
articulaes.

  O tren puxou a corda para cima. O movimento foi suave
quando comparado com o estilo da descida e no o atirou contra
a parede de gelo.
  Dos joelhos para baixo, as pernas continuavam suspensas
para l do terrao de gelo. Oscilou um pouco, puxou-as para
cima, pousou os dois ps no estreito espao e agachou-se. Largou
a corda e levantou-se.
  Doam-lhe os tornozelos, os joelhos pareciam de geleia e
tinha dores nas coxas... mas as pernas aguentaram-no.
  Tirou um grande pito - de doze centmetros, com uma
ponta aguada e um aro na outra extremidade - do bolso do
casaco. Pegou no martelo que levava no cinto de ferramentas e
cravou o pito numa fenda, na face do icebergue.
  A lanterna de Roger voltou a brilhar por cima dele.
  Quando o pito ficou bem seguro, Brian desprendeu o rolo
de dois metros e meio de corda de nylon que levava suspensa

da cintura. Antes da descida, equipara uma das extremidades
com um mosqueto de segurana. Encaixou-o na argola do pito
e enroscou o fecho do gancho. Acabava de montar um cabo
de segurana que lhe poderia salvar a vida se escorregasse
do terrao de gelo mas que lhe permitia a liberdade de movimentos
suficientes para poder tratar de Lin. S depois desfez
os ns que fixavam o arns improvisado, atravessado sobre o
peito e passado por baixo dos braos. Liberto da corda principal,
enrolou-a e colocou-a em volta do pescoo.
  Para amortecer parte da violncia do vento, apoiou-se nas
mos e nos joelhos e gatinhou para Lin. A luz da lanterna de
-Roger Breskin acompanhou-o. Tirou a sua prpria lanterna do
cinto e pousou-a no rebordo de gelo, encostada  parede,
  apontada para o homem inconsciente.
  Inconsciente... ou morto?
  Precisava de ver o rosto de Lin antes de poder responder a
  sua pergunta. Colocar o homem de costas no era uma tarefa
fcil porque Brian tinha de ter cuidado para que o cientista
no casse no abismo. Todavia, Lin recuperou a conscincia logo
que ficou virado para cima. A sua pele ambarina - ou os
  poucos centmetros quadrados de rosto que estavam expostos
  parecia demasiado plida. Sob a fenda da mscara, a boca
  via-se sem emitir um som audvel. Tinha os olhos abertos
por detrs dos culos

  Lin virou a cara e olhou para a escurido onde a neve caa
cada vez com mais fora. Quando voltou a encarar Brian, a
sua palidez acentuara-se.
  - Ests muito magoado? - inqiriu.


Roger voltou ao tren motorizado.
  Mal Brian acabara de se preparar quando a corda comeou
a ser puxada, submetendo os seus ombros doridos a um novo e
terrvel esforo. Batido pelo vento, meio entontecido pelas dores,
incapaz de deixar de pensar no enorme tmulo negro que
  se atirava contra o gelo por baixo dele, deslizou ao longo
da parede lisa com a mesma suavidade com que George Lin a subira
apenas cinco minutos antes. Quando chegou ao cimo,
conseguiu iar-se sem a ajuda de Roger.
  Levantou-se e deu alguns passos incertos na direco dos
faris do tren. Tinha os tornozelos e as coxas magoadas mas
a dor diminuiria com um pouco de exerccio. Sobrevivera virtualmente
sem uma arranhadela.
  - Incrvel - disse, comeando a desatar os ns da corda.
-  mesmo incrvel.
  - De que ests a falar? - perguntou Roger, juntando-se
a ele.
  - No esperava safar-me desta.
  - No tinhas confiana em mim?
  - No  isso. Estive sempre  espera que a corda se partisse,
que o gelo cedesse... ou qualquer coisa do gnero.
  - Descansa, vais morrer... - retorquiu Roger, com uma
voz profunda que provocava um efeito quase teatral -, mas
no  este o stio... nem o momento.
  Brian ficou to surpreendido por ouvir Roger Breskin a filOsofar
como ficara ao perceber que o homem sabia o que era
o medo.
  - Se no ests magoado...  melhor irmos andando.
  Massajando os ombros doridos, Brian perguntou:
  - Que vamos fazer?
  - Vamos endireitar o segundo tren e verificar se ainda
  funciona - respondeu Roger, limpando os vidros dos culos.
  - E depois?
  - Procuramos o acampamento temporrio. Juntamo-nos
  aos outros.

  - E se o acampamento no estiver no icebergue connosco?
  Roger no ouviu a pergunta. J lhe virara as costas e avanava
para o tren motorizado que tombara de lado.


13.10 HORAS


  Harry Carpenter inclinou-se sobre o guiador e espreitou
para a paisagem branca atravs do plstico encurvado. Os jactos
de neve e as partculas de gelo saltavam na frente dos faris.
O limpador do pra-brisas matraqueava de uma maneira
montona, j incrustado de gelo mas ainda a cumprir razoavelmente
bem a sua obrigao. A visibilidade descera para dez ou
doze metros.
  Apesar de a mquina responder bem e poder ser imobilizada
numa curta distncia, Harry mantinha o acelerador muito
controlado. Preocupava-o a possibilidade de, sem querer, vir a
precipitar-se nalguma vertente, uma vez que no tinha maneira
de saber onde acabava o icebergue.
  Os nicos veculos utilizados pela expedio Edgeway eram
trens motorizados fabricados por encomenda, mais compridos
do que era habitual, equipados com motores de combusto rotativos
e lagartas de vinte e uma rodas, que haviam sido especialmente
desenhadas para o efeito. Cada mquina podia
transportar dois adultos com as suas volumosas roupas trmicas,
sentados num banco estofado de oitenta centmetros de
comprimento. O condutor e o passageiro seguiam um atrs do outro.
  Claro que as mquinas haviam sido sujeitas a mais adaptaes
para poderem funcionar nas duras condies do Inverno
polar, muito mais severas do que as encontradas nos Estados
Unidos pelos entusiastas dos trens motorizados. Alm de um
triplo sistema de arranque e de um par de baterias especiais
para o rctico, a principal modificao fora a incluso de uma
cabina que se estendia desde o pra-brisas at ao fim do banco
traseiro, dos passageiros, fabricada com folhas de alumnio rebitado
placas de Plexiglass de grande espessura. Sobre o motor fora
montado um pequeno mas eficiente aquecedor e duas ventoinhas
que conduziam o ar quente para o interior da cabina.
  Talvez o aquecedor pudesse ser considerado um luxo, mas
a cabina fechada era uma necessidade absoluta. Sem ela, o
contnuo sopro do vento teria gelado o condutor at aos ossos,
acabando por o matar se a viagem fosse de mais de oito a dez
quilmetros.
  Alguns trens haviam recebido outras modificaes especiais,
como o de Harry, pois transportava a perfuradora.
A maior parte das ferramentas era colocada no estreito espao
por baixo do banco dos passageiros ou no pequeno reboque
puxado pelo tren. Todavia, a perfuradora era demasiado grande
para o compartimento das ferramentas e demasiado importante
para ser exposta aos choques que sofreria se seguisse no
reboque. Assim, a segunda metade do banco fora equipada
com dispositivos de fixao e a perfuradora seguia por detrs
de Harry, ocupando o lugar normalmente destinado a um passageiro.

  Com essas poucas modificaes, os trens eram perfeitamente
apropriados para o trabalho nos gelos da Gronelndia.
Seguindo a cinquenta quilmetros por hora, podiam parar
num espao de vinte e cinco metros. Os rastros de cinquenta
centmetros davam-lhes uma excelente estabilidade num terreno
moderadamente irregular. No obstante atingirem um peso
total de trezentos quilos, conseguiam atingir uma velocidade
mxima de oitenta quilmetros por hora.
  De momento, a mquina dispunha de uma potncia muito
maior do que a que Harry podia utilizar. Mantinha o tren 
velocidade mnima. Se a beira do icebergue lhe surgisse de repente,
no meio da tempestade, precisava de pelo menos de dez
ou doze metros para compreender o perigo e deter a mquina.
Se seguisse demasiado depressa, no a conseguiria travar a
tempo. Se carregasse no travo no ltimo instante...
mergulharia
na noite e no mar. Assustado por essa imagem mental, mantinha
um andamento de cerca de dez quilmetros por hora.
  No entanto, apesar de serem necessrias todas as cautelas,
tinha de realizar o melhor tempo possvel. Cada minuto em
trnsito aumentava o risco de se desorientarem e de se perderem
irremediavelmente.
  Avanavam em direco ao sul desde o local da sexagsima
carga explosiva, conservando-se tanto quanto possvel nessa
direco,
partindo do princpio de que o que anteriormente fora
o leste, antes do tsunami, era agora o sul. Nos primeiros
quinze
ou vinte minutos depois da onda de mar, o icebergue devia
ter girado sobre si mesmo, procurando uma proa e uma popa

naturais, e deveria manter-se nessa posio. Agora, era provvel
que navegasse a direito, seguindo o seu percurso. Contudo,
se estivessem enganados e o icebergue ainda rodasse sobre si
mesmo, o acampamento temporrio j no se encontraria a
sul... e passariam a uma considervel distncia das tendas. S
as encontrariam por acaso... se as encontrassem.
  Harry desejava poder descobrir o caminho de volta com a
ajuda de referncias visuais, mas a noite e a tempestade ocultavam
todas as marcas da paisagem. Alm disso, nos gelos polares,
cada paisagem montona era igual a todas as outras e
era muito fcil uma pessoa perder-se mesmo em pleno dia se
no tivesse uma bssola em bom estado de funcionamento.
  Lanou uma olhadela para o espelho lateral montado para
l do plstico salpicado de gelo. O farol do segundo tren,
que transportava Pete e Claude, brilhava na escurido gelada
que ficara para trs.
  Apesar de se ter deixado distrair apenas por um segundo,
dedicou novamente toda a sua ateno aos gelos, quase  espera
de ver um abismo a abrir-se na frente das extremidades negras
dos esquis do tren motorizado. Todavia, a paisagem de
terra caiada continuava a estender-se  sua frente,
ininterrupta,
desaparecendo na noite.
  Tambm estava  espera de ver um qualquer claro luminoso
proveniente do acampamento temporrio. Rita e Franz
deviam saber que, com um tempo daqueles e sem um sinal, o
acampamento seria difcil - ou at impossvel - de localizar.
Acenderiam os faris dos trens motorizados e apont-los-iam
para o espinhao de gelo por detrs do acampamento. O claro,
reflectido e intensificado, seria como um farol inconfundvel.
Porm, no avistava nem sequer uma vaga luminescncia.
A escurido preocupava-o, pois podia significar que o acampamento
desaparecera, enterrado sob toneladas de gelo.
  Em geral, Harry era uma pessoa optimista, mas de vez em
quando deixava-se dominar por um medo mrbido de perder a
esposa. Muito no seu ntimo, no acreditava que a merecesse.
Levara mais alegria  sua vida do que jamais esperara. Era-lhe
preciosa... e o destino tinha o mau hbito de roubar a um homem
tudo o que este tivesse mais prximo do corao.
  Entre todas as aventuras que tinham iluminado a vida de
  harry desde que deixara a quinta de Indiana, o seu relacionamento
com Rita fora a mais excitante e recompensadora. Era
  mais extica, mais misteriosa, mais capaz de o surpreender,
encantar e deliciar do que a combinao de todas as maravilhas
do mundo.
  Disse para si mesmo que a falta de luzes na sua frente era,
muito provavelmente, um sinal positivo. Havia boas probabilidades
de que as tendas continuassem na calota gelada e no no
icebergue. Se o acampamento temporrio ainda se encontrava
na calota, ento, dentro de algumas horas j Rita estaria a
salvo
na Estao Edgeway.
  Porm, no se podia esquecer que o espinhao de gelo que
se erguia por detrs do acampamento podia ter cado, esmagando-a. . .
  Inclinando-se ainda mais sobre o guiador, espreitou para a
neve que tombava dos cus: nada.
  Se encontrasse Rita com vida, mesmo que prisioneira do
icebergue tal como ele, agradeceria a Deus durante todos os
minutos do resto da sua vida... minutos que poderiam ser preciosamente
poucos. Como iriam sair daquele navio de gelo?
Como sobreviveriam quela noite? Era prefervel um fim rpido
 infelicidade de uma lenta morte por algidez.
  Nove metros  sua frente, sob a luz dos faris, apareceu
uma estreita linha negra na plancie coberta de neve. Era uma
fenda no gelo, mal visvel da sua perspectiva.
  Carregou no travo a fundo. A mquina deslizou, dando
uma volta de trinta graus sobre o eixo, com os esquis a
protestarem
ruidosamente. Virou o guiador para o lado at sentir
que as lagartas haviam recuperado a traco e voltou a virar
para a direita.
  Ainda estava em movimento, deslizando como um disco de
hquei no gelo... Jesus, estava a seis metros da fenda e ainda
deslizava...
  As dimenses da fenda negra tornaram-se mais claras. Podia
ver o gelo do outro lado. Era realmente uma fenda e no o
limite do icebergue, com o mar gelado na sua base. No passava
de uma fenda...
  ... a deslizar, a deslizar...
  Quando da partida do acampamento, no haviam encontrado
fendas durante todo o caminho. Aparentemente, fora a
actividade submarina que criara aquele abismo...
  . quatro metros e meio...
  Os esquis matraqueavam. Qualquer coisa embateu na parte
inferior do tren. A camada de neve era muito fina. O gelo
no permitia uma grande traco... A neve saltava dos esquis
e das lagartas de poliuretano, como nuvens de fumo...

  . . trs metros...
  O tren deteve-se suavemente, balouando imperceptivelmente
sobre a suspenso, to perto da fenda que Harry no
conseguia ver o rebordo do gelo, oculto por baixo da salincia
frontal da mquina. As pontas dos esquis deviam estar suspensas
no ar... Mais alguns centmetros e teria ficado a oscilar
como um balouo, equilibrado entre a morte e a sobrevivncia.
  Engatou a marcha atrs e recuou quase um metro, at poder
ver a beira do precipcio.
  Perguntou a si se o facto de querer trabalhar naquela terra
mortal no chegaria para poder ser considerado como clinicamente
louco...
  Tremendo - mas no por causa do frio -, tirou os culos
da testa, colocou-os nos olhos, abriu a porta da cabina e
saiu.
O vento tinha a fora da pancada de um mao mas no se
importou. O frio que o invadia era uma prova de que estava
vivo.
  Os faris revelavam que a fenda tinha apenas cerca de quatro
metros de largura no centro e que estreitava para os dois
lados. Estendia-se talvez por quinze metros, no era muito
grande... mas o suficiente para o ter engolido. Espreitando
para a escurido por baixo dos faris, desconfiou que a
profundidade daquele abismo podia ser medida em dezenas de metros.
  Estremeceu e voltou-lhe as costas. Sentiu gotas de suor por
baixo das muitas camadas de roupas... Era um destilado de
medo puro, que lhe escorria pelas costas.
  O segundo tren detivera-se seis metros atrs do seu, com
o motor a trabalhar e as luzes acesas. Pete Johnson encolheu-se
para sair pela porta da cabina.
  Harry acenou-lhe e avanou para ele.
  O gelo estremeceu.
  Surpreendido, Harry parou.
  O gelo moveu-se.
  Por instantes, ainda pensou que se tratava de outra onda
ssmica a passar por baixo deles. Contudo, agora encontravam-se
 deriva e um tsunami era menos perigoso do que anteriormente,
quando ainda estavam ligados  calota polar. O icebergue
oscilaria como um navio num mar agitado e flutuaria por
cima da turbulncia sem nada sofrer. No gemeria, no estalaxia
nem estremeceria.
estava acontecer directamente por baixo dos seus ps. De sbito, o
gelo abriu-se na sua frente, revelando uma fenda em ziguezague
com dois centmetros de largura mas que se tornava mais
larga, cada vez mais larga... Estava de costas para a fenda
que
o obrigara a parar... e as suas paredes, de formao recente,
desintegravam-se por baixo dele.
  Cambaleou, atirou-se para a frente, saltou por cima da nova
fenda com a conscincia de que esta continuava a aumentar
enquanto permanecia no meio do ar: Caiu do outro lado e rolou,
afastando-se da zona de gelos traioeiros.
  Por detrs dele, a parede da fenda dividiu-se em pedaos
que se precipitaram nas profundezas e emitiram o som de um
trovo. A plancie estremeceu.
  Harry ps-se de joelhos, ainda sem saber se estava a salvo.
Inferno, no estava! A beira do abismo continuava a desintegrar-se,
a fenda alargava-se na sua direco... Ps-se de p
num salto e correu para longe.
  Ofegando, olhou para trs a tempo de ver o seu tren motorizado,
com o motor a zumbir, a deslizar para o abismo. Embateu
na parede do outro lado da fenda e ficou preso, por instantes,
numa placa de gelo do tamanho de um camio.
O combustvel do reservatrio principal e dos auxiliares
explodiu.
As chamas saltaram bem altas, empurradas pelo vento,
mas diminuram rapidamente quando os destroos ardentes
procuraram as profundezas.  sua volta e por baixo dele ainda
se viram alguns breves e brilhantes fantasmas alaranjados no
meio do gelo leitoso. Depois, o vento apagou-os e a escurido
recuperou o seu domNio

A cabina do tren motorizado que lhes restava s podia levar dois
homens. Por isso, Harry optou por seguir atrs, no reboque
aberto. Claude estava disposto a dar-lhe o lugar e Pete
Johnson insistiu em que fosse ele a conduzir o tren como se
viajar no reboque fosse uma coisa muito apetecvel quando, de
certo, a exposio ao frio poderia revelar-se mortal. Harry
mandou-os calar e valeu-se da hierarquia de comando para tomar
para si a pior de todas as posies.
  O reboque continha a placa de aquecimento e o barril metlico
utilizado para derreter a neve da qual obteriam gua
para a selagem dos furos com as cargas explosivas. Atiraram o
barril para fora do reboque, fazendo-o rolar. O vento apanhou-o
e levou-o consigo. Segundos depois j o matraquear
metlico do seu avano aos saltos se tinha confundido com a
sinfonia cacofnica da tempestade. A placa de aquecimento
era pequena, podia vir a ser til mais tarde, e Claude arranjou-lhe
um lugar no interior da cabina.
  O reboque j acumulara oito ou dez centmetros de neve
que se amontoara contra os seus lados de sessenta centmetros
de altura. Harry comeou a varr-la com as mos.
  O vento soprava por detrs deles, uivando como os apaches
de um filme do Oeste americano, introduzia-se por baixo do
reboque e fazia-o saltitar ligeiramente sobre o gelo.
  - Continuo a pensar que devias ser tu a guiar - argumentou
Pete, quando o vento abrandou ligeiramente.
  Harry j quase terminara a limpeza da neve sobre o reboque.
  - Atirei com o meu tren para dentro de uma fenda no
gelo... e querem confiar-me o vosso?
  - Homem, sabes o que h de errado contigo? - perguntou
Pete, abanando a cabea.
  - Tenho frio e estou cheio de medo.
  - No  isso.
  - Bom, h semanas que no corto as unhas dos ps... mas
no percebo como podes estar a par disso...
  - Refiro-me ao que est errado dentro da tua cabea:
  - Pete, este no  o momento indicado para psicanlises:,
Vocs, Californianos, tm uma obsesso pela terapia. - Harry
empurrou os restos de neve para fora do reboque. - Suponho
que pensas que quero dormir com a minha me...
  - Harry...
  ... ou assassinar o meu pai.
  - Harry...
  - Pois bem, se  isso o que pensas, no me parece que
possamos continuar a ser amigos.
  - Tens um complexo de heri - declarou Pete.
  - Por insistir em seguir no reboque?
  - Sim... Devamos jogar aos pauzinhos, para ver quem
agarra o mais curto.
  - No estamos numa democracia.
  - Mas seria justo.
  - Vamos esclarecer as coisas... Ests a exigir o lugar das
traseiras? - perguntou Harry.

  Pete abanou a cabea, tentou manter uma expresso sria
mas no conseguiu reprimir um sorriso:
  - s louco!
  - E tenho muito orgulho nisso.
  Harry virou as costas ao vento e desamarrou o fio por baixo
do queixo, alargando o capuz. Meteu a mo dentro do casaco
e agarrou a espessa mscara de l que mantivera enrolada
em volta do pescoo. Puxou-a para cima da boca e do nariz.
A cara ficou inteiramente coberta. O que a mscara no tapava
ficava protegido pelo capuz e culos. Apertou o capuz com
fora
e amarrou o fio. A seguir declarou, por detrs da mscara:
  - Pete, s demasiado grande para caber no reboque de
carga.
  - Tambm no s nenhum ano.
  - Mas sou suficientemente pequeno para me deitar de lado
e evitar a maior parte do vento. Tu, terias de ir sentado.
Para ti, seria a nica maneira... e morrias gelado.
  - Pronto, de acordo. Ests decidido a fazer de heri. Contudo,
recorda-te de que no h medalhas para ningum no fim
desta campanha.
  - Quem precisa de medalhas? - Harry trepou para o reboque
e sentou-se no meio. - O que eu desejo  alcanar a

Johnson inclinou-se para ele.
- Pensas que vais para o Cu depois de casares com uma
mulher que sabe mais anedotas porcas do que todos os homens
do nosso grupo?
- No ser bvio, Pete?
- O qu?
- Deus tem um grande sentido de humor.
Pete examinou os gelos varridos pelo vento e comentou:
- Sim... um sentido de humor muito negro. - Regressou
para junto da porta da cabina, olhou para trs e comentou,
com uma grande dose de afecto: - s louco. - Depois instalou-se
por detrs do guiador e fechou a porta.
Harry lanou uma ltima olhadela para a zona de gelos que
iluminada pelo reflexo dos faris. No era muito frequente
servir-se de metforas, mas havia qualquer coisa na escurido
naquele topo do mundo, uma certa qualidade da paisagem,
que exigia o seu uso. Talvez a quase incompreensvel hostilidade daquela
terra cruel s pudesse ser devidamente compreendida
em termos metafricos que a tornassem menos estranha e
ameaadora. A escurido profunda e macia era como a boca
escancarada de um drago. O vento terrvel era o seu grito de
raiva. A neve que assobiava  sua volta, to espessa que mal
permitia ver a seis metros de distncia, era o cuspo da besta
ou talvez a baba que lhe escorria das mandbulas. Se assim o desejasse,
o monstro podia engoli-los sem deixar vestgios.
  O tren comeou a andar.
  Virando as costas ao drago, Harry deitou-se sobre o lado
esquerdo. Puxou os joelhos para o peito, conservou a cabea
encolhida e dobrou as mos debaixo do queixo. Era toda a
proteco que podia dar a si mesmo.
  No reboque, as condies eram ainda piores do que esperara...
e estivera  espera que fossem quase intolerveis.
Quanto muito, o sistema de suspenso podia ser considerado como primitivo
e todas as irregularidades do gelo eram imediatamente
transmitidas pelos esquis e pelas rodas para a caixa de carga.
Estava sempre a saltar e a deslizar de um lado para o outro no
estreito espao. As roupas, apesar de espessas, no conseguiam
absorver os choques mais violentos e em breve tinha dores
nas costelas do lado direito. O vento rugia e atirava-se a
ele de todas as direces. As rajadas de ar glido procuravam
incessantemente a menor fenda na sua armadura rctica.
  Consciente de que pensar na sua situao s serviria para a
fazer parecer muito pior do que era, conduziu os seus pensamentos
para outros rumos. Fechou os olhos e conjurou uma
imagem vvida de Rita. Porm, para no pensar nela tal como
poderia estar naquele momento - gelada, assustada, infeliz,
ferida ou at morta -, lanou a sua mente para o passado, at
ao dia em que a conhecera. Na segunda sexta-feira de Maio.
Havia quase quatro anos... em Paris.
  Estivera presente numa conferncia de quatro dias dos
cientistas que haviam participado no anterior Ano Geofsico
das Naes Unidas. Trezentos homens e mulheres de diferentes
disciplinas e provenientes de todos os cantos do mundo tinham-se
reunido em Paris para seminrios, leituras e intensas
discusses financiadas por um fundo especial do Ano Geofsico.

  s trs da tarde de sexta-feira, Harry dirigira-se a uma
mo-cheia de geofsicos e meteorologistas interessados nos
seus estudos sobre o rctico. Falara durante meia hora numa
pequena sala do hotel. Quando chegara ao fim, pusera de parte
os apontamentos e sugerira que passassem a uma sesso de
perguntas e respostas.
  Durante a segunda parte da reunio ficara surpreendido e
encantado com uma mulher bela e jovem que fizera perguntas
mais inteligentes e incisivas do que qualquer uma das outras
vinte cabeas eminentes - e acinzentadas - que se encontravam
na sala. Tinha o aspecto de ser meia irlandesa e meia italiana.
A pele morena parecia irradiar calor. A boca era muito
italiana, grande e de lbios maduros. Todavia, essa mesma boca
tambm tinha qualquer coisa de irlands, uma espcie de
sorriso curioso e de esguelha que lhe dava um ar de duende.
Os olhos exibiam o verde-irlands mas eram em amndoa.
Usava cabelos compridos, brilhantes e acobreados. Num grupo
que optara pelos tweeds, pelos fatos primaveris e vestidos
simples,
as calas de bombazina castanha e a camisola
azul-escura,
que acentuavam a sua figura excitante, destacavam-se de um
modo visvel. Todavia, fora a sua mente - rpida, inquisitiva,
bem informada e bem treinada - o que mais atrara a ateno
de Harry. Mais tarde compreendera que era mais do que provvel
que tivesse ofendido os restantes membros da audincia
por lhe ter dado tanta ateno.
  Quando a reunio terminara, dirigira-se  mulher antes de
ela sair da sala.
  - Quero agradecer-lhe por ter feito com que a sesso fosse
mais interessante do que seria sem si, mas nem sequer sei o
seu nome.
  A mulher lanara-lhe um leve sorriso de esguelha:
  - Rita Marzano.
  - Marzano. Bem me parecia que devia ser meio italiana e
meio irlandesa.
  - Na verdade, sou meio inglesa. - O sorriso ampliou-se,
sempre de esguelha: - O meu pai era italiano mas fui criada
em Londres.
  - Marzano... O nome no me  estranho. Ah, sim, escreveu
um livro, no  verdade? Chama-se...
  - Transformando o Amanh.
  Transformando o Amanh era uma obra de divulgao
cientfica, um estudo sobre o futuro da humanidade projectado
:a partir das actuais descobertas da gentica, bioqumica e
fsica.
Fora publicado nos Estados Unidos e conservava-se nalgumas
listas de best-sellers.
  - J o leu? - perguntara.
  - No - admitira Harry.
  - O meu editor britnico enviou quatrocentos exemplares
  a este congresso. Esto  venda no quiosque dos jornais,
no vestbulo. - Lanara um olhar ao relgio. - Tenho uma
sesso de autgrafos marcada para agora. Se quiser um exemplar
assinado, no o obrigarei a esperar na fila.
  Nessa noite fora incapaz de pr o livro de lado at virar a
ltima pgina... s trs da manh. Sentira-se fascinado com os
seus mtodos - com o modo como ordenava os factos, com as
abordagens aos problemas, pouco convencionais mas lgicas
- por serem espantosamente parecidos com os seus prprios
processos de pensamento. Sentira-se como se estivesse a ler
um livro escrito por eles mesmo.
  Passara a manh de sbado a dormir, faltando a algumas
sesses, e gastara a tarde  procura de Rita. No a conseguira
encontrar. Nas ocasies em que no a procurara... pensara nela.
Quando tomou banho e se vestiu para a noite de gala,
apercebeu-se de que no se recordava de uma s palavra da
nica palestra em que estivera presente.
  Pela primeira vez, Harry Carpenter comeara a interrogar-se
sobre como seria instalar-se na vida, partilhando um
futuro
com uma mulher. Ele era aquilo

Se ele tentasse qualquer coisa?  agora... queria conversar sobre livros?
  Quando atravessavam o trio do George V e entravam no
elevador, Harry perguntara:
  - Tm algum restaurante no ltimo andar?
  - No sei. Vamos para o meu quarto.
  A confuso de Harry aprofundara-se.
  - No ficaste no hotel do congresso? Sei que no  grande
coisa, mas este  terrivelmente caro.
  - Fiz bom dinheiro com o Transformando o Futuro. Para
variar, estou a ser perdulria. Tenho uma pequena suite virada
para os jardins.
  Quando haviam entrado no quarto, Harry vira uma garrafa

de champanhe ao lado da cama, metida num balde de gelo picado.
  Rita apontara para a garrafa:
  -  Moet. Podes abri-la, por favor?
  Tirara a garrafa do balde e vira-a estremecer.
  -  por causa do som do gelo - explicara.
  - Que tem de especial?
  - Arrepia-me toda, como uma unha a passar por cima de
um quadro preto - dissera, depois de uma pequena hesitao.
  Todavia, nessa altura j estava to sintonizado com ela que
soube que a explicao no era verdadeira e que Rita estremecera
porque o barulho do gelo a fizera recordar-se de qualquer
coisa desagradvel. Por momentos, os olhos da mulher haviam-se
mostrado distantes, profundamente mergulhados numa
recordao que a levava a franzir a testa.
  - O gelo quase no derreteu - comentara. - Quando foi
que encomendaste o champanhe?
  Libertando-se das recordaes incmodas, voltara a prestar-lhe
ateno e sorrira.
  - Quando estive na casa de banho, no Laprouse.
  Incrdulo, Harry exclamara:
  - Ests a tentar seduzir-me!
  - No sabes que estamos quase no fim do sculo vinte?
  Troando de si mesmo, respondera:
  - Bom, sim, j tinha reparado que nos nossos dias h mulheres
que usam calas.
  - Ficas ofendido?
  - Por causa das mulheres de calas?
  - No... Por tentar que dispas as tuas.
  - Deus do cu, no!
  - Se achas que fui demasiado atrevida...
  - De maneira nenhuma.
  - Na verdade, nunca tinha feito uma coisa destas... Refiro-me
a ir para a cama logo no primeiro encontro.
  - Nem eu.
  - De facto, nem no segundo, nem no terceiro...
  - Nem eu.
  - Mas connosco parece apropriado, no  verdade?
  Pousara a garrafa dentro do gelo e puxara a mulher para os
seus braos. Os lbios tinham a textura de um sonho e o corpo
dela contra o seu fora como o toque do destino.
  Tinham faltado ao resto do congresso e permanecido na cama.
Haviam pedido que lhes enviassem as refeies para o
quarto, conversado, feito amor e dormido como se estivessem
drogados.

  Algum gritava pelo seu nome.
  Rgido de frio, encrostado de neve. Harry ergueu-se do
fundo do reboque de carga e das suas deliciosas recordaes.
no quarto de hotel, em Paris.
Espreitou por cima do ombro.
  Claude Jobert olhava para ele atravs do vidro traseiro da
cabina do tren motorizado.
  - Harry! Eh, Harry! - Mal se conseguia ouvir por cima
do vento e do barulho do motor. - Olha, h luzes  nossa
frente!
  Ao princpio no compreendeu o que Claude queria dizer.
Estava rgido, gelado... e em parte ainda continuava naquele

A seguir levantou o olhar e viu que
seguiam direito a uma nebulosa luz amarelada que brilhava
nos flocos de neve e tremeluzia, lnguida, sobre os gelos. Endireitou-se,
apoiado nas mos e nos joelhos, pronto para
saltar
do reboque no preciso instante em que este parasse.
  Pete Johnson conduziu o tren motorizado ao longo do
pequeno planalto to familiar e desceu para a espcie de bacia
onde se encontravam as tendas... que estavam rebentadas, esmagadas
por enormes placas de gelo. Porm, um dos trens
tinha o motor em funcionamento e as luzes acesas... e havia
duas pessoas a seu lado, a acenar, envergando o equipamento
rctico.
  Uma delas era Rita.
  Harry atirou-se para fora do reboque quando o tren ainda
se encontrava em movimento. Caiu na neve, rolou, ps-se de
p a cambalear e correu para ela.
  - Harry!
  Agarrou-a, quase a levantou acima da cabea, pousou-a no
cho, baixou a mscara contra a neve, tentou falar, no conseguiu
e abraou-a.
  Por fim, com uma voz trmula, Rita perguntou:
  - Ests ferido?
  - Sangrei pelo nariz.
  -  tudo?
  - Sim, e j passou. E tu?
  - Estou apenas assustada.
  Sabia que Rita se debatia constantemente contra o medo
da neve, do gelo e do frio, e nunca deixara de se admirar com
a sua firme deciso de enfrentar as fobias e trabalhar no
clima que mais a punha  prova.
  - Desta vez tens boas razes para estar assustada - retorquiu.
- Escuta, sabes o que iremos fazer se sairmos deste
maldito icebergue?
  Rita abanou a cabea e empurrou os culos para a testa,
para que ele pudesse ver os encantadores olhos verdes, muito
abertos de curiosidade e satisfao.
  - Vamos a Paris.
  Sorrindo, Rita acrescentou:
  - Ao Crazy Horse Saloon.
  - E ao George V.
  - Num quarto com vista para os jardins.
  - E uma garrafa de Moet.
  Harry empurrou os culos para cima e beijou-a.
- Dando uma palmada no ombro de Harry, Pete Johnson
- Tem alguma considerao por aqueles cujas mulheres
no gostam do frio. No ouviste o que te disse? - inquiriu.
O grupo est todo aqui...
- Apontou para um par de trens-motorizados
que se precipitavam para eles no meio do gelo.

  - Roger, Brian e George - disse Rita, com bvio alvio.
  - Devem ser - declarou Johnson. - No  provvel que
ande por a gente desconhecida.
  - O grupo est todo... - concordou Harry -, mas, em
nome de Deus, que vamos ns fazer agora?



13.32 HORAS


  No dcimo quarto dia de uma misso de espionagem electrnica
de cem dias, o submarino nuclear russo Ilya Pogodin
atingiu a sua primeira posio de vigilncia de acordo com o
plano preestabelecido. O capito, Nikita Gorov, ordenou que
mantivessem o navio em posio nas moderadas correntes de
sudeste, a nordeste da ilha de Jan Mayen, oitenta quilmetros
ao largo da costa da Gronelndia e trinta metros abaixo da superfcie
tempestuosa do Atlntico Norte.
  O Ilya Pogodin recebera o nome de um heri do povo sovitico
nos dias antes de a desintegrao da burocracia
corrupta
e de o Estado totalitrio ter sido esmagado sob o peso da
sua prpria ineficcia e venalidade. O nome no fora alterado,
em parte porque a marinha respeitava as tradies mas tambm
porque a nova quase-democracia era frgil e precisavam
de ter muito cuidado para no ofenderem os membros da velha
guarda do Partido - amargurados e potencialmente assassinos
- que haviam sido expulsos do poder... mas que poderiam
regressar, com toda a sua violncia, para reabrirem os
campos de extermnio e os institutos de "reeducao". Por
outro lado, o pas era agora to pobre, fora to arruinado pelo
marxismo e por legies de polticos com bolsos muito fundos,
que no podia dispensar fundos para repintar os nomes dos
barcos e para a alterao dos respectivos registos.
  Gorov nem sequer conseguia obter a adequada manuteno
para o seu navio. Naqueles difceis dias, depois da queda
do imprio, andava sempre preocupado com a integridade do
casco de presso, do reactor nuclear e dos motores, e no tinha
tempo para se recordar que o Ilya Pogodin recebera o nome
de um ladro e assassino que no passara de um defensor
do falecido e no lamentado regime anterior.
  Apesar de o Pogodin ser um envelhecido submarino que
nunca transportava msseis nucleares - mas apenas alguns torpedos
com ogivas nucleares -, era no entanto um navio de dimenses
considerveis que media cento e oito metros da proa
 popa, tinha uma boca de doze metros e meio, e um calado
de quinze. Deslocava mais de oito mil toneladas quando inteiramente
submerso.
  As correntes de sudeste tinham uma influncia pouco significativa
sobre o navio. Nunca se afastaria mais de uma centena
de metros do local onde Gorov ordenara que o mantivessem. :
  Peter Timoshenko, o jovem oficial de comunicaes, encontrava-se
no centro de comando, ao lado de Gorov. Em volta
deles, os mostradores e medidores do equipamento electrnico
pulsavam, brilhavam e pestanejavam na meia luz em tons
vermelhos, ambarinos, verdes e azuis. At o tecto estava
coberto de instrumentos, grficos, ecrs e painis de controlo.

Quando a sala de manobras confirmou a ordem de Gorov para
manterem o navio firme, quando a sala das mquinas e do
reactor tomaram conhecimento da mesma, Timoshenko disse:.
  - Peo autorizao para subir a antena, comandante.
  -  para isso que aqui estamos.
  Timoshenko dirigiu-se ao corredor principal e cobriu os nove
metros at ao centro de comunicaes, um espao surpreendentemente
pequeno cheio de equipamento de rdio capaz de
receber e emitir mensagens codificadas em frequncias ultra-altas
(UHF), altas frequncias (HF), frequncias muito baixas
(VLF) e extremamente baixas (ELF). Sentou-se na consola
principal e estudou os ecrs e instrumentos no seu prprio
conjunto de emissores-receptores e computadores. Sorriu e comeou
a cantarolar enquanto trabalhava.
  Peter sentia-se desajeitado quando se encontrava na companhia
de outros homens, mas a sua relao com as mquinas
  era perfeita. Estivera  vontade na sala de comando, mas era
  ali, no meio de uma ainda maior concentrao de equipamento
  electrnico, que se sentia em casa.
  - Estamos prontos? - perguntou outro tcnico.
  - Sim. - Timoshenko ligou um interruptor amarelo.
  Por cima deles, no casco exterior do Ilya Pogodin, um tubo
  pressurizado ejectou um pequeno balo de hlio. Subiu rapidamente
na escurido do mar, expandindo-se progressivamente
e arrastando atrs de si o fio das comunicaes. Quando o
  balo ficasse acima da superfcie os tcnicos do submarino
poderiam
controlar todas as mensagens de, para e em volta da
costa da Gronelndia, atravs de qualquer meio de comunicao,
excepto a escrita e os cabos telefnicos subterrneos.
Como tinha o mesmo tom azul-acinzentado e bao do mar invernoso,
o balo - e a curta e complicada antena a ele ligada nem
sequer seria visto de um navio a algumas dezenas de metros
de distncia.
  Em terra e no meio da sociedade civil, Timoshenko era frequentemente
muito autoconsciente. Era alto, delgado, ossudo
e desajeitado. Nos restaurantes e clubes nocturnos, bem como
nas ruas das cidades, tinha sempre a impresso de que as pessoas
o observavam e se divertiam com a sua falta de graa.
Contudo, a bordo do Pogodin, bem a salvo no seu profundo
domnio, sentia-se abenoadamente invisvel, como se o mar
no fosse apenas uma parte do mundo l de cima mas uma dimenso
paralela e ele um esprito a deslizar nas guas frias,
capaz de ouvir os habitantes do mundo sem ser ouvido, de ver
sem ser visto e a salvo dos seus olhares. Era como um fantasma
que deixara de constituir um objecto de divertimento.

  Depois de dar algum tempo a Timoshenko para que este libertasse
a antena e analisasse uma ampla gama de
frequncias,
  o comandante Gorov apareceu  porta do centro de comunicaes.
Fez um aceno para o assistente e perguntou a
Timoshenko:
  - Alguma novidade?
  O oficial de comunicaes sorria, com um auscultador
encostado ao ouvido esquerdo.
; - Recepo total.
  - Com interesse?
  - Nada, por enquanto. H um grupo de fuzileiros americanos
a testar equipamentos de Inverno perto da costa.
  Apesar de viverem nas longas sombras do fim da guerra
fria, num mundo onde os velhos inimigos eram agora neutrais
uns para com os outros ou que at, conforme se dizia, se tinham
tornado amigos, a maior parte do antigo aparelho de
espionagem sovitica continuava intacto, tanto em casa como no
  estrangeiro. A marinha russa prosseguia com as extensas misses
de recolha de informaes ao longo das costas de todas
as grandes naes ocidentais, bem como em todos os pontos do
  Terceiro Mundo que pudessem ser de importncia estratgica.
  No fim de contas, as mudanas eram uma constante. Se os
inimigos podiam tornar-se amigos da noite para o dia... ento
  tambm podiam voltar a ser inimigos com uma celeridade se-
Mantm-me informado - dIsse Gorov,


  Com os destroos e com as tendas que restaram intactas
os homens juntaram-nas e atravs de um sistema que
encaixado umas nas outras para fazerem a gruta. Havia neve e bocadinhos
de gelo a cair de algumas das fendas.
  Por fim, o Sueco declarou:
  - Bom, tens razo quanto aos avies... mas no podemos
perder as esperanas num salvamento.
  - De acordo.
  - Isto porque... bom... escuta, Rita, esta tempestade talvez
dure trs ou quatro dias.
  - Ou mais - concordou Rita.
  - No tm comida para tanto tempo.
  - Quase nenhuma... mas a comida no  assim to importante.
Podemos aguentar mais de quatro dias sem comer.
  Ambos sabiam que o maior perigo no era a fome. O pior
era o frio, que os gelaria at aos ossos.
  - Faam turnos para se aquecerem nos trens - disse
Gunvald. - Tm um bom fornecimento de combustvel?
  - O suficiente para regressar a Edgeway... se isso fosse
possvel, e pouco mais. Chega para manter os motores a trabalhar
durante algumas horas... mas nunca vrios dias.
  - Bom, ento...
  Silncio. Esttica.
  Reapareceu alguns segundos depois:
 de qualquer modo, vou fazer a chamada para Thule:
Tm de saber o que se passa. Podem ter uma soluo de que
no nos lembrmos... e uma perspectiva menos emocional:
  - Aconteceu alguma coisa a Edgeway? - perguntou Rita.
  - Est tudo bem.
  - E tu?
  - Nem sequer um arranho.
  - Ainda bem.
  - Sobreviverei... e tu tambm, Rita. !
  - Vou tentar - respondeu. - Podes ter a certeza de que
vou tentar.


Brian pigarreou e interveio:
  - Quer dizer que o icebergue vai rebentar em mil bocadinhos?
- Ningum lhe respondeu. - Vamos morrer? Ou cair
ao mar?
  -  a mesma coisa - declarou Roger Breskin com toda a
calma. A sua voz forte ecoava nas paredes da caverna com um
tom oco. - O mar est gelado. No duraramos nem cinco minutos.

  - Podemos fazer alguma coisa para nos salvarmos? - inquiriu
Brian, com os olhos a saltarem de um membro do grupo
para o seguinte. - De certeza que devemos poder tentar qualquer
coisa...
  Durante a conversa, George Lin permanecera to imvel e
calado como uma esttua, mas de sbito virou-se e deu trs
passos rpidos para Dougherty.
  - Ests com medo, rapaz? Devias estar. A tua poderosa
famlia no te pode safar deste sarilho!
  Espantado, Brian recuou, afastando-se do homem irado.
  Lin tinha as mos fechadas em punhos, ao lado dos flancos.
  - Gostas de te sentir impotente? - O homem gritava.
agradvel? Aqui, a tua grande, rica e politicamente poderosa
famlia no te serve para nada. Agora j sabes o que  ser
como todos ns, as pessoas sem importncia. Agora ters de
te esforar para te salvares sem ajuda... tal como ns.
  - J chega! - disse Harry.
, Lin virou-se para ele. Tinha o rosto alterado pelo dio.
  - A famlia dele est bem instalada, cheia de dinheiro e
privilgios, isolada da realidade mas segura da sua
superioridade
moral, sempre a dizer-nos como devamos viver e como temos
de nos sacrificar por esta ou por aquela causa nobre. Foram
pessoas como eles que provocaram os problemas na
china, que fizeram aparecer o Mao, que nos roubaram a ptria
e levaram ao assassnio de dezenas de milhes de pessoas.
deixamo-los pr um p na porta... e os comunistas vm logo
atrs. Trazem os brbaros e os cossacos, e as bestas humanas... Os...
  - No foi o Brian quem te ps neste icebergue - declarou
Harry com secura. - A culpa tambm no  da famlia
  dele. Por amor de Deus, George, o homem salvou-te a vida h
menos de uma hora!
  Quando Lin compreendeu que estivera a vociferar, a vermelhido
da ira desapareceu-lhe imediatamente das faces. Pareceu
confuso e depois embaraado. Abanou a cabea como se
a quisesse aclarar.
  - Eu... peo desculpa...
  - No a peas a mim - retorquiu Harry -, mas ao
Brian.
   Lin virou-se para Dougherty mas no o fitou nos olhos.
  - Peo muita desculpa... De verdade...
  - No faz mal - garantiu-lhe Brian.
  - No sei... No sei o que me passou pela cabea.  verdade
que me salvaste a vida. O Harry tem razo.
  - Esquece o assunto, George.
  Depois de uma breve hesitao, Lin fez um aceno e retirou-se
para o fundo da gruta. Voltou a andar de um lado para
o outro, exercitando os msculos e olhando para o cho que
pisava.
  Harry interrogou-se sobre quais seriam as experincias do
passado do homem que o tinham feito encarar Dougherty como
um antagonista, pois fora isso o que acontecera desde o
primeiro dia.
  - Haver alguma coisa que possamos fazer para nos salvarmos?
- repetiu Brian, pondo de lado, com tacto, o incidente
com Lin.
  - Talvez... - disse Harry. - Para comear temos de retirar
do gelo algumas daquelas bombas, para as neutralizarmos.
  - Impossvel! - exclamou Fischer, espantado.
  -  provvel.
  - Como  que vamos recuper-las? - inquiriu Fischer,
com um ar trocista.
  Claude ps-se de p ao lado da caixa com a comida meio
arruinada.
  - No  impossvel. Dispomos de uma perfuradora auxiliar,
machados de gelo e uma serra mecnica. Se tivssemos
tempo e pacincia podamos abrir caminho em ngulo at cada
uma das bombas, escavando degraus no gelo. Porm, Harry,
precismos de dia e meio apenas para as enterrarmos. Retir-las
vai ser muito mais difcil. Seria preciso uma semana...
ou talvez duas.
  - E s temos dez horas - recordou-lhes Fischer, sem necessidade.

  Abandonando o nicho da parede, junto  entrada da caverna,
Pete Johnson avanou para o meio deles e protestou:

  - Esperem. Vocs no ouviram o que ele disse. Harry s
falou nalgumas bombas e no em todas. Tambm no disse
que tnhamos de cavar, tal como o Claude props. - Olhou
para Harry. - Queres explicar-te melhor?
  - A carga explosiva mais prxima est a trezentos metros
da nossa posio. Se a conseguirmos recuperar e desarmar, ficaremos
a trezentos e quinze metros da seguinte. Cada carga
est a quinze metros da seguinte, por isso, se desarmarmos dez
cargas ficaremos a quase meio quilmetro da exploso mais
prxima. As outras cinquenta detonaro  meia-noite... mas
no haver nenhuma directamente por baixo de ns. Esta extremidade
do icebergue pode sobreviver ao choque. Com sorte,
at poder ser suficientemente grande para nos suportar.
  - Poder... - comentou Fischer, amargo.
  -  a nossa melhor hiptese.
  - Nada boa - declarou o alemo.
  - No disse que o era.
  - Se no podemos escavar as cargas, uma vez que todos
parecem concordar com isso, ento como as retiramos?
  - Com a perfuradora auxiliar. Voltamos a abrir os buracos.
  -Talvez no seja sensato - murmurou Fischer, fazendo
uma careta. - E se perfurarmos uma das bombas?
  - No explodir - garantiu Harry. - A carga plstica s
reage a uma certa voltagem de corrente elctrica. Os choques
e o calor no a faro rebentar, Franz.
  - Alm disso, as pontas das brocas no so suficientemente
duras para furar o ao - acrescentou Harry.
  - E depois de abrirmos os furos? - insistiu o alemo,
com um cepticismo bvio. - Puxamos a bomba pela corrente,
como se fosse um peixe na ponta de uma linha?
  - Algo desse gnero.
  - No conseguirs. Vais desfazer a corrente em bocados
quando reabrires o buraco com a perfuradora.
  - No, se usarmos as brocas mais finas. Os furos originais
tinham doze centmetros de dimetro. Se utilizarmos uma broCa
de sete e meio, esta poder passar ao lado das correntes.
No fim de contas, esto encostadas a um dos lados do furo.
  Franz Fischer no estava satisfeito.
- - Mesmo que possam reabrir os furos sem estragar as correntes,
estas estaro coladas ao gelo, tal como as bombas.
  - Ligaremos as extremidades superiores das correntes ao
  tren e tentaremos pux-las.
  - No resultar - declarou Fischer, cptico.
  - Talvez tenhas razo - retorquiu Harry com um aceno.
  - Deve haver outra maneira.
  - Qual?
  Brian voltou a intervir:
  - No podemos ficar parados  espera do fim, Franz. No
faz sentido. - Virou-se para Harry: - Se o teu plano resultar,
se as bombas sarem do gelo... conseguiremos recuperar dez
bombas em dez horas?
  - S o saberemos depois de tentar - ripostou Harry, recusando-se
decididamente a alinhar no pessimismo de Franz
ou a criar falsas esperanas.
  - Se no conseguirmos recuperar dez bombas - disse Pete
Johnson -, talvez recuperemos oito... ou seis. Cada uma
que desactivarmos d-nos mais segurana.
  - Mesmo assim - insistiu Fischer, com o sotaque a tornar-se
mais carregado  medida que defendia o seu negativismo
-, que ganharemos com isso? Por amor de Deus, continuaremos
 deriva num icebergue e s teremos combustvel
para nos aquecermos at amanh  tarde. Morreremos gelados.
  Pondo-se de p, Rita declarou:
  - Franz, maldito sejas, deixa de desempenhar o papel de
advogado do Diabo, ou o que quer que seja que ests a fazer.
s um bom tipo. Podes ajudar-nos a sobreviver... e tambm
pode acontecer que morramos todos por no quereres ajudar.
No podemos dispensar ningum... e no temos gente a mais.
Precisamos de ti a nosso lado, fazendo fora connosco.
  -  exactamente o que penso - afirmou Harry. Puxou o
capuz para cima da cabea e amarrou-o com fora, por debaixo
do queixo. - Se conseguirmos ganhar tempo recuperando
algumas bombas, nem que sejam duas ou trs... h sempre a
possibilidade de virmos a ser salvos mais cedo do que
pensamos.

  - Como? - inquiriu Roger.
  - Um daqueles navios...
  Olhando para Rita mas conservando uma voz contida, como
se ele e Harry estivessem de algum modo a competir para
conseguir o seu apoio, Fischer continuou:
  - Tu e o Gunvald j concluram que os navios no podem
chegar at junto de ns.
  Harry abanou a cabea, num gesto enftico:
  - O nosso destino no est escrito em pedra. Somos pessoas
inteligentes, podemos mold-lo se usarmos a cabea. Se
um daqueles comandantes for muito bom e muito teimoso...
Se contar com uma tripulao de qualidade e um pouco de
sorte... talvez consiga c chegar.

  - So demasiados "ses"... - comentou Roger Breskin.
  - Bom, se esse comandante for o Horatio Hornblower, se
for o av de todos os marinheiros que jamais viveram, se no
for um homem mas sim uma fora sobrenatural do mar... ento
pode ser que tenhamos uma oportunidade.
  - Pois bem - ripostou Harry, impaciente -, se for o Horatio
Hornblower... e se aparecer aqui amanh com as velas
desfraldadas e as bandeiras a flutuar ao vento... quero c
estar para o cumprimentar. - Ficaram em silncio. - E vocs...
que dizem? - insistiu.
  Ningum levantou objeces.
  - Muito bem, vamos precisar de todos os homens para a
recuperao das bombas - disse Harry, colocando os culos
sobre os olhos. - Rita, ficas aqui, tomas conta do rdio e fazes
a chamada para o Gunvald?
  - Sem dvida.
  - Algum deveria acabar de revistar o acampamento antes
que a neve cubra os destroos...
  - Tambm tratarei disso - disse Rita.
  Harry avanou para a boca da caverna.
  - Vamos a isto. Estou a ouvir o tiquetaque daqueles relgios.
No quero encontrar-me por perto quando o despertador
tocar.

  14.30 HORAS

NOVE HORAS E TRINTA MINUTOS PARA
  A DETONAO


  Um ou dois minutos depois de se deitar, Nikita Gorov
compreendeu que no conseguiria descansar. Materializara-se
um pequeno fantasma vindo do passado, para o perseguir e
para se certificar que no lograria a paz necessria para
adormecer.
Logo que fechara os olhos... vira o pequeno Nikolai, o
seu Nikki, a correr para ele no meio de uma suave neblina
amarelada. A criana tinha os braos abertos e ria-se. Porm,
a distncia entre eles no podia ser transposta por muito que
Nikki corresse ou que Gorov se estendesse para ele. Era como
se estivessem apenas a trs ou quatro metros um do outro mas
cada centmetro era um infinito. O comandante desejava, mais
do que tudo, poder tocar no filho... mas estavam separados
pelo insupervel vu que serve de fronteira entre a vida e a
morte.
  Com um suave e involuntrio suspiro de desespero, Gorov
abriu os olhos e examinou a fotografia emoldurada a prata que
se encontrava a um canto da secretria. Representava-o a ele e
ao filho, de p ao lado de um tocador de acordeo, durante
m cruzeiro no rio Moscovo. Por vezes, quando o passado lhe
era demasiado pesado, Gorov ficava tremendamente deprimido
ao ver a fotografia. Todavia, no a podia tirar dali. No a
podia meter na gaveta nem atir-la fora tal como tambm no
  podia cortar a mo direita s porque Nikki a segurara muitas vezes.
De sbito, sentindo-se carregado de energia nervosa, saiu
do beliche. Queria andar de um lado para o outro mas o seu
camarote era demasiado pequeno. Bastavam trs passos para
correr o estreito espao entre o beliche e o armrio. Tambm
no podia comear a andar de um lado para o outro no
corredor principal uma vez que no queria que a tripulao o
visse to perturbado.
  Por fim, acabou por se sentar  secretria. Pegou na moldura
com as duas mos como se, ao enfrent-la - e  perda
agonizante - pudesse aliviar a dor que sentia no corao e
acalmar-se um pouco.
  Falou baixinho para o rapaz de cabelos dourados da fotografia:

  - No fui responsvel pela tua morte, Nikki.
  Gorov sabia que a sua afirmao era verdadeira... e acreditava
que o era, o que talvez fosse muito mais importante do
que o mero conhecimento. No entanto, os oceanos de culpa
caam sobre ele em infindveis mars corrosivas.
  - Sei que nunca me culpaste, Nikki... mas quem me dera
que mo tivesses dito.

  Em meados de Junho, sete meses antes, o Ilya Pogodin
passara sessenta dias numa misso ultra-secreta de vigilncia
electrnica, na rota do Mediterrneo. O navio encontrava-se
submerso a doze quilmetros da costa do Egipto, directamente
a norte da cidade de Alexandria. A antena de comunicaes estava
no ar e milhares de bytes de dados, importantes ou no,
enchiam as memrias dos computadores de minuto para minuto.
  s duas da manh do dia 15 de Junho chegara uma mensagem
dos Servios de Informao Naval de Sebastopol, transmitida
a partir do Ministrio da Marinha, em Moscovo. Exigira
confirmao.

  Gorov estremecera ante a ideia de saber que o jovem Nikki
estava entregue aos cuidados de mdicos que haviam estudado
em faculdades que no eram nem mais modernas nem melhor
equipadas do que os hospitais em que posteriormente iriam
trabalhar. De certeza que todos os pais do mundo rezavam para
que os filhos gozassem de boa sade, mas na nova Rssia,
tal como no velho imprio que esta substitura, a hospitalizao
de uma criana era causa no apenas para preocupao...
mas tambm para alarme e at para pnico.
  - O senhor no foi notificado - disse Okudzhava, esfregando
distraidamente a verruga com a ponta do indicador
- porque se encontrava numa misso altamente secreta. Para
alm disso, a situao no parecia crtica.
  - Todavia, no se tratava de gripe nem de mononucleose,
no  verdade? - perguntara Gorov.
  - No. Chegou a ser considerada a hiptese de se tratar
de febre reumtica.
  Depois de ter vivido durante tanto tempo sujeito s presses
relacionadas com o comando de um submarino, aprendera
a nunca parecer preocupado com as peridicas dificuldades
mecnicas do navio ou com o hostil poder do mar. Nikita Gorov
conseguira manter uma aparncia calma, apesar de a sua
mente estar repleta de imagens do pequeno Nikki a sofrer e
assustado, num hospital infestado de baratas.
  - No era febre reumtica?
  - No - retorquira Okudzhava, ainda a apalpar a verruga
e sem olhar para Gorov. Mantivera os olhos postos na nuca do
motorista. - A seguir houve uma breve remisso dos sintomas.
Pareceu de boa sade durante quatro dias. Quando os
sintomas regressaram, iniciaram-se novos testes de diagnstiCo.
Depois, h oito dias... descobriram que tem um tumor
Canceroso no crebro.
  - Cancro... - murmurara Gorov, num tom indistinto.
  - O tumor  demasiado grande para ser opervel e est
muito avanado para tratamentos por radiao. Quando se
tornou claro que as condies do Nikolai se deterioravam rapidamente,
quebrmos o vosso silncio da rdio e chammo-lo
  de volta. Era a posio mais humana, apesar de comprometer
  a misso. - Fizera uma pausa e olhara finalmente para Gorov.
- Nos velhos dias,  claro, no correramos tal risco,
mas estes tempos so melhores - acrescentara Okudzhava com
  a insinceridade to bvia que mais valia que usasse o emblema
da foice e do martelo pegado no peito, pois era esse o
  emblema da sua verdadeira fidelidade.

  Gorov estava-se nas tintas para a nostalgia de Boris Okudzhava
pelo maldito passado. Estava-se nas tintas para a democracia,
para o futuro e para ele mesmo... S se preocupava
com o seu Nikki. Suores frios corriam ao longo da nuca, como
se a morte o tivesse tocado ao de leve com os seus dedos de
gelo
enquanto ia a caminho - ou regressava - do leito do rapaz.
  - No podemos ir mais depressa? - perguntara ao jovem
oficial da marinha que seguia ao volante.
  - J no falta muito - garantira-lhe Okudzhava.
  - Tem apenas oito anos... - murmurara Gorov, mais para
ele prprio do que para os outros homens com quem partilhava
o carro.
  Nenhum lhe respondera.
  Gorov vira os olhos do motorista no espelho retrovisor, observando-o
com o que poderia ser piedade.
  - Quanto tempo tem de vida? - perguntara, apesar de
quase preferir no conhecer a resposta.
  Okudzhava hesitara.
  - Pode morrer a qualquer momento.
  Desde que lera a mensagem descodificada a bordo do Ilya
Pogodin, trinta e sete horas antes, Gorov soubera que Nikki
estava  morte. O Almirantado no era cruel, mas por outro
lado tambm no teria interrompido uma importante misso
de espionagem no Mediterrneo a no ser que a situao fosse
grave. Preparara-se cuidadosamente para aquelas notcias.

  No hospital, os elevadores estavam avariados. Boris
Okudzhava conduzira Gorov pela escada de servio, suja e
mal iluminada. Em cada patamar, as moscas zumbiam junto s
pequenas janelas, opacas de sujidade.
  Gorov subira ao stimo andar. Parara duas vezes por recear
que os joelhos se fossem abaixo, mas depois voltara a
apressar-se aps breve hesitao.
  Nikki encontrava-se numa enfermaria de oito pacientes,
com quatro outras crianas moribundas, numa pequena cama
com lenis sujos e rasgados. No havia um monitor ECG
nem qualquer outro equipamento instalado  sua volta. Considerado
incurvel, fora remetido para uma enfermaria terminal
para ficar a sofrer durante o resto do seu tempo neste mundo.
O Governo continuava responsvel pelo sistema mdico e tinha
os recursos esticados at ao limite, o que queria dizer que
os mdicos separavam os doentes e feridos de acordo com
o cruel padro de possibilidades de recuperao. No se fazia
qualquer esforo herico para salvar um paciente se este tivesse
menos de cinquenta por cento de probabilidades de sobrevivncia.

  O rapaz estava terrivelmente plido. Tinha uma pele de cera
e um tom cinzento nos lbios. Os olhos permaneciam fechados
e os cabelos estavam moles, hmidos de suor.
  Tremendo como se fosse um velho paraltico, achando que
era cada vez mais difcil manter a tradicional calma dos homens
dos submarinos, Gorov parara ao p da cama, olhando
para baixo, para o seu nico filho.
  - Nikki - dissera, com uma voz fraca e pouco firme.
  O rapaz no respondera e nem sequer abrira os olhos.
  Gorov sentara-se na beira da cama e pusera a sua mo na
do rapaz. Havia muito pouco calor nas carnes do filho.
  - Nikki, estou aqui.
  Algum tocara no ombro de Gorov, que olhara para cima.
  Estava um mdico de bata branca ao lado da cama. Indicara
uma mulher ao fundo da sala.
  - Ela  quem mais precisa de si.
  Era Anya. Gorov prestara tanta ateno ao filho que nem
sequer a vira. Encontrava-se de p, junto a uma janela,
fingindo
observar as pessoas que passavam na velha Kalinin Prospeckt.

  Gradualmente, ganhara conscincia da sensao de derrota
na inclinao dos ombros da mulher, na subtil sugesto de desgosto
na inclinao da cabea... e comeara a compreender todo
o significado das palavras do mdico. Nikki j estava morto.
Era demasiado tarde para dizer "gosto muito de ti" pela
ltima vez. Era demasiado tarde para um ltimo beijo, para
olhar a criana nos olhos e dizer "sempre tive muito orgulho
em ti". Era tarde para se despedir.
  Apesar de Anya necessitar dele, no conseguira afastar-se
da cama... como se faz-lo fosse transformar a morte de Nikki
em algo de definitivo... e permanecer ali, por pura teimosia,
pudesse provocar uma ressurreio miraculosa.
 Pronunciara o nome da mulher. Embora se limitasse a suspir-lo,
Anya virara-se para ele.
  Tinha os olhos brilhantes de lgrimas. Mordia o lbio para
no soluar. Dissera:
  - Quem me dera que estivesses aqui.

  - S ontem me informaram.
  - Tenho estado to s...
  - Eu sei.
  - E assustada.
  - Eu sei.
  - Teria ido em seu lugar, se pudesse - murmurara Anya.
- No pude fazer nada por ele, absolutamente nada...
  Encontrara finalmente as foras para se afastar da cama.
Dirigira-se  mulher e abraara-a e ela apertara-o com fora.
Com muita fora.
  Das outras quatro crianas moribundas que se encontravam
na enfermaria, trs permaneciam em coma ou drogadas, inconscientes
da presena de Anya e Gorov. A nica espectadora
fora uma rapariguinha com talvez oito ou nove anos, de cabelos
castanhos e olhos enormes e solenes. Jazia numa cama
ali perto, apoiada em almofadas, to frgil como uma velha
que tivesse ultrapassado os cem anos de vida.
  - No faz mal - dissera, falando para Gorov. Tinha uma
voz musical e doce no obstante a doena lhe ter destrudo e
enfraquecido o corpo. - Voltaro a v-lo. Est no Cu. Vai ficar
 vossa espera.
  Nikita Gorov, produto da sociedade estritamente materialista
que durante a maior parte de um sculo sempre negara a
existncia de Deus, desejara descobrir as foras para
encontrar uma f to simples e to forte como a revelada pelas palavras
da criana. No era ateu. Vira os actos monstruosos que os lderes
da sociedade conseguiam levar a cabo quando acreditavam
que no havia um Deus. Sabia que no havia esperana
de justia num mundo onde j no vigorassem os conceitos de
retribuio divina e de vida depois da morte.
  Deus tinha de existir, caso contrrio nada poderia impedir
a humanidade de se destruir a si mesma. De qualquer modo,
faltava-lhe uma tradio de crena que lhe permitisse o grau
de esperana e tranquilidade que reconfortava aquela jovem s
portas da morte.
  Anya chorara de encontro ao seu ombro. Gorov abraara-a
e afagara-lhe os cabelos dourados.
  O cu malhado rasgara-se repentinamente, libertando torrentes
de chuva. As gordas gotas haviam embatido contra a janela
e escorregado pelo vidro, distorcendo o trnsito que passava
l em baixo.
  Durante o resto daquele Vero haviam tentado descobrir
coisas que os fizessem sorrir. Tinham ido ao Teatro Taganka;
ao ballet, a concertos e ao circo. Haviam danado, mais do
que uma vez, no grande pavilho do Parque Gorki e aproveitado
at  exausto, como crianas, os divertimentos do Parque
Sokolniki. Tinham jantado uma vez por semana no Aragvi

talvez o melhor restaurante da cidade, onde Anya aprendera
a sorrir outra vez ao comer gelados com geleia, onde Nikita
comeara a apreciar a condimentada galinha zatsivi com molho
de castanhas, e onde haviam bebido demasiada vodca com o
caviar ou demasiado vinho a acompanhar os sulguni com po.
Haviam feito amor todas as noites, urgente e explosivo, como
se a paixo pudesse refutar o sofrimento, o cancro e a morte.
  Anya, apesar de j no se mostrar to alegre como sempre
fora, parecera recuperar da perda do filho mais depressa e
mais completamente do que Nikita. Para comear, tinha trinta
e quatro anos e era dez anos mais nova do que Gorov. Possua
um esprito mais resistente. Por outro lado, no sentia o
fardo de culpa que pesava sobre ele como um jugo de chumbo. Sabia
que Nikki o chamara repetidamente nas ltimas semanas
de vida, e muito em especial nas ltimas horas. Apesar de
compreender que estava a ser estpido e irracional, Gorov
sentia-se como se tivesse abandonado o rapaz, como se tivesse
cometido uma falta para com o prprio filho. No obstante os
longos e pensativos silncios, pouco habituais, e de uma nova
solenidade no olhar, Anya recuperara gradualmente um brilho
saudvel e parte do seu antigo esprito.

Na primeira semana de Setembro, Anya voltara ao seu emprego
a tempo inteiro. Era botnica, investigadora num grande
laboratrio de campo, instalado no meio das profundas florestas
de pinheiros, a trinta e seis quilmetros de Moscovo.
muito em breve, o trabalho transformou-se num caminho para
o esquecimento. Percorria-o cada vez mais, chegando cedo e
;ficando no laboratrio at tarde.
Continuaram a passar as noites e os fins-de-semana juntos,
mas Gorov ficava muito mais tempo sozinho. O apartamento
estava repleto de recordaes que se tornaram dolorosas, tal
como na dacha que haviam alugado no campo. Dava grandes
passeios e ia quase sempre parar ao jardim zoolgico, ao museu
ou a qualquer outro local onde ele e Nikki tinham passado
muito tempo juntos.
Sonhava constantemente com o filho e em geral acordava a
meio da noite com uma doentia sensao de vazio. Nesses sonhos,
Nikki estava sempre a perguntar porque fora que o pai o
abandonara.
No dia 8 de Outubro, Gorov fora ter com os seus superiores
no Ministrio da Marinha e pedira para voltar a ser colocado
no Ilya Pogodin. O navio estava nos estaleiros de Leninegrado
para manuteno de rotina e para receber mais algum
equipamento de escuta electrnica de alta tecnologia. Regressara
ao servio, vigiara a instalao do equipamento e em Dezembro
sara com o submarino para o Bltico, para uma prova
de mar de duas semanas.
  Passara o dia de Ano Novo em Moscovo, com Anya, mas
no tinham sado para a cidade. Na Rssia, aquele era o feriado
das crianas. Viam-se rapazes e raparigas por todo o lado,
nos teatros de marionetas, no ballet, nos cinemas, nos
espectculos
de rua e nos parques. At os terrenos do Kremlin estavam
abertos para as crianas. Encontravam-se em todas as esquinas,
palrando alegremente sobre os presentes e o po de
gengibre que Ded Moroz - o "Av Gelo" - lhes deixara.
Apesar de Anya e Nikkita estarem juntos e de se apoiarem um
ao outro, no queriam ter de enfrentar essa viso. Haviam
passado o dia no apartamento de trs divises. Fizeram amor
duas vezes. Anya cozinhou chebureki, pequenos empades
de carne, da Armnia, fritos em gordura, e tinham engolido
a comida com a ajuda de uma grande quantidade de Algeshat
doce.
  Nikkita dormira durante a noite, no comboio para Calininegrado.
O balano e o matraquear rtmico das rodas sobre os
carris no lhe concederam o sono puro e sem sonhos que esperara.
  Acordara duas vezes com o nome do filho nos lbios, de
punhos cerrados e com um suor gelado a escorrer-lhe do rosto.
  Para um pai, nada era mais terrvel do que sobreviver a um
filho. Era como se a ordem natural tivesse sido demolida.
  No dia 2 de Janeiro partira para o mar no Ilya Pogodin,
numa misso de cem dias de espionagem. Aguardara com ansiedade
aquelas catorze semanas debaixo do Atlntico Norte
porque lhe tinham parecido uma boa oportunidade e o local
apropriado para se livrar do desgosto e da inapagvel sensao
de culpa.
  Porm,  noite, Nikki continuava a visit-lo, descendo at
s profundezas atravs da escurido do mar, para penetrar na
ainda maior escurido da mente perturbada de Gorov, fazendo
uma pergunta familiar mas sem resposta: "Porque me abandonaste,
pai? Porque no vieste quando precisei de ti, quando
tive medo e te chamei? No te preocupaste comigo, pai? Porque
no me ajudaste? Porque no me salvaste? Porqu? Porqu?

  Algum bateu discretamente na porta da cabina. Como
uma nota suave a reverberar no oco bronze de um sino, a batida
ecoou no pequeno espao.
  Gorov regressou ao presente e levantou os olhos da fotografia
emoldurada a prata.
  - Sim?
  - Timoshenko, senhor.
  O comandante pousou a fotografia e virou as costas  secretria.

  - Entre, tenente.
  A porta abriu-se e Timoshenko espreitou.
  - Estamos a interceptar uma srie de mensagens que deveria
ler.
  - De que se trata?
  - Daquele grupo de estudos das Naes Unidas. Os que
deram o nome de Estao Edgeway  sua base. Recorda-se?
  - Sem dvida.
  - Bom, esto com problemas.


14.46 HORAS


  Harry Carpenter prendeu a extremidade da corrente a um
mosqueto e encaixou-o no anel de reboque do tren motorizado.

  - Agora, s precisamos de um pequeno puxo.
  - Vai aguentar - disse Claude, avaliando a corrente. Estava
ajoelhado no gelo, ao lado de Harry, com as costas viradas
para o vento.
  - No me parece que a corrente se parta - respondeu
Harry, pondo-se de p com esforo e espreguiando-se.
  A corrente parecia frgil, como se tivesse sido feita por um
ourives. Todavia, fora testada para aguentar dois mil
quilos...
o que devia ser mais do que o suficiente para a tarefa do momento.

  O tren motorizado estava praticamente em cima do furo
agora reaberto. No seu interior, Roger Breskin permanecia
nos comandos, por detrs do plstico ligeiramente enevoado,
observando o retrovisor,  espera de um sinal.
  Depois de puxar a mscara para cima da boca e do nariz,
Harry fez sinal a Breskin. A seguir virou-se para o vento e
olhou para o orifcio, perfeitamente redondo, aberto no gelo.
  Pete Johnson ajoelhara-se,  espera que o tren sasse da
sua frente para poder observar os movimentos da bomba
quando a mquina a puxasse. Brian, Fischer e Lin tinham regressado
aos outros trens para se manterem quentes.
  Depois de acelerar o motor vrias vezes, Roger engatou a
mudana. A mquina avanou menos de um metro antes de
a corrente a deter. O rudo do motor fez-se mais agudo, transformando-se
num guincho que acabou por se sobrepor aos uivos
do vento.
  A corrente estava to esticada que Harry imaginou que se
a dedilhassem emitiria uma nota aguda capaz de fazer inveja
a uma soprano da pera.

  Porm, a bomba no se mexeu. Nem um centmetro.
  A corrente parecia vibrar. Breskin acelerou.
  Apesar do que dissera a Claude, Harry comeou a pensar
que a corrente se iria partir.
  O motor do tren atingira a potncia mxima e guinchava.
  Com um estrondo parecido com o de um tiro, os elos da
corrente soltaram-se dos lados do orifcio, a que estavam
colados
pelo gelo, e a carga explosiva libertou-se do fundo do buraco.
O tren deu um salto para a frente, a corrente manteve-se
esticada e a carga explosiva comeou a subir com grande
rudo.
  Pete Johnson ps-se de p e avanou para o furo quando
Harry e Jobert se lhe juntaram. Apontando uma lanterna para
o estreito e negro poo, espreitou para baixo por instante e
fez
sinal a Breskin para parar. Agarrando a corrente com as duas
mos, puxou metade da carga explosiva cilndrica para fora do
furo. Acabou por a retirar completamente com a ajuda de
Harry e pousou-a no gelo.
  Uma j estava. Faltavam nove.


14.58 HORAS


  Gunvald Larsson despejava leite condensado na caneca do
caf quando recebeu a chamada vinda da base militar dos Estados
Unidos em Thule, Gronelndia. Pousou o leite e apressou-se
para junto do aparelho de ondas curtas.
  - Fala Larsson, em Edgeway. Escuto-os em perfeitas condies.

Continuem, por favor.
  O oficial de comunicaes de Thule tinha uma voz forte e
melflua que era aparentemente imune  esttica.
  - Tm mais alguma informao sobre as vossas ovelhas
perdidas?
  - Nenhuma. Esto ocupados. A senhora Carpenter deixou
o rdio na caverna de gelo para tentar recuperar mais alguma
coisa das runas do acampamento. No  provvel que
me contacte a no ser que se verifique uma mudana drstica
na situao.
  - Como est o tempo em Edgeway?
  - Terrvel.
  - Aqui tambm... e vai piorar ainda mais, antes de comear
a melhorar. A velocidade dos ventos e a altura das vagas
esto a bater todos os recordes do Atlntico Norte.
  Gunvald fez uma careta para o rdio:
  - Est a tentar dizer-me que os arrastes voltaram para
trs?
  - Um j o fez.
  - Mas... s comearam a avanar para o norte h menos
de duas horas!
  - O Melville  dez ou doze anos mais velho do que o Liberty.
Talvez pudesse cavalgar uma tempestade como esta, mas
no tem a potncia nem a solidez de casco para investir contra
ela de frente... e contra o vento. O comandante teve medo
que a embarcao se desfizesse se no voltasse imediatamente
para trs.

  - Ainda s estava nas franjas da tempestade...
  - Mesmo a, o mar est muito mau.
  Gunvald passou a mo pelo rosto subitamente hmido e
limpou-a s calas.
  - O Liberty continua?
  - Sim. - O americano fez uma pausa. O rdio silvou, numa
exploso de esttica, como se estivesse cheio de serpentes.
- Olhem, se estivesse no vosso lugar, no depunha muitas esperanas
nessa embarcao.
  - No temos mais nada a que nos agarrarmos.
  - Talvez no... mas o comandante no est muito mais
confiante do que o do Melville...
  - Suponho que ainda podero fazer levantar um helicptero...
- disse Gunvald.
  - Os aparelhos no podero voar durante vrios dias. Esse
facto no nos deixa satisfeitos... mas nada podemos fazer.
  A esttica estalou no altifalante.
  Gunvald no respondeu.
  Por fim, com um tom que parecia embaraado, o oficial de
Thule acrescentou:
  - Bom... talvez o Liberty consiga a chegar...
  - No quero dizer aos outros que o Melville desistiu...
pelo menos por enquanto.
  - Voc  que sabe...
  - Se o Liberty tambm voltar para trs, terei de lhes dar a
m notcia... mas no vale a pena desencoraj-los enquanto
ainda houver esperanas.
  O homem de Thule respondeu:
  - Estamos todos a torcer por eles. A histria j chegou
aos noticirios dos Estados Unidos. H milhes de pessoas a
rezar pelo vosso grupo.


15.05 HORAS


  O centro de comunicaes do Ilyia Pogodin estava cheio de
luz e movimento enquanto sete brilhantes monitores de vdeo
tremeluziam com as suas mensagens descodificadas que estavam
a ser interceptadas pela antena de vigilncia, trinta
metros
mais acima. Os painis de controlo exibiam luzes com todas as
cores primrias. Dois tcnicos trabalhavam numa das apertadas
extremidades do atulhado compartimento. Timoshenko
encontrava-se junto da porta na companhia de Nikita Gorov.
  No meio das centenas de comunicaes que eram continuamente
triadas e armazenadas pelos computadores do Ilyia Pogodin,
os dados referentes  crise Edgeway continuavam a ser
processados  parte. O computador recebera instrues para
criar um ficheiro especial para todas as mensagens que contivessem
uma ou mais das seguintes cinco palavras-chave: Carpenter,
Larsson, Edgeway, Mellvile, Liberty.
  - Os dados esto completos? - perguntou Gorov quando
acabou de ler o material.
  Timoshenko confirmou com um aceno:
  - O computador imprime um relatrio completo em cada
quinze minutos. Este tem apenas dez minutos. Pode ter-se verificado
um qualquer pequeno desenvolvimento mas est a tudo
o que  fundamental.
  - Se o mar,  superfcie, est to mau como dizem, o Liberty
tambm vai voltar para trs.
  Timoshenko concordou.
  Gorov olhou para o papel, j sem o ler e j sem o ver. Por
detrs dos seus olhos escuros como a noite estava a imagem de
um rapazinho de cabelos louros e rosto fresco, de braos abertos.
O filho que fora incapaz de salvar.
  Por fim, acabou por dizer:
  - Estarei na sala de comando at indicao em contrrio.
avisa-me imediatamente se surgir alguma notcia importante a
este respeito.
  - Sim, senhor.
  Como o Pogodin no se encontrava em movimento e se
conservava suspenso, imvel, no meio do mar, o pessoal da sala
de comando era composto por apenas cinco homens, para
alm do primeiro-oficial Zhukov. Trs deles encontravam-se
sentados nas cadeiras pretas, virados para a parede de monitores,
instrumentos e grficos. Zhukov permanecia empoleirado
no banco de metal no centro da sala, lendo um romance que
apoiara contra a grande mesa das cartas electrnicas.
  Emil Zhukov era o homem que Gorov teria de enfrentar se
levasse para a frente o plano que comeara a formular. A bordo
do submarino, Zhukov era o nico com autoridade para o
substituir no comando se - na opinio de Zhukov - Gorov
perdesse o bom senso ou desobedecesse a uma ordem directa
do Ministrio da Marinha. O primeiro-oficial s utilizaria
esse poder no caso de uma emergncia extrema uma vez que teria

de justificar a tomada do comando quando regressassem 
Rssia. Fosse como fosse, constitua uma ameaa real.
  Emil Zhukov, com quarenta e dois anos, no era muito
mais novo do que o seu comandante, mas a relao entre os
dois tinha uma subtil qualidade criana-tutor, em grande parte
porque Zhukov dava um to grande valor  ordem social e 
disciplina que o seu respeito pela autoridade quase atingia as
fronteiras de uma reverncia pouco saudvel. Teria encarado
qualquer comandante como um mestre e uma fonte de sabedoria.
Alto, magro, com um rosto comprido e estreito, intensos
olhos cor de avel e cabelos espessos e negros, o primeiro oficial
levava Gorov a pensar num lobo. Tinha uma graa lupina
quando se movia e, por vezes, o seu olhar directo parecia-lhe
predador. Na realidade, porm, no era nem to
impressionante nem to perigoso como parecia. Limitava-se a
ser um bom homem e um oficial de confiana, mas que nada
tinha de brilhante. Em geral, a sua deferncia pelo comandante
seria o suficiente para garantir uma cooperao fiel... mas
em  circunstncias extremas essa obedincia no podia ser considerada
como certa. Emil Zhukhov nunca perderia de vista o
  facto de muitos outros homens gozarem de uma autoridade superior
 de Gorov... e de que tinha de lhes conceder um respeito
e uma lealdade maior do que as que devia ao seu comandante. Aproximando-se
da mesa das cartas, Gorov pousou as folhas
de computador em cima do romance que Zhukov estava
a ler.
  -  melhor dares uma vista de olhos a isto.
  Quando chegou  ltima pgina, o primeiro-oficial disse:
  - Meteram-se numa boa armadilha... mas li o que os jornais
publicaram sobre o Projecto Edgeway quando ainda estava
na fase de planeamento. Esses Carpenter pareceram-me
gente extremamente inteligente. Devem conseguir descobrir
uma soluo.
  - O que me chamou a ateno no foram os Carpenter...
foi outro nome.
  Examinando rapidamente o relatrio, Zhukov retorquiu:
  - Deves estar a referir-te ao Dougherty, Brian Dougherty.
  Gorov sentou-se no segundo banco, do outro lado da mesa
de tampo de plstico iluminado por baixo.
  - Sim, o Dougherty.
  - Est relacionado com o presidente americano que foi assassinado?
  -  sobrinho dele.
  - Fui um grande admirador do tio... - disse Zhukov,
mas suponho que isso leva a que me consideres um ingnuo.
  O desdm de Gorov pela poltica e pelos polticos era bem
conhecido do primeiro-oficial, que desaprovava tranquilamente
a sua atitude. O comandante no podia limitar-se a fingir ;
que mudara de opinio apenas para conseguir o apoio de Zhukov
para a arriscada operao que pretendia levar a cabo.
Encolhendo os ombros, retorquiu:
  - A poltica trata apenas do poder. Prefiro admirar resultados.
  - Era um homem de paz - insistiu Zhukov.
  - Sim, paz  uma coisa que todos eles querem vender.
  Zhukov fez uma careta:
  - Achas que no foi um grande homem?
  - Um grande homem, ou mulher,  um cientista que descobre
a cura para uma doena... Os polticos...
  Zhukov no se encontrava entre os que ansiavam pelo regresso
do velho regime, mas tinha pouca pacincia para a srie
de governos instveis que haviam afligido a Rssia nos ltimos
anos. Admirava lderes fortes. Era um homem que precisava
de algum para quem pudesse olhar, em busca de direco
finalidade... e os bons polticos eram os seus maiores heris
sem ter em conta a nacionalidade.

  - Independentemente do que eu possa pensar a respeito
do falecido presidente - disse Gorov -, tenho de admitir que
a famlia Dougherty enfrentou a tragdia com graa e firmeza.
Foram muito dignos.
  Zhukov agitou a cabea com solenidade:
  -  uma famlia admirvel. Foi uma coisa muito triste.
  Gorov sentia-se como se o seu primeiro-oficial fosse um
instrumento musical sofisticado. Acabara de lhe dar a volta.
Agora, ia tentar tocar uma complicada melodia:
  - O pai do rapaz  senador, no ?
  - Sim, e muito bem visto - admitiu Zhukov.
  - E tambm foi atingido a tiro, no  verdade?
  - Foi mais uma tentativa de assassnio.
  - Depois de tudo o que o sistema americano fez pelos
Dougherty... porque ser que continuam a apoi-lo esse mesmo
sistema com tanto ardor?
  - So grandes patriotas - explicou Zhukov.
  Puxando pensativamente pela barba bem aparada, Gorov
comentou:
  - Deve ter-lhes sido muito difcil continuar a ser patriotas
numa nao que lhes matou os seus melhores filhos.
  - Oh, no foi a nao quem os matou, senhor. A culpa foi
de um qualquer bando de reaccionrios. Talvez at da CIA...
mas no do povo americano...
  Gorov fingiu pensar no assunto durante cerca de um minuto.
Depois, prosseguiu:
  - Claro. O patriotismo na adversidade  o nico tipo de
patriotismo que merece respeito.  fcil ser patritico em
tempos
de fartura, quando ningum tem de fazer sacrifcios.
  A melodia que Gorov pretendera tocar com o seu primeiro-oficial
progredia sem nenhuma nota discordante e o comandante
quase sorriu... mas preferiu olhar muito tempo para o
relatrio da crise Edgeway, antes de dizer:
  - Era uma boa oportunidade para a Rssia.
  Tal como o comandante esperava, Zhukov no acompanhou
imediatamente aquela mudana de rumo:
  - Oportunidade?
  - Para um gesto de boa vontade.
  - Oh?
  - Precisamente numa altura em que a Rssia necessita de
mais boa vontade do que em qualquer outro momento da sua
histria. A boa vontade pode conduzir a ajudas estrangeiras, a
tratados comerciais preferenciais e talvez  cooperao
militar
- a concesses de importncia estratgica.
No estou a ver qual  a oportunidade.
Estamos apenas a cinco horas da posio em que se encontram.
  Zhukov levantou uma sobrancelha:
  - Fizeste os clculos?
  -  uma estimativa... bastante aproximada. Se fssemos
em socorro dos infelizes que esto aprisionados naquele icebergue,
seramos heris. Heris mundiais. Compreendes? Por
associao, a Rssia tambm seria herica.
  Pestanejando de surpresa, Zhukov repetiu:
  - Se fssemos em socorro...?
  - No fim de contas, estaramos a salvar as vidas de oito
conhecidos cientistas de meia dzia de pases, incluindo o sobrinho
do presidente assassinado... Uma tal oportunidade para
propaganda e boa vontade no acontece todos os dias...
  - Precisamos de autorizao de Moscovo.
  - Sem dvida.
  - Para teres a resposta rpida de que necessitas, terias de
enviar o pedido atravs de ligao por satlite... e precisas
de subir  superfcie para utilizar esse equipamento.
  - Tenho conscincia disso.
  O emissor a laser e o prato de recepo estavam montados
no alto da torre do submarino - a grande salincia por cima
do convs, parecida com uma barbatana -, que tambm abrigava
a ponte, os mastros do rdio e radar e o snorkel.
Necessitavam de subir  superfcie para que o equipamento de localizao
estabelecesse o contacto com uma srie de satlites
russos de telecomunicaes, e s depois disso poderiam
utilizar o laser. Porm, se essa quebra do segredo era uma desvantagem
para um navio como o Pogodin, a incrvel velocidade de
transmisso do laser sobrepunha-se s desvantagens. Podia enviar
uma mensagem a partir de qualquer ponto do mundo e receber
imediatamente a confirmao de recepo.
  O rosto longo e saturnino de Emil Zhukov ficou subitamente
franzido de ansiedade porque compreendera que iria ter
de desobedecer a uma ou outra autoridade: ou desobedecia ao
comandante ou aos seus superiores em Moscovo.
  - Estamos numa misso de espionagem. Se emergirmos,
compromet-la-emos.
  Com um dedo, Gorov traou uma linha de latitude na superfcie
iluminada da mesa de cartas electrnica.
  - Aqui to ao norte, no meio de uma tremenda tempestade
de inverno, quem nos ir avistar. Devemos poder subir 
superfcie para enviar e receber mensagens num anonimato
total.
  - Sim, est bem... mas temos ordens para manter um estrito
silncio na rdio.
  Gorov acenou solenemente, como se quisesse dizer que
pensara no assunto e que estava ciente da sua terrvel responsabilidade.

  - Quando o meu filho estava a morrer, Moscovo quebrou
o nosso silncio de rdio.
  - Era uma questo de vida ou de morte.
  - Neste momento tambm h pessoas em perigo de morte.
Claro que temos ordens para no utilizarmos o rdio e sei
at que ponto  grave desobedecer a essas ordens. Por outro
lado, numa emergncia, um comandante pode desobedecer
aos superiores,  sua responsabilidade.
  Franzindo a cara, com o rosto marcado por linhas to fundas
que comeavam a parecer feridas, Zhukov retorquiu:
  - No sei se podemos dizer que isto  uma emergncia...
ou, pelo menos, a emergncia que tinham em mente quando
escreveram as regras.
  - Bom, pessoalmente, considero que  uma emergncia disse
Gorov, num desafio calmo mas que no era particularmente
subtil.
  - Ters de responder perante uma comisso de inqurito
quando tudo terminar - afirmou Zhukov -, e como estamos
numa misso de espionagem, os servios secretos tambm vo
querer interrogar-te.
  - Claro.
  - E metade deles... so membros do antigo KGB.
  - Talvez.
  - De certeza.
  - Estou preparado para isso - declarou Gorov.
  - Sim, podes estar... para a comisso de inqurito. Mas
tambm estars preparado para o que os servios secretos te
podero fazer?
  - Estou preparado para ambos.
  - Sabes bem como eles so.
  - Sei resistir. A me Rssia e a marinha ensinaram-me a
resistir. - Gorov sabia que se aproximavam do final da melodia.
O crescendo estava perto.
- - A minha cabea tambm ir ficar em jogo - murmurou
  Zhukov, empurrando os papis por cima da mesa, na direco
de Gorov.
  - No haver cabeas em jogo.
  O primeiro-oficial no estava convencido. As rugas de ansiedade
aprofundaram-se ainda mais.
  - No Ministrio, nem toda a gente  estpida - acrescentou
Gorov.
  Zhukov encolheu os ombros.
  - Quando pesarem as alternativas - prosseguiu Gorov,
com um ar de total confiana -, vo dar-me a autorizao que
pretendo. Estou absolutamente certo disso. A Rssia tem mais
a ganhar com uma misso de salvamento do que ganharia com
o que no passa de mais uma rotineira misso de vigilncia.
  Emil Zhukov ainda tinha dvidas.
  Levantando-se do banco e enrolando os papis num estreito
tubo, Gorov prosseguiu:
  - Tenente, quero toda a tripulao nos seus postos dentro
de cinco minutos.
  - Isso ser necessrio?
  Excepto no caso de manobras complicadas ou perigosas, o
pessoal de servio era o suficiente para fazer subir ou descer
o submarino.
  - Se vamos quebrar as ordens do Ministrio por nossa iniciativa,
devemos, no mnimo, tomar todas as precaues respondeu
Gorov.
  Olharam um para o outro durante longos momentos, tentando
interpretar o que o outro estaria a pensar e procurando
imaginar o que iria ser o futuro. A mirada do primeiro-oficial
era mais penetrante do que nunca.
  Por fim, Zhukov levantou-se, mas sem nunca desviar os
olhos.
  "Tomou uma deciso", pensou Gorov... "e espero poder
viver com ela. "
  Zhukov hesitou... e depois fez-lhe a continncia:
  - Sim, senhor. Ser feito em cinco minutos.
  - Subiremos  superfcie logo que a antena tenha sido puxada
para baixo e guardada.
  - Sim, senhor.
  Gorov teve a sensao que tinha centenas de ns dolorosos
a desfazerem-se dentro dele. Ganhara.
  - Ento, vamos a isso.
  Zhukov saiu da sala.
  Avanando para a zona de comando, uma plataforma circular,
protegida por um corrimo, Gorov pensou no pequeno
Nikki e soube que estava a fazer o que era devido. Em nome
do seu filho morto, para honrar o rapaz que perdera - e no
para grandeza da Rssia - iria salvar a vida daquelas pessoas.
Desta vez tinha o poder para contrariar a morte e estava decidido
a no falhar.


15.46 HORAS


  Logo que a segunda carga explosiva fora retirada dos gelos,
Roger, Brian Claude, Lin e Fischer avanaram para o terceiro
furo selado.
  Harry ficou para trs com Pete Johnson, que ainda tinha de
desarmar a segunda carga. Permaneciam juntos, com as costas
viradas para o vento uivante. O cilindro explosivo jazia a
seus ps com um aspecto diablico: tinha um metro e meio de comprimento
e seis centmetros e meio de dimetro, e estava pintado
de preto com letras amarelas que diziam PErigo. Encontrava-se
coberto por uma fina camada de gelo transparente.
  - No precisas de ficar a fazer-me companhia - disse Pete,
limpando cuidadosamente a neve que lhe cobrira os culos.
No podia ter a viso obstruda quando comeasse a trabalhar
no mecanismo de disparo.
  - Julguei que vocs no gostavam de ficar sozinhos no escuro...
- respondeu Harry.
  - O meu povo? Ou ests a referir-te aos engenheiros electrnicos?
  - A quem mais querias que fosse? - retorquiu Harry com
um sorriso.
  Foram atingidos, pelas costas, por uma violenta rajada de
vento, uma verdadeira avalancha de ar que os teria deitado
abaixo se no estivessem preparados. Durante um minuto,
permaneceram dobrados, incapazes de falar, preocupados apenas
com a manuteno do equilbrio.
  Quando a rajada passou e o vento regressou ao que eram
talvez oitenta quilmetros por hora, Pete acabou de limpar os
culos e comeou a esfregar as mos para libertar as luvas da
neve e do gelo.
  - No me consegues enganar. Sei porque no foste com os
outros. Trata-se do teu complexo de heri.
  - Claro... sou um verdadeiro Indiana Jones.
  - Queres estar sempre presente nos stios onde o perigo 
maior.
  - Pois... Eu e a minha Madonna... - Harry abanou a cabea
com tristeza. - Lamento dizer-to, mas ests completamente
enganado, doutor Freud. Prefiro estar onde no h perigo...
mas  verdade que me lembrei que a bomba pode vir a
explodir na tua cara.
  - Prestavas-me os primeiros socorros?
  - Qualquer coisa desse gnero.
  - Pois olha, se explodir na minha cara e no me matar...
por amor de Deus, nada de primeiros socorros. Acaba comigo
rapidamente. - Harry estremeceu e comeou a protestar. Pete
interrompeu-o com secura: - Estou apenas a pedir um
pouco de piedade.
  Ao longo dos ltimos meses Harry comeara a gostar e a
respeitar aquele homem grande, de rosto largo. Por baixo do
seu aspecto exterior feroz, por baixo das camadas de educao
e estudos, por baixo da sua fria competncia, Pete Johnson era
um rapazinho com uma grande paixo pela cincia, tecnologia
e aventura. Harry reconhecia nele muitas das suas prprias caractersticas.

  - Na verdade, no h grandes hipteses de exploso, no
 verdade?
  - Praticamente nenhuma - garantiu-lhe Pete.
  - O invlucro sofreu bastante quando o retirmos do furo.
  - Descontrai-te, Harry. O ltimo no nos trouxe problemas,
pois no?
  Ajoelharam-se ao lado do cilindro de ao. Harry segurou
na lanterna elctrica enquanto Pete abria uma pequena caixa
plstica com ferramentas de preciso.
  - Desarmar estas porcarias  relativamente fcil - continuou
Pete. - O nosso problema no  esse...  extrair mais
oito cargas do interior dos gelos antes que o relgio bata a
meia-noite
e a carruagem se transforme de novo numa abbora.
  - Estamos a recuperar uma por hora.
  - O ritmo ir abrandar - disse Johnson, servindo-se de
uma pequena chave de parafusos para remover a extremidade
superior do cilindro, a que exibia a argola para fixar a
corrente.
- precismos de quarenta e cinco minutos para tirar a primeira.
Depois, gastmos cinquenta e cinco minutos com a segunda.
Estamos a ficar cansados e a abrandar.  por causa do
vento.
  Era um vento assassino, que comprimia e martelava as costas
de Harry com tanta fora que este se sentia como se estivesse
de p no meio de um rio cheio e turbulento. As correntes
areas eram quase to tangveis como as das guas
profundas. A velocidade bsica do vento era agora de setenta
e cinco a oitenta quilmetros por hora, com rajadas de talvez
cento e vinte quilmetros, mas que iam ganhando cada vez
mais fora. Mais tarde, aquele vento seria mortfero.
  - Tens razo - declarou Harry. Tinha a garganta ligeiramente
dorida por causa do esforo necessrio para se fazer ouvir
por cima da tempestade, isto apesar de terem as cabeas

quase encostadas por cima da carga explosiva. - No nos serve
de grande coisa passarmos dez minutos no calor das cabinas
dos trens... para depois passarmos uma hora sujeitos a um
tempo to mau como este.
  Pete extraiu o ltimo parafuso e retirou a extremidade do
cilindro, uma pea metlica com trinta centmetros de comprimento.

  - At onde ter descido a temperatura real? Arriscas uma
estimativa?
  - Talvez at aos vinte negativos.
  - E se contarmos com o factor vento?
  - Ento... dever ser o equivalente a trinta graus negativos...
  - Trinta e cinco.
  - Pode ser... - Nem sequer o seu pesado fato trmico o
conseguia proteger. As lminas de ao gelado do vento apunhalavam-lhe
as costas, perfuravam-lhe as roupas e picavam-lhe
a espinha. - Nunca pensei que tivssemos muitas possibilidades
de extrair dez cargas explosivas. Sabia que o nosso
ritmo iria abrandar... Todavia, se conseguirmos desarmar cinco
ou seis... talvez fiquemos com espao suficiente para
sobrevivermos
 exploso da meia-noite.
  Pete virou ao contrrio os trinta centmetros de tubo de
metal e o temporizador caiu-lhe na mo enluvada. Estava ligado
ao resto do cilindro por quatro fios: vermelho, amarelo,
verde e branco.
  - Penso que  melhor morrer congelado amanh... do que
ser feito em bocados esta noite.

  no te atrevas a fazer-me isso. - exclamou Harry.
- Fazer... o qu?
- Transformar-te num segundo Franz Fischer.
Pete soltou uma gargalhada.
  - Ou noutro George Lin...
  -Esses dois... so os "Irmos Lamrias."
  - Foste tu quem os escolheu - disse Pete.
  - E aceito a responsabilidade. Porm, que diabo, so
bons homens, que ficaram sujeitos a demasiada presso...
  - So burros!
  - Precisamente...
  - Est na altura de te pres a andar daqui... - declarou
Pete, estendendo a mo para a caixa das ferramentas.
  - Eu seguro na lanterna.
  - Nem penses! Pousa-a no cho, de maneira a iluminar esta
coisa... e afasta-te. No preciso de ti para me
iluminares...
mas sim para me dares o golpe de misericrdia se acontecer o
pior.
  Relutante, Harry regressou ao tren motorizado. Agachou-se
por detrs da mquina, protegido do vento. Encolhido, teve
o pressentimento de que todo aquele trabalho e riscos no
serviriam para nada. A situao em que se encontravam iria
deteriorar-se antes de melhorar... se alguma vez melhorasse.



16.00 HORAS


  O Ilya Pogodin movia-se preguiosamente na superfcie
Atlntico Norte. O mar turbulento esmagava-se contra a parede
arredondada e erguia-se na escurido numa srie interminvel
de ondas que provocavam um estrondo semelhante ao das trovoadas
de Vero. Como a embarcao estava muito mergulhada
na gua, os impactes sacudiam-na apenas ligeiramente,
no conseguiria aguentar indefinidamente tal castigo. A gua
acinzentada passava por cima do convs e a espessa espuma
rodopiava em volta da enorme torre de ao. O navio no foi
desenhado nem construdo para navegar muito tempo 
superfcie num mar to tempestuoso. Todavia, apesar da sua
tendncia para se desviar, podia aguentar durante o tempo suficiente
para que Timoshenko trocasse mensagens com
Ministrio da Marinha, em Moscovo.
  O comandante Gorov encontrava-se na ponte com dois
outros homens. Usavam casaces forrados a pele, cobertos por
impermeveis negros, e calavam luvas. Os dois jovens vigias
permaneciam de costas com costas, com um deles virado para
bombordo e o outro para estibordo. Os trs homens tinha
binculos e observavam o horizonte.
  Era um horizonte muito prximo, pensou Gorov. E muito
feio.
  Como se encontravam muito para norte, o crepsculo polar
ainda no se apagara completamente do cu. Tinha um
fantasmagrico tom esverdeado que se escoava pelas nuvens de
tempestade e saturava o panorama atlntico, pelo que Gorov ficava
com a sensao de estar a espreitar por uma fina pelcula
de lquido verde. Quase no chegava para iluminar o mar em
fria e dava um suave tom acastanhado s cristas espumosas das
ondas. Do nordeste vinha uma mistura de neve fina e de chuva.
A torre, a amurada da ponte, o impermevel de Gorov,
o equipamento laser e os mastros do rdio estavam cobertos por
uma camada de gelo. Formaes de nevoeiros dispersos obscureciam
ainda mais aquele panorama assustador. Para norte, as ondas
agitadas escondiam-se por trs de um nevoeiro castanho-acinzentado
to espesso que parecia uma cortina a tapar o
mundo que ficava para l dele. A visibilidade variava entre os
seiscentos e os novecentos metros e teria sido considerada
ainda pior se no estivessem a utilizar binculos nocturnos.
  Por detrs de Gorov, no alto da torre, o disco da antena
rodava lentamente de leste para oeste. A sua contnua mudana
de posio era imperceptvel  primeira vista, mas a antena
mantinha-se apontada para um satlite sovitico de telecomunicaes
numa apertada rbita polar por cima das massas de
nuvens cor de ardsia. A mensagem de Gorov fora transmitida,
pelo laser, cerca de quatro minutos antes. A antena estava
pronta para receber uma resposta de Moscovo.
  O comandante j imaginara a pior resposta possvel. Ordenar-lhe-iam
para entregar o comando ao primeiro-oficial Zhukov,
que receberia instrues para o colocar sob vigilncia
armada
durante vinte e quatro horas por dia e para prosseguir
com a misso de acordo com o plano. O tribunal militar reunir-se-ia
sem a sua presena e seria informado da deciso
quando regressasse a Moscovo.
  Todavia, esperava uma resposta mais sensata. Era um facto
que as reaces do Ministrio nem sempre eram previsveis.
Mesmo no regime ps-comunista, que demonstrava um maior
respeito pela justia, os oficiais eram ocasionalmente
julgados pelo tribunal militar sem sequer estarem presentes para se poderem
defender. Todavia, acreditava no que dissera a Zhukov
na sala do comando: no Ministrio, nem todos eram estpidos.
Muito provavelmente aperceber-se-iam da oportunidade para
propaganda e das vantagens estratgicas que a situao lhes
oferecia... e chegariam s devidas concluses.
  Observou o horizonte envolto em nevoeiro.
  O tempo parecera ter abrandado at ficar quase parado.
  apesar de saber que se tratava de uma iluso, via o mar a
erguer-se em fria em cmara lenta, e as ondas a nascerem como
  fossem rugas num oceano de melao frio. Cada minuto era
  como uma hora.

Bang!
Voaram fascas dos orifcios de ventilao do invlucro
de ao da perfuradora auxiliar. A mquina engasgou-se,
caiu e imobilizou-se.
  Roger Breskin, que estivera a trabalhar com a mquina,
soltou uma exclamao:
  - Que diabo?! - Carregou apressadamente no boto que
ligava a perfuradora.
  Quando verificou que o motor no funcionava, Pete Johnson
aproximou-se e ps-se de joelhos para a examinar.
  Amontoaram-se todos em volta, esperando o pior. Eram,
pensou Harry, como pessoas reunidas em volta de um acidente
de automvel... excepto quanto ao facto de os cadveres no
meio dos destroos poderem ser os deles.
  - Que se passa com a perfuradora? - perguntou George Lin.
  - Vais ter de a desmontar para procurares a avaria -
declarou Fischer, dirigindo-se a Pete.
  - Enganas-te... No preciso de a desmontar para saber
que no a posso reparar.
  - Que queres dizer? - perguntou Brian.
  Apontando para a neve e para a lama gelada em volta do
terceiro buraco, parcialmente reaberto, Pete explicou:
  - Esto a ver estas coisas pretas?
  Harry agachou-se e estudou os bocados de metal espalhados
pelo gelo.
  - So dentes de engrenagens.
  Ficaram todos em silncio.
  - Talvez pudesse reparar uma avaria elctrica... - acabou
Pete por dizer -, mas no tenho engrenagens sobressalentes,
  - E agora? - inquiriu Brian.
  Com um pessimismo teutnico, Fischer declarou:
  - Voltamos para a caverna e esperamos pela meia-noite -
  - Isso  desistir! - retorquiu Brian.
  Pondo-se de p, Harry afirmou:
  - Brian, receio que nada mais possamos fazer, pelo menos
de momento. Perdemos a outra perfuradora quando o meu
tren caiu naquela fenda...
  Dougherty abanou a cabea, recusando-se a aceitar que se
encontrassem numa posio de impotncia.
  - H momentos, Claude disse que podamos utilizar o machado
e a serra mecnica para abrirmos caminho no gelo, na
direco das cargas...
  O francs interrompeu-o.
  - S resultaria se dispusssemos de uma semana. Para tirarmos
esta bomba com esse mtodo... precisaramos de pelo
menos seis horas. No vale a pena gastar tanta energia s para
conseguirmos mais quinze metros de segurana.

  - Muito bem, acabou-se. Vamos arrumar o equipamento
- ordenou Harry, batendo as palmas para dar mais nfase
 frase. - No vale a pena ficarmos aqui a arrefecer. Voltemos
 caverna, onde tambm poderemos falar sobre o assunto
e estaremos abrigados do vento. Pode ser que nos lembremos
de qualquer coisa.
  Contudo, no tinha qualquer esperana.

  s dezasseis e vinte, o centro de comunicaes informou
que estava a receber uma mensagem do Ministrio da Marinha.
Cinco minutos depois, a folha, j descodificada, chegava
 ponte. Nikita Gorov comeou a l-la com algum nervosismo.


MENSAGEM
MINISTRIO DA MARINHA
HoRA: 18.0 Moscovo
DE: OFICIAL DE DIr1
PARA: COMANDANTE N. GOROV
ASSUNTO: VOSSA TRANSMISSO 34-D

COMEO DE MENSAGEM:
VOSSO PEDIDO SOB ESTUDO POR ALMIRANTADO STOP NO PODE
SER TOMADA DECISO IMEDIATA STOP SUBMERGIR E CONTINUAR
MISSO PROGRAMADA POR MAIS UMA HORA STOP CONTINUAO
OU NOVAS ORDENS A TRANSMITIR S 17.00 VOSSA HORA.

Gorov ficou desapontado. A deciso do Ministrio aumenta
ainda mais o nvel da sua tenso. A hora seguinte ia ser
mais difcil do que a que acabara de passar.
Virou-se para os outros dois homens:
- Abandonem a ponte.
Prepararam-se para mergulhar. Os vigias desapareceram no
interior da torre e ocuparam os seus lugares para a imerso.
o comandante tocou o alerta de rotina - dois toques curtos
e soaram nos altifalantes de todos os compartimentos do navio,
- e abandonou a ponte, puxando a escotilha atrs de si.
O contramestre accionou o fecho e declarou:
- Escotilha fechada.
Gorov apressou-se para o seu posto de comando. ao segundo
toque de aviso de mergulho, os tanques haviam sido
cobertos e a gua do mar penetrara no espao entre os dois
cascos do navio.  direita de Gorov, um sargento vigiava
o painel com uma luz vermelha e vrias luzes verdes. As verdes
representavam escotilhas, ventiladores, exaustores e outro
equipamento j fechado contra o mar. A luz vermelha tinha
a indiCaO: EQUIPAMENTO DE TRANSMISSO POR LASER. Quando o
equipamento se encaixou no respectivo nicho, no alto da torre,
e ficou coberto por uma escotilha estanque, a luz vermelha
apagou-se e brilhou uma luz verde.
  - Tudo verde! - gritou o sargento.
  Gorov ordenou que fosse injectado ar comprimido no submarino.
Como o indicador de presso no revelou qualquer
quebra, ficou informado de que a embarcao ficara estanque.
  - Presso no mximo - declarou o oficial de mergulho.
  Tinham completado os preparativos em menos de um minuto.
O convs inclinou-se, a parte superior da torre mergulhou
nas guas e ficaram fora do alcance visual de quem quer
que se encontrasse num navio ou num avio.

  - Desam-no para os trinta metros - ordenou Gorov.
  A descida foi confirmada por bips do computador.
  - Atingimos os trinta metros - anunciou o oficial de mergulho.

  - Mantenham-no firme.
  - Est firme, senhor.
  Quando o submarino estabilizou, Gorov ordenou:
  - Tome o comando, tenente Zhukov.
  - Sim, senhor.
  - Podemos voltar  tripulao normal.
  - Sim, senhor.
  Gorov abandonou o comando e encaminhou-se para o centro
de comunicaes.
  Timoshenko virou-se para a porta quando o comandante
entrou na sala.
  - Peo autorizao para subir a antena, senhor.
  - Recusada.
  Pestanejando de surpresa, Timoshenko inclinou a cabea
  para um lado e disse:
  - Senhor?
  - Recusada - repetiu Gorov. Observou o equipamento
  de telecomunicaes que cobria as paredes. Tivera instrues
  rudimentares quanto  sua utilizao. Por razes de
segurana,
  o computador das telecomunicaes estava separado do computador
central do navio. Todavia, os teclados funcionavam
do mesmo modo que os da sala de comando, com que estava
familiarizado. - Quero usar o codificador e o computador das
  comunicaes.
  Timoshenko no se mexeu. Era um excelente tcnico e de
certo modo tambm era um jovem brilhante. Porm, o seu
mundo era composto por bancos de dados, programas, sinais
de entrada e sada, e muitas outras engenhocas... e no sabia
como lidar com as pessoas a no ser que estas se comportassem
como mquinas, com reaces previsveis.
  - Ouviu o que lhe disse? - perguntou Gorov, impaciente.
  Corando, embaraado e confuso, Timoshenko respondeu:
  - Uh... Sim, senhor. - Conduziu Gorov para a cadeira
na frente do terminal principal do computador das comunicaes.
- Deseja mais alguma coisa, comandante?
  - Privacidade - retorquiu Gorov com secura, sentando-se.
  Timoshenko ficou imvel.
  - Pode ir, tenente! - ordenou Gorov.

  Com a sua confuso a aprofundar-se, Timoshenko acenou,
tentou sorrir mas ficou com a expresso de algum que tivesse
sido espetado com uma comprida agulha. Bateu em retirada
para a outra extremidade do compartimento, juntando-se aos
seus subordinados, que estavam cheios de curiosidade e que
fingiam, sem grande resultado, no ter ouvido a conversa.
  O codificador - ou mquina criptogrfica - encontrava-se
ao lado de Gorov. Era de ao polido e tinha o tamanho e a
forma de um armrio de arquivo de duas gavetas. O teclado,
como todas as teclas normais e mais catorze com funes especiais,
estava embutido no topo. Gorov carregou na tecla de ligar.
Automaticamente, o papel amarelo rolou para fora do codificador.

  Gorov dactilografou rapidamente uma mensagem. Quando
terminou, leu-a sem tocar no fino papel e a seguir carregou na
tecla vermelha com a indicao PRocEssAR. A impressora laser
zumbiu e o codificador produziu uma verso codificada por
baixo da mensagem original. Era um texto que no fazia sentido:
no passava de amontoados de nmeros ao acaso separados
por smbolos espordicos.
! Puxando a folha de papel do codificador, Gorov fez girar a
cadeira e virou-se para o monitor do computador. Consultando
a verso codificada da mensagem, dactilografou cuidadosamente
a mesma srie de nmeros e smbolos no computador
 de comunicaes. Terminado o trabalho, premiu a tecla de funo
especial que dizia DEscoDificAR, seguida pela tecla de
iMPRimir. No carregou na tecla de LEiTURA porque no queria que o
  seu trabalho aparecesse no grande monitor, para benefcio de
 Timoshenko e dos outros tcnicos. Deitou a folha de papel
  amarelo para a mquina de destruir documentos e recostou-se
  na cadeira.

  Passou-se menos de um minuto antes de o comunicado j
descodificado e no seu estado original - se encontrar na
sua mo. A tarefa completa durara menos de cinco minutos.
O impresso continha as mesmas catorze linhas que compusera
no codificador, agora escritas no estilo habitual do computador.
Tal como pretendera, parecia-se com uma outra qualquer
mensagem recebida do Ministrio da Marinha, em Moscovo, e
descodificada a bordo do submarino.
  Deu instrues ao computador para apagar da memria todos
os pormenores do que acabara de fazer. Desse modo, o
impresso que tinha na mo era a nica prova das suas actividades.
Depois de sair da cabina, Timoshenko no poderia ir
bisbilhotar o computador para ver o que Gorov estivera a fazer:
  Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Virou-se para trs e
disse:
  - Tenente...
  Timoshenko, que fingia estudar um livro de registos, respondeu:

  - Sim, senhor?
  - Nas comunicaes que interceptou, referentes ao grupo
Edgeway, vinha uma referncia a um emissor instalado no icebergue.

  Timoshenko confirmou com um aceno.
  - Tm um emissor de ondas curtas,  claro... mas no deve
ser a esse que se est a referir. Possuem tambm um transmissor
de sinais para fins de localizao, que emite um sinal
de dois segundos, dez vezes por minuto.
  - J captou esse sinal?
  - H vinte minutos.
  -  um sinal forte?
  - Oh, sim!
  - Temos uma localizao?
  - Sim, senhor.
  - Bom, trate de a confirmar. Falarei consigo pelo intercomunicador
dentro de dez minutos - disse Gorov. A seguir
regressou  sala de comando para uma nova conversa com
Zhukov.

  Harry ainda no acabara de contar a Rita como a perfuradora
auxiliar se avariara, quando ela o interrompera.
  - Eh, onde est o Brian?
  Harry virou-se para os homens que tinham entrado na
caverna logo atrs dele. Brian Dougherty no se encontrava
no grupo.

  Harry franziu a testa:
  - Onde foi o Brian? Por que motivo no est aqui?
  - Deve andar a em qualquer lado. Vou ver l fora - disse
Roger Breskin.
  Pete Johnson acompanhou-o.
  - Se calhar foi s fazer qualquer coisa atrs de um daqueles
montes de neve - disse Fischer, apesar de no parecer
muito convencido. - Aposto que no se passa nada de dramtico..
  - No creio - discordou Harry.
  - Se tivesse sado, teria avisado algum - afirmou Rita.
  Na calota de gelos, longe da segurana da Estao Edgeway
ou das tendas insuflveis de um acampamento provisrio,
ningum se podia permitir modstias exageradas no que se referia
aos hbitos da bexiga e das tripas. Todos sabiam que,
quando tinham de satisfazer essas necessidades, tinham de informar
pelo menos uma pessoa sobre qual o ponto exacto de
que se iriam servir. Bem consciente das incertezas do campo
de gelo e do tempo, Brian teria informado os outros para que
o pudessem procurar se no o vissem regressar.
  Roger e Pete reapareceram em menos de dois minutos, tiraram
os culos e baixaram as mscaras cobertas de neve. ,
  - No est nos trens - disse Roger - nem o conseguimos
ver em lado nenhum. - Os seus olhos cinzentos, em geral
sem expresso, mostravam alguma preocupao.
  - Quem foi que o trouxe? - perguntou Harry.
  Olharam uns para os outros.
  - Claude?
  O Francs abanou a cabea.
, - No o trouxe. Pensei que vinha com o Franz.
  - Eu vim com o Franz - declarou George Lin.
  Rita ficou exasperada. Empurrando uma madeixa de cabelos
avermelhados para debaixo do capuz, exclamou:
  - Por amor de Deus, quer dizer que o deixaram para trs,
  no meio da confuso?
  - Impossvel. No acredito! - protestou Harry.
  -A no ser que ele o desejasse... - sugeriu George Lin.
  Harry ficou perplexo.
  - Por que razo iria querer ficar para trs?
  Visivelmente pouco afectado com a ansiedade dos outros

  com relao a Brian, George Lin levou o seu tempo a assoar-se,
  a dobrar o leno com cuidado e a devolv-lo ao bolso do casaco
antes de responder:



  - Devem ter lido as histrias que os jornais publicaram
a seu respeito... Espanha... frica... andou de um lado para
outro, sempre a arriscar a vida sem motivo.
  - E ento?
  -  um suicida - declarou Lin, como se a ideia devesse
ser bvia para todos.
  Harry ficou perplexo e um pouco zangado.
  - Ests a dizer que se deixou ficar para trs de propsito
para morrer?
  Lin encolheu os ombros.
  Harry nem sequer precisava de pensar no assunto.
  - Deus do Cu, George, nem pensar. O Brian no  desse
tipo. Que se passa contigo?
  - Pode ter-se magoado - murmurou Pete. - Talvez
tenha cado.
  - Sim, pode ter cado, batido com a cabea, sem podido
gritar... e estvamos to ansiosos por sair de l e voltar para
aqui que no demos por isso.
  Harry mantinha-se cptico.
  -  possvel - insistiu Pete.
  - Pode ser - respondeu Harry, duvidoso. - Bom, vamos
voltar para o procurarmos. Tu e eu, Pete, em dois trens.
  Roger deu um passo em frente.
  - Vou com vocs.
  - Duas pessoas chegam - afirmou Harry, colocando os
culos nos olhos.
  - Insisto - protestou Breskin. - Olhem, o Brian portou-se
muito bem quando esteve l fora, no gelo. Nem sequer
hesitou quando foi preciso descer aquela falsia para ir buscar
George. Eu no o faria sem pensar duas vezes... mas ele no.
Se fosse eu quem estivesse em dificuldades, Brian faria tudo
que pudesse. Tenho a certeza. Por isso, podem contar comigo
mesmo que no precisem de mim.
  Tanto quanto Harry se lembrasse, aquele fora o maior discurso
de Roger Breskin em muitos meses. Ficou impressionado
  - Bom, de acordo. Tambm vais connosco. s demasiado
grande para se poder discutir contigo.

  O cozinheiro do Ilya Pogodin era o seu maior tesouro
O pai fora chefe cozinheiro no Restaurante Nacional, em
Moscovo, e ensinara-o a realizar milagres alimentares que faziam
com que as histrias da Bblia a respeito de peixes e pes
parecessem ninharias. A sua mesa era a melhor em toda a frota
de submarinos.
  J comeara a preparar selianka de peixe para o primeiro
prato da refeio da noite. Peixe branco. Cebolas. Folhas de
louro, gemas de ovos. Os aromas escoavam-se da cozinha, passavam
pelo centro de comunicaes e invadiam o posto de comando.

  Quando Gorov entrou na sala, Sergei Belayev, o oficial de
servio, disse-lhe:
  - Comandante, ajude-me a convencer o Leonid.
  Fez um gesto para o jovem marinheiro de primeira classe

que se ocupava do painel de alarmes.
  Gorov estava com pressa mas no queria que Belayev pressentisse
a sua tenso.
  - Qual  o problema?
  - Leonid est escalado para o primeiro turno da messe e
eu para o quinto - explicou Belayev com um sorriso.
  - Ah!
  - Prometi-lhe que se trocasse de turno comigo, lhe arranjaria
uma loura absolutamente fabulosa em Calininegrado.
 uma mulher espectacular, garanto-lhe. Tem mamas que parecem
meles e era capaz de despertar uma esttua. Contudo,
o burro do Leonid no quer fazer negcio comigo.
  Sorrindo, Gorov retorquiu:
  -  claro que no. Nenhuma mulher consegue ser mais
excitante do que o jantar que nos esto a preparar. Para alm
disso, quem iria ser suficientemente estpido para pensar que
uma loura assim to maravilhosa, com mamas como meles,
poderia querer alguma coisa de ti, Sergei Belayev?
  As gargalhadas ecoaram nos tectos baixos do posto de comando Com
um grande sorriso, Belayev insistiu:
- Nesse caso, talvez seja melhor oferecer-lhe alguns rublos
 uma ideia muito mais realista - concordou Gorov.
Ou ento, o que ser ainda melhor... oferece-lhe dlares
americanos, se tiveres alguns.
Encaminhou-se para a mesa das cartas, sentou-se num dos
bancos e pousou uma folha dobrada na frente de Emil Zhukov.
Tratava-se da mensagem que fizera passar pelo codificador
e pelo computador das comunicaes apenas alguns minutos antes.

- Tenho outra coisa para tu leres - disse calmamente.
Zhukov empurrou o romance para o lado e ajustou os culos
de aros de arame que lhe tinham escorregado sobre o comprido
nariz. Desdobrou o papel.

MENSAGEM
MINISTRIO DA MARINHA
HoRA: 18 00 Moscovo
DE: OFICIAL DE SERVIO
PARA: COMANDANTE N. GOROV
ASSUNTO: VOSSA LTIMA TRANSMISSO 34-D
INCIO DE MENSAGEM
VOSSO PEDIDO SOB CONSIDERAO POR ALMIRANTADO
CONCEDIDA AUTORIZAO CONDICIONAL STOP FAA
NECessRIAS MUDANAS DE RUMO STOP CONFIRMAO OU ANUlao
DE AUTORIZAO A SEREM TRANSMITIDAS 17.00 HORAS
TEMPO STOP.

  Depois de mordiscar o lbio inferior durante alguns .
momentos, Zhukov virou o seu olhar intenso para Gorov e
perguntou:
  - O que  isto?
  Gorov manteve a voz baixa mas tentou no dar o aspecto
de estar a falar em segredo, no fosse dar-se o caso de um
dos tripulantes os estar a observar.
  - O que ? Creio que sabes bem o que , Emil. Uma
falsificao.
  O primeiro-oficial ficou sem saber o que dizer.
  Gorov inclinou-se para ele:

  -  para te proteger.
  - Para me proteger?
  Gorov tirou o papel das mos do seu primeiro-oficial e
voltou a guard-lo com cuidado. Meteu-o no bolso da camisa
  - Vamos traar uma rota e procurar aquele icebergue
    Deu uma pancadinha na carta que se encontrava entre
- Vamos salvar esses cientistas da Estao Edgeway e o
Dougherty.
  - No tens autorizao do Ministrio. A falsificao
servir para...
  - Ser que precisamos de autorizao para salvar vidas?
  - Sabes bem o que quero dizer.
  - Logo que estejamos a caminho, entregar-te-ei a
mensagem falsa que acabaste de ler. Poders guard-la e estars
protegido se houver um inqurito.
  - Mas... eu vi a mensagem verdadeira.
  - Nega-o.
  - Pode no ser fcil...
  - A bordo deste navio - insistiu Gorov - sou o
nico que sabe que a viste. Declararei, em qualquer tribunal
militar,
que s te mostrei a falsificao e nada mais.
  - Porm, se for interrogado podem vir a utilizar drogas e
para alm disso no me agrada contrariar as ordens recebidas
quando...
  - De uma maneira ou de outra, irs contrariar ordens...
as minhas ou as deles. Escuta o que te digo, Emil. Estamos a
proceder como  correcto... e eu proteger-te-ei. Suponho que
me consideras como um homem de palavra?
  - No tenho dvidas - declarou Zhukov de imediato,
desviando finalmente os olhos, como se o embaraasse a ideia
de poder duvidar do seu comandante.
  - Ento? Emil? - Como o primeiro-oficial permaneceu
em silncio, Gorov prosseguiu tranquilamente mas com firmeza:
- Estamos a perder tempo, tenente. Vamos procur-los. Por
amor de Deus,  melhor no ficarmos  espera at morrerem.
  Zhukov tirou os culos. Fechou os olhos e comprimiu-os
com a ponta dos dedos.
  - Estou contigo h quanto tempo?
  - Sete anos.
  - J passmos por momentos de tenso - disse Zhukov.
  Como este, pensou Gorov.
  Zhukov retirou as mos da cara mas no abriu os olhos.
  - Como daquela vez em que a corveta norueguesa nos
atirou cargas de profundidade quando nos descobriu no fiorde de

- Sim, foi um momento de tenso.
- Ou o jogo do rato e do gato com o submarino americano
ao largo da costa do Massachusetts.
- Fizemo-los passar por parvos, no  verdade? - disse
Gorov. - Formamos uma boa equipa.
- Nunca te vi em pnico ou a dar ordens que considerasse ms.
- Obrigado, Emil.
- At este momento.
- Nem sequer agora.
Zhukov abriu os olhos.
- Com o devido respeito, isto nem parece teu.  uma loucura.
- Discordo. No  uma loucura. De modo nenhum. Como
te disse, estou certo de que o Almirantado ir aprovar a
nossa misso de salvamento.
- Ento porque no esperamos pela transmisso s dezassete
horas?
  - Porque no podemos perder tempo. A lentido burocrtica
do Ministrio no  apropriada para um caso destes.
Temos de atingir aquele icebergue antes que se passem muito
mais horas. Depois de o localizarmos, vamos precisar de
muito tempo para tirar as pessoas do gelo e met-las a bordo.
  Zhukov consultou o relgio.
  - So dezasseis e vinte. S precisamos de esperar quarenta
minutos para sabermos qual  a resposta do Almirantado.
  - Porm, numa misso de salvamento como esta, quarenta
minutos podem ser a diferena entre o xito e o falhano.
  - Insistes nisso?
  - Sim.
  Zhukov suspirou.
  - Podes retirar-me o comando neste preciso momento disse
Gorov. - Tens motivos para isso. No o levaria a mal.
Emil.
  Olhando para as mos, que tremiam ligeiramente, Zhukov
continuou.
  - Se recusarem a autorizao que pretendes, voltars para
trs e continuaremos a nossa misso de vigilncia?
  - No terei outra escolha.
  - Voltars para trs?
  - Sim.
  - No irs desobedecer?
  - No.
  - Ds-me a tua palavra?
  - Tens a minha palavra.
  Zhukov ficou a pensar.
  Gorov levantou-se do banco.
  - Ento? - perguntou.
  - Devo estar louco.
  - Vais concordar com isto?
  - Como sabes, dei o teu nome ao meu segundo filho,
Nikita Zhukov.
  - Fiquei muito honrado - retorquiu o comandante, com um aceno.
  - Bom, se estive enganado durante todo este tempo,
no devia ter dado o teu nome ao meu filho... agora j  tarde
 O meu filho ir recordar-me at que ponto estava errado
Como no preciso deste espinho cravado na minha carne..
vou dar-te mais uma hiptese de provares que tens razo
  Sorrindo, Gorov disse:
  - Vamos localizar aquele icebergue e estabelecer uma
rota, tenente.

  Depois de regressarem at junto da terceira carga explosiva,
Pete e Roger saram dos trens motorizados deixando-os
com o motor a funcionar e as luzes acesas. O fumo dos escapes
formava brilhantes colunas cristalinas. Avanaram em direces
diferentes, enquanto Harry tomava uma outra para ir
procurar Brian entre os montculos e espinhaos,  altura da
cintura, que rodeavam o local.
  Cuidadoso, consciente de que podia ser engolido pela tempestade
to depressa e completamente como acontecera com
Brian, Harry sondava a paisagem a preto e branco antes de
avanar. Servia-se da lanterna como se fosse uma catana, agitando-a
para um lado e para o outro. O feixe amarelado e insubstancial
cortava a neve que caa mas aquela selva branca
permanecia imperturbvel. De dez em dez passos olhava por
cima do ombro para se certificar que no se afastara demasiado
dos trens. J se encontrava bastante afastado da zona de
gelos iluminada pelos faris, mas sabia que no os podia perder
de vista. Se se perdesse, ningum ouviria os seus gritos
de socorro por cima dos apitos e uivos do vento. Apesar de disperso
e abafado pelo nevo incrivelmente forte, o brilho dos
faris era a nica referncia que lhe garantia a segurana.
  No obstante procurar insistentemente atrs de cada salincia
e placa de gelo, tinha muito poucas esperanas de que
Dougherty viesse a ser localizado. O vento era feroz. A neve
acumulava-se ao ritmo de cinco centmetros por hora, ou at
mais. Naqueles breves instantes em que se detinha para observar
com mais ateno as sombras especialmente compridas ou
profundas, a neve comeava imediatamente a amontoar-se em
volta das suas botas. Se Brian tivesse estado cado nos gelos
durante os ltimos quinze minutos, inconsciente ou incapaz de
se mover... ento j deveria estar coberto de neve e seria
apenas mais uma salincia sobre o gelo, branca e gelada.
   intil, pensou Harry.
; Ento, a menos de doze metros do furo da carga explosiva,
 Harry deu a volta a um monlito de gelo to grande como um
  camio de dezasseis rodas e descobriu Brian do outro lado.
  estava cado, deitado de costas, com um brao ao lado do corpo
e outro atravessado sobre o peito. Ainda usava os culos e
  mscara contra a neve. Parecia descontrado, como se
dormisse uma soneca e no se encontrasse em qualquer espcie de
  perigo. Como o bloco de gelo actuara como pra-vento, a neve
  no se amontoara sobre ele. Pela mesma razo, tambm fora
  poupado  maior parte do frio intenso. De qualquer modo,
  no se mexia e era provvel que estivesse morto.

  Harry ajoelhou ao lado do corpo e baixou-lhe a mscara de
l. Os lbios abertos libertavam pequenas nuvens de vapor, irregularmente
espaadas. Estava vivo... mas por quanto tempo?
Os lbios de Brian estavam contrados e exangues. A pele
era quase to branca como a neve  sua volta. Harry beliscou-o
e Brian no reagiu. As plpebras no se agitaram. Depois
de jazer no gelo, imvel, durante pelo menos um quarto de
hora, mesmo protegido do vento e apesar de usar um equipamento
de sobrevivncia completo, podia j estar a sofrer de
exposio ao frio. Harry ajustou a mscara de modo a tapar-lhe
o rosto.
  Tentava decidir como levar Brian dali quando viu algum a
aproximar-se no meio da escurido turbulenta. Brilhou um feixe
de luz, inicialmente indistinto mas que se tornava cada vez
mais ntido e brilhante  medida que se aproximava.
  Roger Breskin apareceu no meio da espessa cortina de neve,

segurando a lanterna na sua frente como se fosse um cego
com uma bengala. Aparentemente, desorientara-se e vagueara
para longe da sua rea de buscas. Hesitou quando viu Brian.
  Harry fez alguns gestos impacientes.
  Puxando a mscara para baixo, Breskin apressou-se a juntar-se-lhe.
  - Est vivo?
  - Sim... mas no muito.
  - Que aconteceu?
  - No sei. Vamos lev-lo para a cabina de um dos trens
motorizados e vamos deixar que o ar quente faa o seu efeito.
Pega-lhe nos ps, que eu...
  - Posso lev-lo sozinho.
  - Mas...
  - Ser mais fcil e mais rpido.
  Harry aceitou a lanterna que Roger lhe passou.
  O enorme homem debruou-se e pegou em Brian como se
o rapaz no pesasse mais de cinco quilos.
  Harry indicou-lhe o caminho por entre os montes de neve,
at aos trens.

  s dezasseis e cinquenta, os americanos de Thule contactaram
Gunvald Larsson para lhe transmitirem mais ms notcias.
Tal como acontecera com o Melville, o arrasto Liberty considerara
que a tempestade era uma fora irresistvel contra a
qual s os grandes navios de guerra e os loucos se atreveriam;
a avanar. No podia atirar-se de frente contra as ondas macias
e poderosas que se erguiam em quase todo o Atlntico
Norte nem contra as zonas geladas do mar da Gronelndia.
Voltara para trs cinco minutos antes, quando um marinheiro
descobrira amolgadelas nas chapas do casco, a estibordo.
O operador de rdio americano garantiu repetidamente que
todos os que se encontravam estacionados em Thule rezavam
pelos pobres desgraados perdidos no icebergue. Na verdade,
no tinha dvidas de que rezavam por eles em todo o mundo.
  No havia oraes capazes de fazer com que Gunvald se
sentisse melhor. A verdade, pura e simples, era a de que o comandante
do Liberty - sem dvida por necessidade e com
grandes remorsos - tomara uma deciso que, virtualmente,
sentenciara oito pessoas  morte.
  Gunvald no tinha coragem para comunicar a notcia a Rita.
Pelo menos no naquele momento. Talvez  hora certa...
ou um quarto de hora depois. Queria ter tempo para se dominar.
Eram seus amigos e preocupava-se com eles. No queria
ser o mensageiro de uma sentena de morte. Gunvald tremia.
Tinha de pensar no que lhes iria dizer.
  Precisava de uma bebida. Embora em geral no procurasse
aliviar as tenses recorrendo  bebida e fosse conhecido pelos
seus nervos de ao, serviu-se de uma dose de vodca da reserva
de trs garrafas existente na barraca das comunicaes. Depois
de a beber, ainda no se sentia em condies de entrar em
contacto com Rita. Serviu-se outra vez, hesitou, e duplicou a
dose antes de guardar a garrafa.

  Apesar de os trens estarem parados, os cinco pequenos
motores murmuravam com regularidade. Na calota de gelos,
no meio de uma feroz tempestade, as mquinas no podiam
ser desligadas porque as baterias ir-se-iam abaixo e os
lubrificantes
dos motores ficariam congelados em dois ou trs minutos.
O vento no cessava e tornava-se cada vez mais frio  medida
que o dia chegava ao fim. Podia matar homens e
mquinas com toda a facilidade.
  Harry saiu da caverna de gelo e apressou-se em direco ao
tren que se encontrava mais perto. Quando se instalou na cabina
aquecida, desenroscou a tampa da garrafa trmica que levara
com ele. Tomou vrios golos da espessa e perfumada sopa
de vegetais. Fora preparada com uma mistura liofilizada e fervera
na placa de aquecimento que tinham usado anteriormente
para derreter a neve a fim de selarem os orifcios que continham
as cargas explosivas. Podia finalmente descontrair-se pela
primeira vez naquele dia, apesar de saber que se tratava de
uma paz temporria.
  Nos trs trens  sua esquerda, George Lin, Claude e Roger
comiam os seus jantares numa privacidade semelhante.
Mal os conseguia ver. No passavam de vagas sombras no interior
das cabinas obscurecidas.
  Toda a gente recebera trs chvenas de sopa. quele ritmo,
s tinham abastecimentos para mais duas refeies. Harry
decidira-se contra o racionamento da comida restante porque,
se no estivessem bem alimentados, o frio poderia mat-los
mais rapidamente.
  Franz Fischer e Pete Johnson encontravam-se na caverna
de gelo. Harry via-os perfeitamente porque os faris do seu
tren estavam apontados para a entrada e forneciam a nica
luz existente na caverna. Os dois homens andavam de um lado
para o outro, aguardando a oportunidade de se dirigirem para
as cabinas aquecidas para comer o seu quinho de sopa. Franz
movia-se com gestos secos e agitados, quase como se marcasse
passo. Num perfeito contraste, Pete deslocava-se de uma ponta
 outra da caverna com movimentos fluidos e descontrados.
  Rita bateu no plstico e abriu a porta da cabina, sobressaltando
Harry.
  Engolindo a sopa que tinha na boca, perguntou:
  - Que se passa?
  Rita inclinou-se para a frente, servindo-se do corpo para
bloquear a passagem do vento e da sua ruidosa voz.
  - Quer falar contigo.
  - O Brian?

  - Sim.
  - Est a melhorar?
  - Oh, sim. Est a recuperar muito bem.
  - Recorda-se do que lhe aconteceu?
  -  melhor que seja ele a contar-te - retorquiu Rita.
  Brian recuperava lentamente no quinto tren motorizado,
o que se encontrava estacionado mais longe da caverna. Rita
estivera na cabina com ele nos ltimos vinte minutos, massajando-lhe
os dedos gelados, dando-lhe sopa quente e certificando-se
de que no mergulhava num sono perigoso. Recuperara
a conscincia durante a viagem de regresso desde o local
da terceira carga explosiva mas sofrera uma agonia demasiado
grande para poder falar. Quando acordara ficara cheio de dores,
uma vez que os nervos entorpecidos haviam comeado a
reagir ao terrvel frio que quase o matara. No mnimo, o rapaz
ainda precisaria de uma hora para regressar ao seu estado normal.
  Harry fechou a garrafa trmica. Beijou Rita antes de colocar
os culos.
  - Hummm... - fez ela. - Mais.
  Da segunda vez, Harry sentiu a lngua da mulher entre os
seus lbios. Tinha os flocos de neve a rodopiarem-lhe  volta
da cabea e a danarem-lhe no rosto, mas a sua respirao era
quente sobre a pele oleada de Harry. Sentiu-se invadido por
uma tremenda preocupao por ela. Desejava proteg-la de
todos os males.
  Quando se separaram, Rita declarou:
  - Amo-te.
  - No sei bem como... mas podes estar certa de que voltaremos
a Paris quando isto terminar...
  - Bom, se no nos livrarmos desta - retorquiu Rita, no
nos podemos queixar. Tivemos oito bons anos. Divertimo-nos
mais e ammos mais do que a maior parte das pessoas durante
todo o seu tempo de vida.
  Harry sentia-se impotente, a batalhar contra probabilidades
impossveis. Fora sempre o homem que se encarregara de resolver
as crises e que conseguira encontrar solues at para
os problemas mais difceis. Aquela nova sensao de impotncia
enraivecia-o.
  Rita beijou-o ao de leve no canto da boca.
  - Despacha-te. O Brian est  tua espera.

  A cabina do tren estava desconfortavelmente apertada.
Harry sentou-se no estreito banco dos passageiros, virado para
a retaguarda da mquina, onde se encontrava Brian Dougherty,
virado para a frente. Tinha o guiador cravado nas costas e
os joelhos encostados aos de Brian. O plstico da cabina s
deixava passar uma vaga claridade ambarina e a semiescurido
fazia com que a pequena cabina parecesse ainda mais minscula.
  - Como te sentes? - perguntou Harry.
  - Terrvel.
  - E vais continuar a sentir-te assim durante mais um bocado.
  - Tenho bicadas nas mos e nos ps. No se trata apenas
de entorpecimento...  como se algum lhes estivesse a espetar
agulhas. - A voz de Brian era abafada pelas dores.
  - Queimaduras de gelo?
  - Ainda no olhei para os ps... mas a sensao  igual 
das mos... e estas no parecem ter sido queimadas. Creio que
estou bem, mas... - Ofegou de dor, com o rosto contorcido.
- Oh, Jesus, esta foi m...
  Abrindo a sua garrafa trmica, Harry ofereceu:
  - Queres sopa?
  - No, obrigado. Rita j me encheu a barriga de sopa.
Mais uma gota... e rebento. - Esfregou as mos, aparentemente
para aliviar um novo ataque de dores agudas. - A propsito,
estou completamente apaixonado pela tua mulher...
  - Quem  que no est?
  ... e quero agradecer-te por teres ido  minha procura.
Salvaste-me a vida, Harry.
  - Mais um dia, mais um acto de herosmo - retorquiu
Harry, engolindo um golo de sopa. - Que foi que te aconteceu?
  - A Rita no te disse?
  - Disse que era melhor seres tu a contar-me tudo.
  Brian hesitou. Os seus olhos brilharam nas sombras. Por
fim, acabou por declarar:
  - Fui atacado pelas costas.
  Harry quase se engasgou com a sopa.
  - Atacaram-te?!
  - Bateram-me na nuca.
  - Isso  impossvel!
  - Tenho os galos... para o provar!
  - Deixa-me ver...
  Brian inclinou-se para a frente e baixou a cabea.
  Harry descalou as luvas e apalpou a cabea do rapaz. Era
verdade, os dois altos eram proeminentes e fceis de
localizar.
Um deles era maior do que o outro, ambos na parte posterior
do crnio. Um dos altos ficava um pouco mais acima e  esquerda
do outro.
  - Contuso?
  - No tenho nenhum dos sintomas.
  - Dores de cabea?
  - Ah, sim. Uma danada de uma dor de cabea!
  - Viso dupla?
  - No.
  - Fala arrastada?
  - No.
  - Tens a certeza de que no te limitaste a desmaiar?
  - Absoluta - afirmou Brian, endireitando-se.
  - Se desmaiaste, podes ter embatido numa salincia de
gelo e dado uma pancada com a cabea.

  - Lembro-me perfeitamente de ter sido atacado pelas costas
- afirmou Brian, com uma voz endurecida pela convico.
- Por duas vezes. A primeira no foi com fora suficiente.
O capuz amorteceu o golpe. Cambaleei, recuperei o equilbrio,
comecei a virar-me... e bateram-me com muito mais fora.
As luzes apagaram-se.
  - E depois foste arrastado para fora das vistas?
  -  evidente que sim... antes que algum visse o que estava
a acontecer.
  -  extremamente improvvel.
  - O vento soprava em rajadas. A neve era to espessa que
no se via nada a mais de dois metros de distncia. Quem quer
que fosse... tinha uma excelente cobertura.
  - Ests a dizer que algum tentou assassinar-te...
  - Isso mesmo.
  - Mas... se foi esse o caso... para qu puxar-te para trs
da proteco da placa de gelo? Morrerias gelado em quinze
minutos se te tivesse deixado em campo aberto.
  - Pode ter pensado que a pancada me matara... mas, de
qualquer modo, deixou-me em campo aberto. Voltei a mim
depois de vocs partirem. Estava tonto, enjoado e gelado.
Consegui arrastar-me para trs do gelo antes de voltar a desmaiar.
  - Assassnio...
  - Sim.
  Harry no queria acreditar. J tinha demasiado em que
pensar e no possua a capacidade necessria para lidar com
mais uma preocupao.
  - Aconteceu quando vocs se preparavam para abandonar
o terceiro local. - Brian fez uma pausa e gemeu de dor:
- Os meus ps... Deus, parecem agulhas quentes mergulhadas
em cido. - Os seus joelhos fizeram mais fora contra os
de Harry mas comeou a descontrair-se cerca de um minuto
depois. Era resistente e continuou como se no tivesse havido
uma interrupo. - Estava a carregar algum equipamento no
ltimo reboque. Toda a gente andava ocupada. O vento soprava
em rajadas particularmente fortes e a neve era tanta que
vos tinha perdido de vista. Foi nesse momento que me atacou...
- Mas... quem foi?
- No o vi.
- Nem mesmo pelo canto dos olhos?
- No.
  - Se te queria morto, porque no esperou pela meia-noite?
Tal como as coisas esto, irs morrer como todos ns.
Por que razo te quis mandar  frente. Porque no ter esperado?

  - Bom, talvez...
  - Sim, o qu?
  - Pode parecer loucura... mas sou um Dougherty.
  Harry compreendeu imediatamente.
  - Sim, podias ser uma vtima atraente para um certo tipo
de manacos. H um certo sentido da histria no assassnio de
um Dougherty. De qualquer Dougherty. Suponho que posso
imaginar um psicopata a entusiasmar-se com a ideia.
  Ficaram em silncio.
  Depois, Brian perguntou:
  - Quem, entre ns, poder ser psictico?
  - Parece impossvel, no parece?
  -  verdade. Acreditas em mim?
  - Claro. No posso acreditar que te tenhas derrubado a ti
mesmo com duas pancadas na nuca... para depois te arrastares
para fora das vistas.
  Brian suspirou de alvio.
  - Esta presso a que estamos sujeitos... - murmurou
Harry. - Se um de ns estivesse quase na fronteira, fosse potencialmente
instvel mas funcional... o stress podia ser o
bastante
para o empurrar para o outro lado. Queres tentar adivinhar?
  - Adivinhar quem foi? No.
  - Esperava que apontasses para o George Lin.
  - No sei porqu, mas  bvio que George no gosta de
mim nem da minha famlia. Deixou-o bem claro. Todavia, sejam
quais forem as suas razes ou o que h de errado nele,
no consigo acreditar que possa ser um assassino.
  - No podes ter a certeza. Tal como eu, no sabes o que:
se passa na sua cabea. So poucas as pessoas que conhecemos
realmente bem ao longo da vida. No meu caso... Rita  a nica
pessoa sobre quem no tenho dvidas.
  - Sim... mas salvei a vida do George h algumas horas.
  - Se se trata de um psictico... isso no o preocupa.
de facto, na sua lgica retorcida e por alguma razo que nunca
conseguirs compreender, pode ser precisamente por isso que
te quer matar.
  O vento abanava o tren motorizado. A neve embatia e
assobiava no tecto da cabina.

  Pela primeira vez naquele dia, Harry sentia-se  beira do
desespero. Estava exausto, tanto fsica como mentalmente.
  - Ir tentar outra vez? - inquiriu Brian.
  - Se est louco, obcecado contigo e com a tua famlia, no
ir desistir facilmente. Que tem a perder? Tambm vai morrer
 meia-noite.
  Olhando pela janela lateral, para a violncia da noite,
Brian disse:
  - Estou com medo, Harry.
  - Se no estivesses... ento o psictico eras tu.
  - Tambm ests com medo?
  - Eu? Estou apavorado!
  - No pareces.
  - Nunca pareo. Limito-me a mijar nas calas e a esperar
que ningum d por isso.
  Brian soltou uma gargalhada mas depois estremeceu ao
sentir mais um espasmo de dor. Quando recuperou, continuou:
  - Bom, quem quer que seja... agora j estou preparado.
  - No te deixaremos sozinho. Um de ns, a Rita ou eu,
estar contigo durante todo o tempo.
  Esfregando as mos para massajar os dedos ainda gelados,
Brian perguntou:
  - Vais contar aos outros?
  - No. Vou dizer que no te lembras do que aconteceu,
que deves ter cado e batido com a cabea numa salincia de
gelo.  melhor que o teu candidato a assassino fique a pensar
que no sabes da sua existncia.
  - Tambm era essa a minha ideia. Tornar-se-ia extremamente
cauteloso se soubesse que estava  espera do prximo
- Porm, se julgar que no sabemos de nada, para a prxima
pode no ser to cuidadoso.
- Se se trata de um louco que quer matar-me, mesmo apesar de
eu, muito provavelmente, ir morrer  meia-noite... ento tambm
devo ser maluco. Preocupo-me com a possibilidade
de morrer... apesar de a meia-noite estar apenas a sete
horas de distncia.
- No. Tens um forte instinto de sobrevivncia, mais no 
que um sinal de sanidade mental.
- A no ser que esse instinto de sobrevivncia seja to
forte que no me permita reconhecer que me encontro numa
situao sem sada. Pode ser um sintoma de insanidade.
  - A situao no  sem sada - disse Harry. - Temos sete
horas. Tudo pode acontecer em sete horas.
  - Sim? Tal como...
  - Tudo.


17.00 HORAS


  Como uma baleia a saltar para fora de gua no mar alto, o
Ilya Pogodin subiu  superfcie pela segunda vez no espao de
uma hora. Brilhantes cascatas de gua deslizaram pelos flancos
negros do navio que rolava nas ondas de tempestade. O comandante
Nikita Gorov e dois tripulantes treparam para o alto
da torre e ocuparam posies de vigia.
  Nos ltimos trinta minutos, navegando  velocidade mxima
em imerso - de cerca de trinta e um ns -, o submarino
avanara quase trinta quilmetros para nor-nordeste da posio
que lhe havia sido designada. Timoshenko localizara o sinal
do emissor de rdio do grupo de Edgeway e Gorov traara
uma rota perfeitamente recta que se deveria cruzar com o percurso
do icebergue  deriva.  superfcie, o Pogodin podia
atingir os vinte e seis ns. Porm, como o mar estava mau, as
mquinas funcionavam apenas a um tero dessa velocidade.
Gorov estava ansioso por voltar a mergulhar no mar, at aos
cem metros, onde o submarino deslizaria como qualquer outro
peixe e a turbulncia da tempestade no o afectaria.
  O equipamento de localizao dos satlites ergueu-se na
parte traseira da torre e abriu-se como uma flor de Primavera.
As cinco placas do radar tinham a forma de ptalas que se juntaram
rapidamente umas s outras para se tornarem num prato
onde o gelo se comeou a formar logo que a neve caiu sobre
ele. Mesmo assim, o aparelho iniciou a sua diligente
investigao
dos cus.
  Trs minutos depois da hora, Timoshenko enviou um bilhete
para a ponte. O oficial de comunicaes desejava informar
o comandante que estava a chegar uma mensagem codificada
proveniente do Ministrio, de Moscovo.
  Chegara o momento da verdade.
  Gorov dobrou a folha de papel, meteu-o no bolso do casaco
e voltou a olhar pelo binculo. Investigou noventa graus do
horizonte varrido pela tempestade, mas o que via no eram
ondas, nuvens e neve. Era permanentemente assolado por
duas vises, mais vvidas do que a realidade. Na primeira encontrava-se
sentado a uma mesa, numa sala de conferncias
com um tecto dourado e um candelabro que projectava arcos-ris
nas paredes. Escutava o acusador do Estado, no seu prprio
tribunal marcial... e estava proibido de falar em sua
defesa.
Na segunda viso, olhava para um rapazinho que jazia
numa cama de hospital, um rapazinho morto que cheirava a
suor e urina. Os tubos do binculo pareciam-lhe ser uma conduta
tanto para o futuro como para o passado.
  s dezassete e cinco a mensagem foi entregue pela escotilha
da torre e estava nas mos do comandante. Gorov saltou
as oito primeiras linhas introdutrias e foi direito ao que
lhe interessava.


  VOSSO PEDIDO AUTORIZADO STOP AVANCE A TODA A VELOCIDADE
PARA SALVAR MEMBROS DA EXPEDIO EDGEWAY STOP QUANDO
OS ESTRANGEIROS ESTIVEREM A BORDO TOME TODAS AS PRECAUES
NO QUE SE REFERE A EQUIPAMENTOS SECRETOS STOP PROTEJA TODAS
AS REAS SENSVEIS DO SEU COMANDO STOP FUNCIONRIOS DA
EMBAIXADA EM WASHINGTON INFORMARAM GOVERNO AMERICANO
DA TENTATIVA DE SALVAMENTO DO GRUPO EDGEWAY STOP.

  No fundo do texto descodificado, Timoshenko escrevera

duas palavras a lpis: Recepo confirmada. Agora, nada mais
havia a fazer do que actuar de acordo com as novas ordens... o
que de qualquer modo j tinham feito durante a ltima meia
hora.
  Apesar de no ter a certeza de lhe restar tempo suficiente
para retirar aquelas pessoas do gelo, havia muito tempo que
Gorov no se sentia to feliz. Pelo menos fazia qualquer
coisa.
Tinha uma possibilidade, mesmo que pequena, de chegar junto
dos cientistas antes que morressem todos.
  Meteu a mensagem no bolso do casaco e fez soar dois toques
breves no alerta de imerso.

  s dezassete e trinta j Brian permanecera quase uma hora
no tren motorizado. Sofria de claustrofobia.
  - Gostaria de sair daqui e de poder andar um pouco.
  - No te precipites. - Rita acendeu a lanterna e o sbito
claro ps-lhe os olhos a chorar. Estudou-lhe as mos. - Esto
entorpecidas? Tens bicadas?

  - No.
  - Uma sensao de queimadura?
  - J no... e os ps tambm esto muito melhores. - Verificou
que Rita tinha dvidas. - Sinto as pernas entorpecidas.
Preciso de as exercitar... e est demasiado calor aqui dentro.
  Rita respondeu depois de uma breve hesitao:
  -  verdade que a tua cara j tem um pouco de cor... diferente
do bonito azul que exibia quando chegaste aqui. As
tuas mos tambm j no parecem translcidas. Bom... est
bem. Porm, quando esticares os msculos, se sentires bicadas
ou zonas adormecidas... volta imediatamente para aqui.
  - Est bem.
  Rita comeou por calar as botas de feltro e depois enfiou
os ps nas botas exteriores. A seguir, pegou no casaco que colocara
no banco, entre os dois. Com medo de comear a suar
naquele ar quente, despira parte do equipamento. Se suasse
dentro do fato, a humidade da pele dissipar-lhe-ia o calor do
corpo, num verdadeiro convite para a morte.
  Pela mesma razo, Brian tambm no usava o casaco, as
luvas e as botas.
  - No sou to flexvel como tu. Se sares e me deres mais
espao, creio que conseguirei vestir-me.
  - Deves estar demasiado rgido e magoado para o fazeres
sozinho. Deixa-me ajudar-te.
  - Fazes com que me sinta uma criana...
  - Parvoce! - Rita deu-lhe uma palmadinha no colo.
- Puxa os ps para cima, um de cada vez.
  - Davas uma me maravilhosa para algum - disse Brian
com um sorriso.
  - J o sou para o Harry.
  Enfiou-lhe a bota exterior no p algo inchado. Brian gemeu
de dor quando endireitou a perna. As suas articulaes
pareciam estar a desfazer-se.
  Quando Rita lhe apertou os atacadores, declarou:
  - Bom, no mnimo, tens um monte de material para escreveres
os teus artigos para as revistas.
  Brian ficou surpreendido ao ouvir-se dizer:
  - Decidi no os escrever. Em vez disso, vou comear um
livro.
  At quele momento, a sua obsesso fora uma questo privada.
Agora que a revelara a uma pessoa que respeitava, obrigava-se
a consider-la menos como uma obsesso e mais como
um compromisso.
- Um livro?  melhor pensares duas vezes.
- J pensei no assunto mais de mil vezes nestas ltimas semanas.
  - Escrever um livro  uma verdadeira provao. J escrevi
trs, como sabes. Podes precisar de escrever trinta artigos
para revistas para conseguires o mesmo nmero de palavras... mas
eu, no teu lugar, escrevia os artigos e esquecia-me da ideia
de vir a ser "autor". A agonia de escrever trabalhos pequenos 
muito menor do que a de escrever um livro.
  - Pois ... mas essa ideia no me tem largado.
  - Oh, sei como te sentes. Escrever o primeiro tero do livro
 quase como uma experincia sexual... mas trata-se de
uma sensao que desaparece. Acredita no que te digo. No segundo
tero, ests apenas a tentar provar alguma coisa... a ti
mesmo. Quando chegas  ltima parte, tudo passou a ser apenas
uma questo de sobrevivncia.
  - J imaginei uma maneira de conseguir uma narrativa
com ps e cabea. Tenho um tema.
  Rita fez uma careta e abanou a cabea com tristeza.
  - Ah, vais demasiado adiantado para responderes  razo.
- Ajudou-o a meter o p direito na bota de pele de foca.
- Qual  o teu tema?
  - O herosmo.
  - O herosmo?! - Nova careta enquanto lhe amarrava os
atacadores. - Em nome de Deus, que tem o Projecto Edgeway
a ver com herosmo?
  - Penso que tem tudo.
  - Ests louco.
  - Falo a srio.
  - Ainda no vi por aqui nenhum heri.
  Brian ficou surpreendido com aquele espanto, aparentemente
genuno.
  - J te viste ao espelho?
  - Eu?! Uma herona? Meu caro rapaz, nunca ningum esteve
to longe de ser uma herona.
  - No de acordo com o meu ponto de vista!
  - Ando sempre a tremer de medo durante a maior parte
do tempo.
  - Os heris podem ter medo... mas no  por isso que
deixam de ser heris. Agem... apesar do medo que sentem.
Este projecto  um plano herico.
  -  trabalho, mais nada.  perigoso. Talvez seja louco...
Herico? Nunca. Ests a romantizar.
  Brian ficou silencioso enquanto Rita acabava de lhe amarrar
os atacadores.
  - Bom, no  poltica...
  - No  poltica? O qu...?
  - O que esto a fazer aqui. No trabalham por poder, privilgios
ou dinheiro. No vieram para aqui por desejarem controlar
pessoas.
  Rita levantou a cabea e fitou-o. Tinha olhos maravilhosos...
to profundos como o lmpido oceano rctico. Naquele
momento, sabia que ela o compreendia melhor do que qualquer
outra pessoa jamais o comprendera.. e talvez at melhor
do que ele prprio.
  - O mundo diz que a tua famlia est cheia de heris.
  - Bom...
  - Mas tu no pensas do mesmo modo.
  - Conheo-os melhor.
  - Fizeram sacrifcios, Brian. O teu tio foi abatido. O teu
pai tambm recebeu uma bala.
  - Pode parecer-te mesquinho, mas no o seria se os conhecesses
bem. Rita, nenhum deles esperava ter de fazer um
sacrifcio desses... nem sequer qualquer espcie de
sacrifcio.
Levar um tiro ou ser morto no  um acto de bravura... tal como
tambm no o  para o pobre diabo que  abatido inesperadamente
quando est a levantar dinheiro de uma caixa automtica.
 uma vtima e no um heri.
  - Algumas pessoas metem-se na poltica para conseguir
um mundo melhor.
  - No conheo nenhuma dessas pessoas.  tudo uma sujeira,
Rita. Trata-se apenas de inveja e poder. Aqui, pelo
contrrio,
tudo  limpo. O trabalho  duro, o ambiente 
hostil...
mas limpo.
  Rita nunca desviara os olhos dos dele. Brian no se lembrava
de ningum que o tivesse enfrentado com tanta firmeza.
Depois de um silncio pensativo, Rita disse:
  - Ah, ento no s apenas um rapazinho rico ansioso por
emoes, tal como dizem os meios de comunicao...
  Brian foi o primeiro a desviar os olhos. Tirou o p do banco
 contorceu-se no pequeno espao para conseguir enfiar os
braos nas mangas do casaco.
  - Era isso o que pensavas a meu respeito?
  - No. No permito que os meios de comunicao pensem
por mim.
  - Por outro lado, posso estar a enganar-me a mim mesmo...
e talvez eu seja precisamente o que dizem de mim nos
jornais.
  - H muito poucas verdades nos jornais - retorquiu Rita.
- De facto, s a podes encontrar num lado...
  - Onde?
  - Tu sabes...
  - Em mim mesmo - respondeu Brian com um aceno.
  Rita sorriu. Vestindo o casaco, declarou:
  - Tudo correr bem para ti.
  - Quando?
  - Oh, talvez daqui a vinte anos.
  Brian soltou uma gargalhada.
  - Deus do Cu, espero no vir a ser um despistado durante
tanto tempo.
  - Talvez at mais. A vida  isso, sabes? A pouco e pouco,
dia a dia, com uma teimosia excruciante, cada um de ns
aprende a ser menos despistado.
  - Devias ser psiquiatra.
  - Os feiticeiros so mais eficientes.
  - Por vezes, cheguei a pensar que precisava de um.
  - De um psiquiatra?  melhor poupares o dinheiro. Tudo
o que precisas  de tempo. - Quando seguiu Rita para fora
do tren, Brian ficou surpreendido com o amargo poder do
vento de tempestade. Cortou-lhe a respirao e quase o fez
cair de joelhos. Agarrou-se  porta da cabina at ter a
certeza de se equilibrar.
  O vento recordou-o que o seu desconhecido assaltante, o
homem que lhe batera na cabea, no era a nica ameaa  sobrevivncia.
Durante alguns minutos esquecera-se de que se
encontravam  deriva... e esquecera-se tambm das bombas
que contavam o tempo que faltava para a meia-noite. O medo
voltou a invadi-lo. Agora que se comprometera a escrever o livro,
tinha um grande desejo de sobreviver.
  Os faris de um dos trens brilhavam atravs da entrada da
caverna. Nalguns pontos, as arestas do gelo decompunham o
seu claro em cintilantes prismas de gelo com todas as cores
primrias, formando formas geomtricas que pareciam jias
no meio daquele espao branco. As oito sombras distorcidas
dos membros da expedio ondulavam e deslizavam contra o
fundo encandeante, aumentavam e encolhiam, misteriosas,
mas talvez no mais do que as pessoas que as projectavam...
cinco das quais eram suspeitas enquanto uma era um assassino
em potncia.

  Harry observava Roger Breskin, Franz Fischer, George
Lin, Claude e Pete, que discutiam quais as opes que tinham
pela frente e como deveriam gastar as seis horas e vinte minutos
que faltavam para a meia-noite. Deveria ser ele a orientar
a discusso ou, pelo menos, contribuir com a sua parte, mas
no conseguia prestar ateno ao que os outros diziam. Em
primeiro lugar, fosse como fosse que passassem o tempo, no
podiam fugir do icebergue nem recuperar os explosivos, pelo
que a discusso era intil. Alm disso, apesar de tentar ser
discreto,
no podia deixar de os estudar intensamente... como se
as tendncias psicticas pudessem ser evidentes no modo como
um homem andava, falava ou gesticulava.
  A sua linha de pensamentos foi interrompida por uma chamada
da Estao Edgeway. A voz de Gunvald Larsson, carregada
de esttica, ecoou nas paredes de gelo.
  Os outros homens calaram-se.
  Quando Harry se dirigiu ao rdio e respondeu  chamada,
Gunvald disse:
  - Harry, os arrastes voltaram para trs. O Melville e o
Liberty. Fizeram-no j h algum tempo. Sabia-o mas no tive
coragem para vos dizer. - Mostrava-se estranhamente satisfeito
e excitado, como se aquelas ms notcias pudessem provocar-lhes
sorrisos. - Mas isso j no interessa! No interessa,
Harry!
  Pete, Claude e os outros amontoaram-se em volta do rdio,
intrigados com a excitao do sueco.
  Harry perguntou:
  - Gunvald, de que diabo ests tu a falar? No interessa?
Que queres dizer?
  A esttica rasgou as ondas de rdio, mas a frequncia aclarou
quando Larsson respondeu:
  ... acabei de receber a notcia atravs de Thule, vinda
de Washington. H um submarino na vossa vizinhana, Harry.
Ests a ouvir-me? Um submarino russo.


  20.20 HORAS

DETONAO EM TRS HORAS E QUARENTA
  MINUTOS


  Gorov, Zhukov e o marinheiro Semichastny treparam para
a ponte e viraram-se para bombordo. O mar no estava calmo
mas tambm no se mostrava to tumultuoso como na ocasio
em que haviam emergido para receber a mensagem do Ministrio
da Marinha. O icebergue estava ao lado deles, protegendo-os
de parte da fria da tempestade e do vento.
  No o podiam ver mas o radar e as imagens de sonar indicavam
que era macio tanto acima como abaixo da linha de
gua. Encontravam-se apenas a cinquenta ou sessenta metros
do alvo mas a escurido era impenetrvel. S o instinto avisava
Gorov que havia algo monstruoso a pairar sobre eles.
A conscincia de se encontrar na sombra de um colosso invisvel
era uma das sensaes mais fantasmagricas e desconcertantes
que j conhecera.
  Estavam vestidos com roupas quentes e usavam culos de
proteco. Contudo, o facto de se encontrarem no abrigo fornecido
pelo icebergue permitira-lhes sair sem mscaras e a
conversao no era to difcil como fora algumas horas antes,
tambm  superfcie.
  - Parece que estamos num calabouo sem janelas -
comentou Zhukov.
  No havia estrelas. No havia lua. Nem sequer se avistava
 a fosforescncia das ondas. Gorov nunca antes vira uma noite
to perfeitamente negra.
  Acima e por trs deles, a lmpada da ponte, de cem watts,
iluminava a zona imediatamente  sua volta e os trs homens
conseguiam ver-se uns aos outros. Salpicadas de pequenos
fragmentos de gelo, as ondas desfaziam-se contra o casco arredondado,
reflectindo um pouco da luz vermelha da lmpada e
dando a ideia de que o Pogodin navegava no dentro de gua
mas sim num oceano de sangue escuro. Para l daquele crculo
mal iluminado reinava uma escurido to profunda e densa
que os olhos de Gorov lhe doam quando a fixava durante demasiado
tempo.
  A maior parte da amurada da ponte estava coberta de gelo.
Gorov agarrava-se a ela para se firmar quando o navio balouava,
mas houve uma vez em que pousou a mo em metal nu.
A luva ficou colada ao ao. Arrancou-a e observou a palma: a
camada exterior de couro fora arrancada e o forro estava 
vista.
No teria ficado colado se estivesse a usar luvas de pele
de foca. Devia ter-se recordado de as ir buscar ao armrio do
equipamento. E se no usasse luvas? A mo ter-se-ia soldado
imediatamente ao metal e perderia um bom bocado de pele se
a puxasse para a libertar.
  Olhando, espantado, para a luva rasgada do comandante, o
marinheiro Semichastny exclamou:
  - Incrvel!
  - Que lugar miservel - comentou Zhukov.
  -  verdade.
  A neve que caa na ponte no tinha a forma de flocos. As
temperaturas negativas e os ventos violentos conspiravam para
produzir duras contas de neve, aquilo a que os meteorologistas
chamam granizo. Eram como milhes de gros brancos que
pareciam chumbos de caadeira. Pior do que aquilo, s uma
tempestade de espculas de gelo.
  Batendo no anemmetro, o primeiro-oficial anunciou:
  - Temos uma velocidade de vento de quarenta quilmetros
por hora apesar de estarmos protegidos pelo icebergue.
No mar aberto e no cimo do icebergue deve estar a soprar com
uma fora duas ou trs vezes maior.
  Tendo em conta o factor vento, Gorov desconfiava de que
a temperatura subjectiva no cimo do icebergue deveria ser, no
mnimo, de sessenta ou setenta graus negativos. Salvar os
cientistas da Estao Edgeway em to hediondas condies era o
maior desafio que jamais enfrentara na sua carreira naval. Nada
iria ser fcil... e talvez o salvamento fosse impossvel.
Comeou outra vez a preocupar-se com a possibilidade de ter
chegado tarde.
  - D-nos um pouco de luz - ordenou Gorov.
  Semichastny reagiu imediatamente, virou o projector para
bombordo e ligou o interruptor.
  O feixe de sessenta centmetros de dimetro perfurou a escurido
como se algum tivesse aberto a porta de uma fornalha
numa cave sem iluminao. Como estava inclinado para
baixo, o grande projector iluminou uma rea circular de mar a
apenas dez metros do submarino: ondas agitadas bordadas
a espuma gelada num remoinho fervilhante mas que no era
impossvel de navegar. As ondas embatiam no navio e lanavam
lminas de espuma para o ar, espuma que congelava instantaneamente
em intrincadas e brilhantes rendas de gelo. Permaneciam
suspensas no ar por um tempo sem tempo e depois
voltavam a cair na gua. Eram de uma estranha beleza, to
efmera como qualquer momento de um pr do Sol perfeito.
  A temperatura do oceano estava alguns graus acima da
congelao, mas a gua retinha o calor suficiente - e estava
demasiado agitada, para alm de ser salgada - para que o gelo
que continha fosse apenas o que se desprendera da calota
polar quarenta quilmetros mais a norte. Era composto por
fragmentos pequenos, nenhum maior do que um automvel,
que flutuavam nas guas e chocavam uns contra os outros.
  Agarrando nos. punhos existentes na traseira do projector,
Semichastny virou-o para cima, mais para bombordo. O forte
feixe de luz abriu caminho por entre a escurido e a neve... e
foi brilhar contra uma enorme paliada de gelo, to monstruosa
e to perto deles que os trs homens ofegaram de surpresa.
  A cinquenta metros de distncia, o icebergue derivava lentamente
para leste-sudoeste, empurrado por uma fraca corrente
de Inverno. Mesmo com o vento tempestuoso a soprar por
detrs dela, a macia ilha de gelo no conseguia fazer mais do
que dois ou trs ns. O seu maior volume encontrava-se submerso
e era empurrado no pela tempestade  superfcie mas
por correntes mais profundas.
  Semichastny moveu lentamente o projector para a direita e
depois de novo para a esquerda.
  A falsia de gelo que tinham na frente era to comprida e
alta que Gorov nem sequer conseguia ficar com uma ideia sobre
o seu aspecto geral. Cada crculo de gelo brilhantemente
iluminado, apesar de ser visvel com grandes pormenores, parecia
dissociado do anterior. Compreender todo aquele monstro
era o mesmo que tentar imaginar a imagem de um quebra-cabeas
j pronto olhando apenas para as suas quinhentas
peas separadas e desordenadas.
  - Tenente Zhukov, lance um foguete.
  - Sim, senhor.
  Zhukov empunhava a pistola de sinais, grande, com um
cano muito comprido, de cinco centmetros de dimetro.
Levantou-a, estendeu o brao e disparou na direco de bombordo.
  O foguete subiu rapidamente atravs da neve que caa. Foi
visvel por instantes, deixando um rasto de fascas vermelhas
e de fumo, mas depois desapareceu na tempestade como se
tivesse ultrapassado um vu e passasse para uma outra dimenso.
  Noventa metros... cento e vinte metros... cento e cinquenta metros...
  L muito no alto, o foguete explodiu como uma brilhante
lua incandescente. No comeou a perder altitude imediatamente
e derivou para sul, empurrado pelo vento.
  Por baixo do foguete, trezentos metros em cada direco, o
oceano ficou pintado por uma luz fria que revelou o seu tom
verde-acinzentado. As fileiras irregularmente espaadas daS
ondas lanavam sombras irregulares e aguadas que adejavam
como incontveis bandos de frenticas aves negras alimentando-se
de pequenos peixes nos intervalos entre as cristas
lquidas.
  O icebergue erguia-se sobre eles. Era uma presena ameaadora,
com pelo menos trinta metros de altura, desaparecendo
na escurido para a esquerda e para a direita, formando
uma muralha gigantesca, mais formidvel do que as fortificaes
de qualquer castelo do mundo. Durante a aproximao,
guiada por radar e sonar, haviam descoberto que o icebergue
tinha um comprimento de mil e duzentos metros. Erguendo-se
do mar malhado de verde, cinzento e preto, parecia-se curiosamente
com um totem, com um monlito feito pelo homem,
possuidor de um misterioso significado religioso. Elevava-se
para o alto, liso como vidro, brilhante, imaculado, sem
grandes salincias ou concavidades. Era vertical, duro e
aterrorizador.
  Gorov esperara deparar-se-lhe uma parede toda rasgada
que descesse para a gua em degraus fceis de transpor. A agitao
do mar no era desencorajadora, pelo menos daquele lado
do icebergue, o que permitiria desembarcar alguns homens
no gelo... se tivessem um lugar onde o fazer.
  O equipamento do submarino inclua trs barcos de borracha
insuflveis, com motor, bem como uma grande seleco do
melhor equipamento de alpinismo. Nos ltimos sete anos, em
quinze ocasies diferentes, o Ilya Pogodin transportara passageiros
secretos - quase sempre operacionais das foras especiais

da diviso "Spetsnaz", sabotadores altamente treinados
e
equipas de reconhecimento - e largara-os em costas alcantiladas,
 noite, em sete pases ocidentais. Por outro lado, em
caso de guerra o navio tambm podia transportar - para alm
da tripulao normal - um grupo de nove comandos capaz de
desembarcar em segurana, em menos de cinco minutos, mesmo
com mau tempo.
  Todavia, precisavam de encontrar um local para os barcos
de borracha. Um pequeno terrao. Uma gruta. Um simples nicho
acima do nvel da gua. Qualquer coisa.
  Como se lesse os pensamentos do comandante, Zhukov
disse:
  - Mesmo que os homens conseguissem desembarcar... seria
uma escalada infernal.
  - Podemos faz-lo.
  - A parede  to lisa e polida como uma placa de vidro de
trinta metros de altura.
  - Podemos abrir degraus no gelo - afirmou Gorov.
- Temos os machados, os pites e as cordas. Temos botas de
alpinismo e ganchos. Temos tudo o que  preciso.
  - Os nossos homens so marinheiros... e no alpinistas.
  O foguete encontrava-se agora por cima do submarino e
continuava a derivar para o sul. A luz j no era nem forte
nem branca. Ganhara um tom amarelado e estava a fraquejar.
Havia fumo em volta do foguete, fumo que provocava sombras
bizarras que se contorciam sobre a face do icebergue.
  - Homens bem escolhidos... poderiam faz-lo - insistiu
Gorov.
  - Sim, senhor - retorquiu Zhukov. - Sei que podiam.
At eu o faria, se fosse preciso, e tenho medo das alturas.
Todavia, nem eu nem os homens temos experincia nestas coisas.
No h uma nica pessoa a bordo capaz de trepar aquilo nem
sequer no dobro do tempo de um alpinista treinado. Precisaramos
de horas, talvez trs ou quatro, ou at cinco, para
chegarmos
ao cimo e montarmos um sistema capaz de descer os
cientistas para os barcos. E por essa altura...
  . . por essa altura - prosseguiu Gorov, concluindo a argumentao
do seu primeiro-oficial - teriam muita sorte se
ainda dispusessem de uma hora para se salvarem...
  A meia-noite aproximava-se rapidamente.
  O foguete apagou-se.
  Semichastny continuava com o projector apontado ao icebergue,
deslocando-o lentamente da esquerda para a direita,
apontado para a linha de gua, na esperana de encontrar uma
salincia, um terrao ou uma fissura em que no tivessem reparado.
  - Vamos dar uma vista de olhos ao outro lado - disse
Gorov. - Talvez tenha algo melhor para nos oferecer.

  Na caverna, enquanto aguardavam por mais notcias de
Gunvald, toda a gente ficou excitada com a perspectiva de salvamento...
para logo se acalmarem com a ideia de que o submarino
pudesse no chegar suficientemente depressa para os
resgatar do icebergue antes da meia-noite. Por vezes permaneciam
em silncio enquanto noutras ocasies pareciam falar todos
ao mesmo tempo.
  Depois de esperar que a caverna estivesse cheia de conversas
excitadas e que os outros se mostrassem distrados, Harry
pediu desculpa, dizendo que precisava de ir  latrina. Ao passar
por Pete Johnson, sussurrou:
  - Preciso de falar contigo, a ss.
  Pete pestanejou de surpresa.
  Sem sequer abrandar o passo e quase sem olhar para o engenheiro,
Harry ps os culos no seu lugar, puxou a mscara
para cima e saiu da caverna. Dobrou-se contra o vento, acendeu
a lanterna e caminhou para l dos trens, cujos motores
continuavam a murmurejar.
  Duvidava que ainda lhes restasse muito combustvel nos
depsitos. Muito em breve, os motores calar-se-iam. No haveria
mais luz. No haveria calor.
  Para l dos trens motorizados, a rea que tinham escolhido
como latrina para o acampamento provisrio encontrava-se
do outro lado de uma elevao de trs metros de altura de neve
e gelo, em forma de "U", vinte metros para l das tendas
insuflveis que agora jaziam em runas. Na verdade, Harry
no precisava de se aliviar, mas o apelo da natureza dava-lhe
a desculpa mais natural e conveniente para sair da caverna e
afastar-se dos outros. Atingiu a abertura do crescente formado
pelo monte de gelo e neve, avanou at ao fundo sobre a neve
para ali atirada pelo vento e encostou as costas  parede.
  Admitia que podia estar a cometer um grande erro ao falar
com Pete Johnson. Tal como dissera a Brian, ningum podia
ter certezas sobre o que se passava na mente de outro ser humano.
Mesmo um amigo ou um ser amado, bem conhecido e
de confiana, podia ocultar negros impulsos e desejos desprezveis.
Toda a gente era um mistrio, dentro de um mistrio...
com o conjunto envolto num enigma. Por acaso, ao longo de
toda uma vida de constante busca de aventuras, Harry escolhera
uma actividade que o punha em contacto com menos pessoas
do que quase todas as outras profisses, e cada vez que
aceitava um novo desafio o adversrio nunca era outra pessoa,
mas sim a prpria me natureza. A natureza podia ser dura,
mas no era traioeira, podia ser poderosa e despreocupada
mas nunca era conscientemente cruel. Quando lidava com ela
no tinha necessidade de se preocupar com uma derrota devida
a falsidades ou traies. Fosse como fosse, decidira
arriscar
uma confrontao, a ss, com Pete Johnson.
  Desejava ter uma arma.
  Tendo em conta o ataque a Brian, parecia-lhe criminosamente
estpido ter ido para a calota polar sem uma arma pessoal
de grande calibre abrigada num coldre por baixo da parka.
Claro que, em toda a sua experincia, as investigaes
geolgicas nunca lhe haviam exigido que disparasse contra algum.
  Pete apareceu um minuto depois e juntou-se-lhe no fundo
do abrigo em "U", sem telhado.
  Enfrentaram-se um ao outro, com os culos puxados para a
testa e as mscaras em baixo, de lanternas apontadas para as
botas. O claro reflectia-se no cho e iluminava-os.
O rosto de Pete parecia brilhar com uma luz prpria. Harry sabia que o
seu aspecto deveria ser muito semelhante: mais brilhante em
volta do queixo e da boca, mais escuro para a testa, com os
olhos a cintilar nas profundidades do que pareciam ser dois
buracos negros abertos no crnio. Uma carantonha mais assustadora
do que uma mscara do dia das bruxas.
  Pete comentou:
  - Vamos dizer mal de algum... ou, de sbito, ganhaste
uma espcie de interesse romntico por mim?
  - O caso  srio, Pete.
  - Claro que . Se a Rita descobre... d-me uma tareia.
  - Olha, vou direito ao assunto: por que motivo tentaste
matar o Brian Dougherty?
  - No gosto da maneira como se penteia.
  - Pete, no estou a brincar.
  - Bom, est bem, foi porque me tratou por "preto".
  Harry olhou-o sem dizer nada.
  Por cima das suas cabeas, no alto da salincia que os abrigava,
o vento de tempestade assobiava e zumbia nas salincias
naturais das placas de gelo amontoadas umas em cima das outras.
  O sorriso de Pete desapareceu-lhe do rosto.
  - Homem, ests mesmo a falar a srio! - exclamou.
  - Acaba com as tretas, Pete.
  - Harry, por amor de Deus, que se passa aqui?
  Harry observou-o por longos segundos, servindo-se do silncio
para o desconcertar,  espera de ser atacado... ou no.
Por fim, afirmou:
  - Bem... talvez acredite em ti.
  - Talvez acredites em mim? Porqu? - A expresso intrigada
no rosto largo e escuro do homem parecia to genuna
como o doce ar de inocncia de qualquer cordeiro. A nica
sugesto malfica devia-se inteiramente ao efeito teatral da luz
das lanternas, que se reflectia e os iluminava por baixo.
  - Ests mesmo a querer dizer-me que algum tentou mat-lo?
Quando? No terceiro furo, quando ficou para trs?
Mas... se ele caiu, como tu prprio disseste... e como ele
disse... Explicou-nos que tinha cado e batido com a cabea. No
foi o que aconteceu?
  Harry suspirou e sentiu-se a perder parte da tenso no pescoo
e nos ombros.
  - Maldio! Se s tu, representas muito bem. Estou convencido
de que no sabes de nada.
  - Olha, sei que no sei de nada.
  - Brian no caiu e no ficou inconsciente por ter batido
com a cabea. No ficou para trs por acidente. Algum lhe
bateu na nuca... por duas vezes.
  Pete ficou sem fala. Em geral, o seu tipo de trabalho tambm
no requeria que andasse armado.
  To rapidamente quanto possvel, Harry narrou-lhe a conversa
que tivera com Brian na cabina do tren motorizado,
apenas algumas horas antes.
  - Jesus! - exclamou Pete. - E pensaste que tinha sido eu!
  - Sim... apesar de no suspeitar tanto de ti como de alguns
dos outros.
  - No entanto, h um minuto... receaste que eu te saltasse
 garganta!
  - Desculpa. s um tipo que me agrada muito, mas, no fim
de contas, s te conheo h oito ou nove meses. Podias ter
ocultado coisas, atitudes, preconceitos...
  Pete abanou a cabea.
  - No precisas de te explicar. No tinhas motivos para
confiar mais em mim do que nos outros. No te exijo um pedido
de desculpas. No h dvida de que s corajoso. Fisicamente,
no s pequeno, mas se quisesse, chegava bem para ti.
  Harry precisava de levantar os olhos para ver a cara de Pete
e de sbito o seu amigo pareceu-lhe mais gigantesco do que
nunca. Tinha ombros quase demasiado grandes para uma porta
vulgar. Braos macios. Seria uma presena formidvel no
campo se tivesse aceite as ofertas para jogar rguebi... e
talvez fosse capaz de dar boa rplica a um urso polar que aparecesse
Por ali.
  - Se eu fosse esse psicopata - disse Pete - e decidisse
matar-te aqui e agora, no terias grandes oportunidades.
  - Pois , mas no tive por onde escolher. Precisava de
mais um aliado e tu eras a melhor hiptese. A propsito...
obrigado por no me teres arrancado a cabea.
  Pete tossiu e cuspiu para a neve.
  - Mudei de opinio a teu respeito, Harry. Afinal, no tens
nenhum complexo de heri. Esse tipo de coragem  perfeitamente
natural em ti. Foste feito assim. Foi como vieste ao
mundo.
  - S fiz o que tinha de fazer - afirmou Harry, impacientemente.
- Como estvamos isolados neste icebergue e aparentemente
amos morrer  meia-noite... pensei que Rita e eu
poderamos proteger o Brian. Imaginei que o nosso candidato
a assassino iria aproveitar uma qualquer oportunidade para se
atirar ao rapaz, mas que no se daria ao trabalho de criar
essa oportunidade. Porm, agora que o submarino vem a... Bom,
se ele pensar que Brian se salva...  capaz de tentar alguma
coisa mais ousada, tal como fazer nova tentativa de assassnio
do rapaz mesmo que isso signifique que tenha de se revelar. Se
isso acontecer, preciso de algum, para alm da Rita e de
mim, para o deter.
  - E fui eu o nomeado.
  - Parabns.
  Um remoinho de vento conseguiu ultrapassar a barreira de
gelo e caiu sobre eles. Baixaram a cabea enquanto a coluna
de neve rodopiante os envolvia, to densa que quase parecia
uma avalancha. Durante alguns segundos, ficaram cegos e surdos.
A seguir, aquela pequena tempestade dentro da tempestade
desapareceu pela extremidade aberta do abrigo em forma
de crescente.
  - Tanto quanto saibas - continuou Pete -, temos de vigiar
algum dos outros com mais ateno?
  - Devia ter sido eu a fazer essa pergunta. J sei qual  a
opinio da Rita, do Brian... e a minha. Necessito de uma nova
perspectiva.
  Pete no precisou de ponderar a questo para responder:
  - George Lin.
  - Essa foi tambm a minha primeira escolha.
  - No foi a ltima? Achas que seria demasiado bvia?
  - Talvez... mas isso no o elimina.
  - De qualquer modo, que diabo se passa com ele? Qual a
razo para o modo como trata Brian... e para tanta ira?
  - No sei bem... - replicou Harry. - Aconteceu-lhe
qualquer coisa na China, quando era ainda muito novo. Foi algo
de traumtico, talvez nos ltimos tempos do governo de
Chiang... e aparentemente relaciona Brian com o caso por
causa das polticas da famlia.
  - No foi capaz de aguentar a presso a que temos estado
submetidos...
  -  possvel...
  - Mas a coisa no te soa bem, pois no?
  - No muito.
  Ficaram a pensar no assunto.
  Pete Johnson comeou a marcar passo sem sair do mesmo
stio para que os ps no lhe gelassem. Harry seguiu-lhe o
exemplo, mexendo as pernas para baixo e para cima sem ir a
lado nenhum.
  Depois de um ou dois minutos, mas sempre a movimentar-se,
Pete inquiriu:
  - E o Franz Fischer?
  - Que h quanto a ele?
  -  muito frio para contigo... e para com a Rita. Bom, no
que se refere  Rita, no  propriamente frio... mas tem uma
maneira estranha de a olhar.
  - s observador.
  - Talvez o faa por cimes profissionais, por causa de todos
os prmios que vocs amontoaram nos ltimos anos.
  - O Franz no  assim to mesquinho.
  - Ento... porque ? - Quando viu que Harry hesitava,
Pete acrescentou: - A questo no me diz respeito, no ?
  - Eles conheceram-se.
  - Antes de a Rita ter casado contigo?
  - Sim. Foram amantes.
  - Ah, ento so cimes... mas no por causa dos prmios!
  - Aparentemente...  isso.
  -  uma mulher formidvel - disse Pete. - Qualquer
um que a perdesse a teu favor no ficaria com grande considerao
por ti. J pensaste que talvez tivesse sido melhor no
incluir
o Franz na equipa?
  - Se Rita e eu pudemos esquecer essa parte do passado,
no achas que tambm ele o pode fazer?
  - Homem, o Franz no s tu nem a Rita.  um obcecado
pela cincia, demasiado consciente de si mesmo. Pode ter um
bom aspecto e ser de certo modo elegante e sofisticado, mas 
basicamente inseguro. Provavelmente aceitou fazer parte da
expedio s para que Rita tivesse uma oportunidade para o
comparar contigo em condies extremas. Pode ter pensado
que no serias capaz de te manter de p no gelo, enquanto ele
se comportaria como o Nanook do Norte, como um verdadeiro
macho. E claro que compreendeu, desde o princpio, que as coisas
no correriam desse modo, o que explica o seu ar amuado.
  - No faz sentido.
  - Para mim... faz e muito!
  Harry acabou com os exerccios de aquecimento, receando
comear a suar.
  - Talvez o Franz nos odeie, a mim e  Rita, mas que tem
isso a ver com o ataque a Brian?
  Depois de mais uma dzia de passadas, Franz tambm se
imobilizou:
  - Quem sabe como funciona a cabea de um psicopata?
  Harry abanou a cabea.
  - Pode ter sido o Franz... mas no por ter cimes de mim.
  - O Breskin?
  -  uma incgnita.
  - Parece-me demasiado controlado.
  - Temos sempre tendncia para desconfiarmos dos solitrios
- disse Harry - e dos tipos calados que nunca se abrem.
Todavia,  to lgico suspeitar dele como do Franz s porque
este teve uma relao com a Rita h muitos anos.
  - Porque foi que Breskin emigrou do Canad para os Estados
Unidos?
  - No me lembro. No sei se falou no assunto.
  - Pode ter sido por razes polticas - sugeriu Pete.
  - Sim, pode ter sido... mas o Canad e os Estados Unido
  tm polticas basicamente semelhantes. Se um homem
abandona o seu pas e adopta a cidadania de outro, seria de esperar
  que fosse para um lugar radicalmente diferente, com outro
  sistema de governo e de economia. - Harry fungou
quando sentiu um pingo no nariz. - Alm disso, Roger teve
  oportunidade para matar o rapaz, esta tarde. Quando
  estava pendurado na falsia, tentando alcanar o Cimo
  bastava-lhe cortar a corda. Ningum desconfiaria.
  - Talvez deseje matar apenas o Brian. Pode ser a sua nica
obsesso. Se cortasse a corda, no conseguiria salvar o Lin
sem ajuda.
  - Podia cortar a corda depois de o Lin estar a salvo.
  - Nesse caso, o George seria uma testemunha.
  - Qual  o psicopata que tem um tal domnio sobre si
mesmo? De qualquer modo, o George Lin estava semi-inconsciente
e pouco poderia testemunhar.
  - Porm, tal como disseste, o Roger  um enigma.
  - Voltmos ao princpio. Andmos em crculos.
  Enquanto respiravam, o vapor que exalavam cristalizava
entre eles. Tornara-se uma nuvem to espessa que no se viam
claramente apesar de se encontrarem a no mais de sessenta
centmetros de distncia.
  Agitando as mos para afastar aquele nevoeiro de modo a
que o vento o arrastasse, Pete prosseguiu:
  - Resta-nos apenas o Claude.
  - Parece-me o mais improvvel.
  - H quanto tempo o conheces?
  - H quinze ou dezasseis anos.
  - J tinhas estado no gelo com ele?
  - Vrias vezes - confirmou Harry. -  um tipo formidvel.

  - Fala muitas vezes na falecida mulher, Colette... e ainda
fica abalado e choroso. Quando foi que ela morreu?
  - Faz trs anos... neste ms. Claude estava nos gelos. Era
a sua primeira expedio em dois anos e meio... e assassinaram-na.

  - Assassinaram-na!?
  - Voara de Paris para Londres para tirar uns dias de frias.
Estava em Londres havia apenas trs dias. O IRA colocou
uma bomba no restaurante onde ela costumava almoar...
e foi uma das oito pessoas mortas.
  - Deus do Cu!
  - Apanharam um dos homens envolvidos. Ainda est na
priso.
E o Claude teve dificuldade em aceitar... - murmurou
Pete.
  - Oh, sim. A Colette era formidvel. Havias de gostar dela.
O Claude e a Colette eram to unidos como eu e a Rita.
  Por instantes, nenhum deles falou.
  No alto da barreira de gelo, o vento gemia como um fantasma
preso entre este mundo e o outro. Mais uma vez, o gelo
levou Harry a pensar num cemitrio. Estremeceu.

  Pete declarou:
  - Se um homem est profundamente apaixonado por uma
mulher e lha tirarem, desfeita em bocados por uma bomba...
pode ficar com uma mentalidade deformada.
  - No no caso do Claude. Desfeito... sim. Deprimido...
tambm. Nunca deformado. Claude  o tipo mais simptico...
  - A mulher foi morta por um irlands.
  - E ento?
  - Dougherty  irlands.
  - Ests a exagerar.  irlands-americano... da terceira gerao.

  - Disseste que um dos bombistas foi preso?
  - Sim. Nunca conseguiram apanhar os outros.
  - Recordas-te do nome?
  - No.
  - Seria Dougherty... ou qualquer coisa parecida?
  Harry fez uma careta e ps a questo de lado com um gesto
da mo.
  - Ora, Pete, ests a esticar demasiado as probabilidades.
  O gigantesco homem comeou outra vez a marcar passo
sem sair do seu lugar.
  - Sim... creio que sim. Todavia, no sei se sabes que tanto
o tio de Brian como o pai foram acusados de favorecer os descendentes
de Irlandeses, em detrimento de outros grupos... e
algumas pessoas dizem que simpatizam com a tendncia esquerdista
do IRA ao ponto de o financiarem secretamente...
  - Tambm ouvi dizer isso, mas nunca foi provado. Tanto
quanto sei, trata-se apenas de difamao poltica. O facto...
 que temos quatro suspeitos e nenhum deles parece um candidato
provvel...
  - Correco...
  - A qu?
  - Temos seis suspeitos.
  - Franz, George, Roger, Claude...

  - E eu.
  - J te eliminei.
  - De modo nenhum.
  - No brinques comigo.
  - Estou a falar a srio - declarou Pete.
  - Depois da conversa que tivemos, sei que no podes...
  - H alguma lei que diga que um psicopata no pode ser
um bom actor?
  Harry fitou-o, tentando ler-lhe a expresso. De sbito, a
malevolncia no rosto de Johnson j no lhe parecia ser apenas
um efeito dos peculiares reflexos da luz na neve.
  - Ests a pr-me nervoso, Pete.
  - ptimo!
  - Sei que falaste verdade e que no s tu o tipo... mas
agora ests a dizer-me que no devo confiar em ningum, nem
sequer por um momento... mesmo que pense que conheo essa
pessoa como a um irmo.
  - Precisamente... e essa afirmao  vlida para os dois.
 por isso que o sexto nome na lista dos suspeitos...  o teu.
  - O qu? Eu!?
  - Estavas junto  terceira carga explosiva tal como todos
os outros.
  - Mas fui eu quem o encontrou quando l voltmos.
  - Sim... e foste tu quem definiu as reas de busca. Podes
ter reservado a boa para ti s para teres a certeza de que
estava morto antes de o "encontrares". Contudo, o Breskin descobriu-te
antes de teres uma oportunidade de acabar com o
Brian.
  Harry olhava-o de boca aberta.
  - E se fores suficientemente louco - insistiu Pete -, podes
nem sequer compreender que h um assassino dentro de ti.
  - Falas a srio? Achas-me capaz de assassnio?
  -  uma hiptese num milho... mas j vi gente a ganhar
contra probabilidades piores.
  Apesar de saber que Pete o fazia provar do seu prprio remdio,
dando-o a saborear a sensao de ser tratado como um
suspeito, Harry sentiu o regresso da tenso aos ombros e pescoo.
  - Sabes o que h de errado convosco, Californianos?perguntou.
  - Sim. Fazemos com que os Bostonianos se sintam inferiores
por sermos to autoconscientes e amadurecidos, enquanto
vocs so uns botas-de-elstico sempre contrados.
  - Na verdade, estava a pensar que todos aqueles terramotos,
fogos, avalanchas de lama, motins e crimes em srie vos
tornaram paranicos.
  Sorriram um para o outro.
  - Bom,  melhor voltarmos - disse Harry.

  Os dois foguetes luminosos flutuavam no cu nocturno a
cento e cinquenta metros um do outro enquanto o projector
passeava para aqui e para ali ao longo da base das cintilantes
falsias de gelo.

  O outro lado do icebergue no era to assustador como a
parede vertical que haviam visto anteriormente. A parede de
gelo estava cortada por trs terraos irregulares que se
afastavam
progressivamente da linha de gua. Cada uma delas parecia
ter uma profundidade de dois metros e meio a trs metros
e, no seu conjunto, sobressaam seis ou sete metros acima do
mar. Para l dos terraos, a parede erguia-se num ngulo de
cinquenta graus, ou mais, at uma pequena salincia. Por cima
desta via-se uma muralha de gelo vertical de cerca de seis metros
de altura.
  - As jangadas podiam abordar aquelas salincias... - disse
disse Zhukov, examinando o gelo atravs dos binculos - e at
homens no treinados conseguem subir aquela falsia... mas
no com este tempo.

  Gorov mal o conseguia ouvir por cima da ruidosa voz da
tempestade e das colises rtmicas das ondas contra o
submarino.
  O mar mostrava-se muito mais violento daquele lado do
icebergue. As enormes ondas lanavam-se por cima dos terraos
na base do icebergue. Eram ondas capazes de virar um
barco salva-vidas, de dimenses mdias e de destruir os barcos
de borracha do Pogodin, desfazendo-os em bocados. O prprio
navio, com as suas turbinas de quarenta mil cavalos e uma
deslocao  superfcie de seis mil e quinhentas toneladas,
tinha alguma dificuldade para se aguentar. Era frequente que a
proa mergulhasse debaixo de gua... e quando conseguia levantar-se
parecia um animal a lutar contra areias movedias.
As ondas varriam o convs com uma fora espantosa, faziam
vibrar todo o casco e explodiam contra a torre, lanando espuma
que subia muito acima da cabea de Gorov. Os trs homens
estavam cobertos de gelo da cabea aos ps desde as botas,
s calas, e aos casacos.
  O vento violento registava cento e vinte quilmetros por
hora no anemmetro da ponte, mas de vez em quando soprava
com rajadas duas vezes mais fortes. Os grnulos de neve eram
como abelhas: mordiam o rosto de Gorov e enchiam-lhe os
olhos de lgrimas.
  -  melhor regressarmos ao outro lado - gritou o comandante,
apesar de se encontrar quase ombro com ombro, na pequena
ponte, com os subordinados.
  Recordava-se com demasiada clareza da falsia lisa de trinta
metros que os aguardava do outro lado... mas no tinha outra
soluo. A zona virada ao vento no lhes dava qualquer
esperana de acesso.
  - E quando l chegarmos...? - perguntou Zhukov.
  Gorov hesitou, pensando no assunto.
  - Atiraremos um cabo. Mandaremos um homem para l,
para preparar uma bia-calo.
  - Lanar um cabo? - Zhukov tinha dvida. Inclinou-se
at ficar com o rosto junto do do comandante e gritou as suas
preocupaes: - Mesmo que isso resulte, mesmo que se prenda
ao gelo... poderemos esticar um cabo entre dois objectos
em movimento?
  - Talvez... Num caso desesperado. Na verdade, no sei.
Temos de tentar.  um ponto de partida.
  Se fosse possvel utilizar um cabo para desembarcar alguns
homens no icebergue - com o equipamento apropriado -,
estes poderiam utilizar explosivos para abrir uma plataforma
no gelo, permitindo o envio dos barcos de borracha. Talvez at
conseguissem atirar um cabo para o alto do icebergue, o que
lhes permitiria trepar a falsia de gelo com tanta facilidade
como moscas a subirem uma parede.
  Zhukov olhou para o relgio:
  - So trs e meia! - gritou, por cima do vento do Armagedo.

-  melhor comearmos.
  - Abandonem a ponte! - ordenou Gorov, tocando a sirena
de imerso.
  Meio minuto depois, quando chegou  sala do comando,
ouviu o sargento a anunciar:
  - Tudo verde!
  Zhukov e Semichastny j se tinham dirigido s suas instalaes
para vestirem roupas secas.
  Quando Gorov desceu a escada da torre soltando fragmentos
de gelo  medida que se mexia, o oficial de imerso viu-o
e disse:
  - Comandante?
  - Vou mudar de roupa. Leva-o para os vinte metros e regressa
ao outro lado do icebergue.
  - Sim, senhor.
  - Voltarei dentro de dez minutos.
  - Sim, senhor.

  Na cabina, depois de despir as roupas encharcadas e geladas,
trocando-as por um uniforme seco, Gorov sentou-se  secretria
do canto e pegou na fotografia do filho morto. No retrato,
toda a gente sorria: o tocador de acordeo, Gorov e
Nikki. O sorriso do rapaz era o mais franco dos trs, por ser
genuno e no de propsito para a cmara. Segurava na mo
do pai. Na outra mo tinha um grande gelado de baunilha, de
duas doses, que lhe escorria para os dedos. Tambm tinha gelado
agarrado ao lbio superior. O espesso cabelo louro, soprado
pelo vento, caa-lhe sobre o olho direito. Apesar de a
superfcie da fotografia ser plana e bidimensional, era
possvel sentir a aura de delcia, amor e prazer que a criana sempre
irradiara em vida.
  - Juro-te que vim to depressa quanto pude - murmurou
Gorov para a fotografia.
  O rapaz olhava-o, sorrindo.
  - Vou tirar aquelas pessoas do icebergue antes da meia-noite.
- Gorov mal reconhecia a sua prpria voz. - Nada de
mais desembarques de assassinos e sabotadores. Agora... vou
salvar vidas, Nikki. Sei que o posso fazer. No permitirei que
morram.  uma promessa.
  Apertava a fotografia com tanta fora que os dedos estavam
brancos e exangues.
  O silncio na cabina era opressivo, pois era o silncio daquele
outro mundo para onde Nikki fora, era o silncio do
amor perdido, de um futuro que nunca aconteceria e de sonhos
nado mortos.
  Algum passou junto da porta de Gorov a assobiar.
  Como se o assobio fosse uma bofetada no rosto, o comandante
estremeceu e endireitou-se, tomando subitamente conscincia
de at que ponto se tornara sentimental. Sentia-se humilhado.
O sentimentalismo no o ajudaria a conformar-se
com a perda. O sentimentalismo era a corrupo do legado de
boas recordaes e de gargalhadas que aquele jovem, bom e
honesto, deixara para trs.
  Aborrecido consigo mesmo, Gorov pousou a fotografia.
Levantou-se e saiu da cabina.

  O tenente Timoshenko estivera de folga durante as ltimas
quatro horas. Jantara e dormira duas horas. Agora, oito e quarenta
e cinco, quinze minutos antes do seu tempo, regressava
ao centro de comunicaes, preparando-se para o ltimo turno
do dia, que terminaria  uma da manh. Um dos seus subordinados
vigiava o equipamento e Timoshenko sentou-se numa
secretria de canto, lendo uma revista e bebendo ch quente
por uma caneca de alumnio.
  O comandante entrou no centro de comunicaes.
  - Tenente, creio que chegou o momento de contactar directamente
com as pessoas que esto naquele icebergue.
  Timoshenko pousou o ch e levantou-se:
  - Vamos subir outra vez  superfcie, senhor?
  - Dentro de minutos.
  - Quer falar com eles?
  - Deixo isso ao teu cuidado - disse Gorov.
  - Que devo dizer-lhes?
  Gorov explicou rapidamente o que tinha descoberto durante
a deslocao em volta da enorme ilha de gelo - o mar tempestuoso
do lado do vento, a parede vertical do outro lado e
esboou o seu plano para o lanamento de um cabo.
  - Dize-lhes que a partir de agora iremos mant-los informados
dos nossos progressos, ou da falta deles, passo a passo.
  - Sim, senhor.
  Gorov virou-se, para sair.
  - Senhor? Vo de certeza perguntar... Acha que temos
possibilidades de os salvar?
  - Nem por isso; mas faremos o possvel.
  - Devo ser honesto com eles?
  - Creio que  o melhor.
  - Sim, senhor.
  - Todavia, dize-lhes que, de uma maneira ou de outra, faremos
tudo o que for humanamente possvel. Por Deus, seja o
que for que nos aparea pela frente, daremos o nosso melhor.
Nunca na vida estive to decidido a levar uma coisa at ao
fim.
Diga-lhes isso, tenente. Certifique-se que o diz.

20.57 HORAS


  Harry ficou surpreendido ao ouvir a sua lngua materna falada
com tanta fluncia pelo operador de rdio do submarino
russo. O homem parecia que tirara um bacharelato numa boa
universidade britnica de nvel mdio. O ingls era a lngua
oficial da Expedio Edgeway, tal como acontecia em quase
todos os grupos multinacionais de estudos cientficos.
Todavia, parecia-lhe errado que um marinheiro russo o falasse de uma
maneira to impecvel. Gradualmente, contudo,  medida que
Timoshenko explicava que o lado do icebergue que se encontrava
protegido do vento era a nica possibilidade de abordagem
que valia a pena investigar, Harry foi-se habituando 
fluncia do homem e ao sotaque decididamente britnico.
  - Se o icebergue tem quinhentos metros de largura - disse
Harry -, por que motivo no podem desembarcar numa
dessas extremidades?

  - Infelizmente, essas pontas do icebergue so to tempestuosas
como o lado virado ao vento.
  - Pois... mas no deve ser fcil ligar dois objectos em movimento
com uma bia-calo, em particular sob uma tal tempestade
- retorquiu Harry, duvidoso.
  - Podemos igualar a velocidade do submarino com o icebergue...
e ser como se estivssemos a lanar um cabo entre
  dois pontos imveis. Alm disso, a bia-calo  apenas uma
das nossas opes. Se no resultar... tir-los-emos da de
outra maneira qualquer. No precisam de se preocupar.

  - No seria mais simples enviar mergulhadores para o gelo?
Devem ter equipamento de mergulho a bordo.
  - Temos, bem como um certo nmero de mergulhadores
bem treinados - afirmou Timoshenko. - Todavia, o mar est
demasiado agitado para eles, mesmo no lado protegido do
vento. As ondas e correntes arrastavam-nos to rapidamente
como uma queda de gua.
  - No queremos que corram demasiados riscos por nossa
causa. No faz sentido pr pessoas em perigo para salvar outras
Pelo que me diz, o vosso comandante parece confiante... e por
isso penso que  melhor deixar que sejam vocs a preocuparem-se
com o assunto. Tem mais alguma coisa para me dizer?
  - De momento,  tudo - afirmou Timoshenko. -
Mantenham-se perto do rdio. Vamos inform-los de tudo o que
se passar.
  Toda a gente, excepto Harry e George, tinha algo a dizer a
respeito da chamada feita pelo oficial de comunicaes do
Ilyo Pogodin. Sugestes sobre os preparativos a fazer antes da
chegada do grupo de socorro, ideias para ajudar os Russos a
escalar a falsia de gelo... e todos queriam ser os primeiros a
falar
naquele preciso momento, instantaneamente. As vozes, os
ecos das vozes, e os ecos dos ecos encheram a caverna de gelo.
  Harry actuou como moderador e tentou impedi-los de falarem
todos ao mesmo tempo sem vantagem para ningum.
  Quando George Lin viu que a excitao comeava a acalmar
e que se calavam, juntou-se ao grupo e enfrentou Harry.
No fim de contas, tinha qualquer coisa para dizer e esperara
at ter a certeza de que o ouviriam.
  - Que est um submarino russo a fazer nesta parte do
mundo?
  - Nesta parte do mundo?
  - Sabes bem o que quero dizer.
  - Receio que no, George.
  - O seu lugar no  aqui.
  - Estamos em guas internacionais.
  - Esto muito longe da Rssia.
  - Na realidade, no esto assim to longe.
  Lin tinha o rosto distorcido pela ira e uma voz tensa.
  - Como souberam da nossa situao?
  - Suponho que devem ter escutado a rdio.
  - Exacto. Precisamente - retorquiu Lin, como se tivesse
acabado de provar qualquer coisa. Olhou para Fischer e depois
para Claude, em busca de apoio: - Comunicaes de rdio.
Escutas. - Virou-se para Roger Breskin: - Por que razo
estariam os Russos a escutar as comunicaes de rdio
nesta zona do mundo? - Quando Breskin encolheu os ombros,
Lin prosseguiu: - Eu digo-vos: pela mesma razo que
levou o tenente Timoshenko a aprender to bem o ingls.
O Pogodin est numa misso de vigilncia.  um maldito navio
espio,  o que !
  - Muito provavelmente - concordou Claude. - No se
trata de uma grande descoberta, George. Podes no gostar...
mas todos sabemos como funciona o mundo.
  - Claro que  um navio espio - disse Fischer. - Se fosse
um navio com msseis nucleares, um dos seus submarinos
do Juzo Final, nem sequer nos diriam que se encontravam por
perto. No permitiriam uma tal quebra de segurana. Na verdade,
temos a sorte de ser um navio espio... e de estarem
dispostos a revelar a sua presena.
  Lin mostrava-se surpreendido com o facto de no se mostrarem
chocados mas estava decidido a lev-los a encarar a
situao com o mesmo grau de inquietao que obviamente
 senntia.
  - Escutem... e pensem nisto: no  apenas um navio espio.
- A sua voz ergueu-se ao pronunciar as ltimas palavras.
Tinha as mos cadas ao lado do corpo e abria-as e
fechava-as repetidamente de uma maneira quase espasmdica.
  - Por amor de Deus, est equipado com barcos de borracha a
motor e tem tudo o que  preciso para instalar uma bia-calo.
Isto quer dizer que desembarca espies, sabotadores...
e talvez assassinos, nas costas de outros pases.
  - Assassinos e sabotadores...  capaz de ser um exagero
declarou Fischer.
  - No  nenhum exagero! - protestou Lin com ardor.
Tinha o rosto corado e uma sensao de urgncia que se tornava
  cada vez mais visvel, como se a maior ameaa no fosse o
frio
  mortal nem as sessenta bombas-relgio enterradas no gelo...
  mas sim o Russo que se propunha salv-los. - Assassinos e
  sabotadores. Tenho a certeza. Esses sacanas dos
comunistas...
  - J no so comunistas - lembrou-lhe Roger.
  - O novo governo est cheio de velhos criminosos, os
  mesmos velhos criminosos, que voltaro a aparecer quando
  chegar o momento.  melhor acreditarem. So brbaros,
capazes de tudo. De tudo!
  Pete Johnson rolou os olhos nas rbitas para benefcio de
  Harry.
  - Escuta, Harry, estou certo que os Estados Unidos fazem
  a mesma coisa.  um facto da vida e das relaes internacionais.
Os Russos no so os nicos a espiar os vizinhos.
  Tremendo visivelmente, Lin respondeu:
  - Fazem mais do que espiar! De qualquer modo, no h
  motivos para legitimarmos o Ilya Pogodin! - Bateu com o
punho fechado na palma da mo direita.

  Brian fez uma careta ao ver o gesto e olhou para Harry,
  Este perguntava a si mesmo se teria sido aquela mo - e o
mesmo temperamento violento - que tinha atacado Brian no
meio do gelo.
  Pousando suavemente a mo no ombro de Lin, Rita interveio:
  - George, acalma-te. Legitimar? Que queres dizer com isso?
O que dizes no faz sentido...
  Rodopiando para a enfrentar, como se Rita o tivesse ameaado,
Lin retorquiu:
  - No compreendes o que leva os Russos a quererem salvar-nos?
No esto preocupados com o facto de sobrevivermos
ou no. No se interessam por ns. No esto a agir por causa
de princpios humanitrios. O que lhes interessa  o valor
propagandstico
da situao. Vo utilizar-nos para gerarem sentimentos
pr-russos na imprensa mundial.
  - Isso  capaz de ser verdade - afirmou Harry.
  Lin virou-se para ele na esperana de conseguir um convertido.
  - Claro que  verdade.
  - Pelo menos em parte.
  - No, Harry, no  em parte.  inteiramente verdade.
Inteiramente! No podemos permitir que tal acontea!
  - No estamos em posio de rejeitar a ajuda - disse
Harry.
  - A no ser que fiquemos aqui  espera da morte acrescentou
Roger Breskin. A sua voz profunda, no obstante
estar vazia de qualquer emoo, dava uma qualidade de profecia
agourenta quela simples afirmao.
  Pete j esgotara a pacincia.
  -  isso o que queres, George? Perdeste todo o bom senso?
Queres ficar aqui e morrer?
  Lin estava vermelho. Abanou a cabea numa negativa.
  - Mas vocs tm de compreender...
  - No.
  - No percebem...?
  - O qu?
  - O que eles so, o que querem? - respondeu o chins
com um tal tom de infelicidade que Harry sentiu pena dele.
- So... so...
  Pete insistiu na sua questo:
  - Queres ficar aqui e morrer? Essa  a nica pergunta que
interessa.  a definitiva. Queres morrer?
  Lin remexeu-se, observou-lhes o rosto em busca de um sinal
de apoio e depois virou a cara para o cho.
  - No. Claro que no. Ningum quer morrer... S que...
Desculpem-me. Peo desculpa. - Afastou-se para a outra extremidade
da caverna e comeou a andar de um lado para o
outro, tal como fizera quando ficara embaraado com a maneira
como tratara Brian.
  Inclinando-se para Rita, Harry sussurrou:
  - Porque no falas com ele?
  - Claro! - disse Rita, com um grande sorriso teatral.
- Podemos discutir a conspirao comunista internacional.
  Harry riu-se baixinho e Rita continuou:
  - As conversas dele so encantadoras.
  - Sabes bem o que te estou a pedir - insistiu Harry, num
tom de conspirao. - Anima-o um pouco.
  - No me parece que tenha foras para isso.
  - Se tu no as tens... ento ningum tem. Vai, fala-lhe
dos teus prprios medos e de como os enfrentas todos os dias.
Nenhum deles imagina quanto te custa estar aqui, nem o desafio
dirio que tens de enfrentar. Pode ser que o George ganhe
coragem para encarar os seus prprios medos.
  - Se foi ele quem atacou Brian, os seus medos no me interessam.
  - No sabemos se foi o George.
  -  mais provvel ter sido ele... do que o monstro de
Loch Ness.
  - Por favor, Rita.
  A mulher suspirou, cedeu e foi conversar com George Lin
para o fundo da caverna de gelo.
  Roger Breskin retirara o relgio de um bolso da parka,
equipado com um fecho de correr.
  - So nove e cinco.
  - Temos menos de trs horas - disse Claude.
  - Ser possvel... em apenas trs horas? - perguntou
Brian. - Conseguiro chegar at junto de ns e tirar-nos daqui
em trs horas?
  - Se no for possvel... - retorquiu Harry, tentando aliviar
o ambiente -, vou ficar muito chateado.


21.10 HORAS


  Emil Zhukov trepou para a ponte com uma garrafa trmica
de ch quente e trs canecas de alumnio.
  - J montaram o canho?
  - Faltam alguns minutos - respondeu Gorov. Segurou
numa das chvenas enquanto o primeiro-oficial lhe servia
o ch.
  De sbito, a noite cheirou a ervas, limes e mel... e Nikita
Gorov sentiu a gua a crescer-lhe na boca. Depois, o vento
apanhou o vapor perfumado que subia da caneca, cristalizou-o
e levou-o consigo. Provou um golo e sorriu. O ch j estava a
arrefecer mas ainda tinha o calor suficiente para acabar com
as tremuras que lhe percorriam a espinha.
  Por baixo da ponte, na seco de vante do convs principal,
iluminados por quatro luzes de emergncia, trs homens
atarefavam-se na montagem do canho especial que ia ser utilizado
para lanar um primeiro cabo para o icebergue. Usavam
fatos pretos  prova de gua com fontes de calor  cintura e
tinham
o rosto protegido por capuzes de borracha e grandes
mscaras de mergulho. Cada um dos homens estava preso por
um fio de ao fixo  escotilha da proa. Os fios eram
suficientemente
compridos para lhes permitirem trabalhar  vontade,
mas no to compridos que pudessem cair ao mar.
  Apesar de no se tratar de uma arma, o canho tinha um
aspecto to malfico que um observador no informado talvez
ficasse  espera de o ver disparar morteiros nucleares. Quase
to alto como os homens que o montavam, pesando cento e
setenta e cinco quilos, era formado por apenas trs componentes
bsicos agora ligados uns aos outros. A base, quadrada,
continha o motor que accionava o molinete da bia-calo e
estava presa por quatro argolas de ao embutidas no convs.
Essas argolas eram uma das caractersticas do submarino desde
que o Ilya Pogodin comeara a desembarcar agentes das foras
especiais em pases estrangeiros. O componente central, uma
espcie de bloco, encaixava-se na base por intermdio de um
eixo e inclua o mecanismo de disparo, as pegas para o artilheiro
e o grande tambor do cabo de nylon. A pea final era
um cano com um calibre de cento e vinte e cinco milmetros e
um metro e vinte de comprimento, que os homens tinham acabado
de inserir no seu encaixe. Na base do cano via-se um
culo para todo o tipo de iluminao. O canho parecia ser capaz
de abrir um buraco num tanque... mas se o levassem para
um campo de batalha seria to intil como a fisga de um
garoto.
  Por vezes, o convs ficava a seco, mas no era essa a situao
normal e durava pouco tempo. Sempre que o navio mergulhava
e uma onda se desfazia sobre o casco a proa do submarino
ficava coberta de gua. Aclarado por bocados de gelo
e por anis de espuma gelada que pareciam feitos de algodo,
o mar, negro e frgido, precipitava-se para o convs,
enrolava-se
nas pernas dos homens, embatia-lhes nas coxas e trepava
at  altura da cintura antes de se escoar. Se o Ilya Pogodin
se encontrasse do lado do icebergue que era batido pelo vento, as
enormes ondas de tempestade teriam derrubado os homens,
atirando-os de um lado para o outro sem piedade. Contudo,
no lado abrigado, desde que estivessem atentos e preparados
para cada mergulho da proa, conseguiam aguentar-se de p e
levar a cabo o seu trabalho mesmo enquanto a gua se enrolava
 sua volta. Nos momentos em que o convs ficava livre trabalhavam
a toda a velocidade e compensavam o tempo perdido.
  O mais alto dos trs tripulantes afastou-se do canho,
olhou para a ponte e fez sinal ao comandante que estavam
prontos para comear.
  Gorov deitou fora o resto do ch e entregou a caneca a
Zhukov.
  - Avisem a sala de comando.
  Se queria que o seu arriscado plano tivesse algum xito era
preciso que o submarino mantivesse a mesma velocidade que a
do icebergue. Se o navio andasse mais depressa do que o gelo,
ou este se adiantasse uma simples fraco de n, o cabo de nylon
esticar-se-ia e rebentaria antes de terem tempo para lhe
darem uma nova folga.
  Gorov olhou para o relgio. Eram nove e quinze. Os minutos
sucediam-se demasiado depressa. Um dos homens do convs
destapou a boca do canho, que at a se mantivera selada
por causa da humidade. Um outro introduziu uma cpsula na
culatra.
  O projctil que iria puxar o cabo era de construo muito
simples. Parecia um foguete de fogo de artifcio com sessenta
centmetros de comprimento e quase doze e meio de dimetro.
Arrastaria consigo o cabo, atingiria a superfcie da falsia,
explodiria
quando do impacte e cravaria uma cavilha de dez centmetros
no gelo.
  Essa cavilha, ligada ao cabo, conseguia penetrar quinze a
vinte centmetros numa superfcie rochosa, fundindo-se com o
material  sua volta e libertando salincias que impediriam de
se soltar. Presa a granito ou calcrio - ou at em argila,
desde que os estratos rochosos fossem suficientemente duros - constitua
uma ncora de confiana. Certo de que a outra extremidade
estava firmemente presa, um homem podia deslocar-se
para terra pendurado no cabo, avanando mo a mo ou at
suspenso num suporte simples, equipado com um par de rodas
de ao com concavidades profundas, tratadas a Teflon, propulsionadas
por uma manivela. Fosse como fosse, o homem transportaria
consigo um molinete para servios mais pesados e um
segundo cabo, ainda mais forte, de modo a poder montar um sistema
que oferecesse mais segurana.
  Infelizmente, pensou Gorov, no estavam a lidar com granito,
calcrio ou argila. A operao continha um grande elemento
de incerteza. A ncora poderia no penetrar devidamente
no gelo ou no se fundir com ele, tal como acontecia no
caso das rochas.
  Um dos tripulantes segurou as pegas do canho, onde se
encontrava o gatilho. Com a ajuda dos outros dois, determinou
a distncia e a velocidade do vento. A rea alvo ficava
nove metros acima da linha de gua. Semichastny assinalara-a
com o projector. Compensando o vento, o atirador apontou
para a esquerda da marca luminosa.
  Zhukov lanou dois foguetes luminosos.
  Gorov levantou o binculo de viso nocturna e focou-o no
crculo de luz, na superfcie da falsia.
  Ouviu-se um violento estrondo por cima do barulho do
vento.
  Ainda o som do disparo no se apagara quando o foguete
explodiu contra o icebergue, a cinquenta metros de distncia.
  - Em cheio! - exclamou Zhukov.
  Soltando um estrondo semelhante a tiros de canho, a falsia
fracturou-se. Surgiram fendas em todas as direces a
partir
do ponto de impacte. O gelo agitou-se, estremeceu como se
fosse geleia... e depois estilhaou-se to completamente como
um  vidro de janela. Uma prodigiosa parede de gelo com duzentos
metros de comprimento, quinze ou vinte metros de altura
e vrios de espessura separou-se da falsia do icebergue
e caiu violentamente no mar, lanando torrentes de guas negras
a mais de quinze metros de altura.
  O cabo caiu agarrado ao gelo.
  Uma onda de seis metros de altura, de gua deslocada,
percorreu os cinquenta metros de mar aberto entre o icebergue
e o submarino como se fosse um grande monstro amorfo.
No tiveram tempo para lhe escapar. Um dos trs homens que
se encontravam no convs soltou um grito quando o pequeno
tsunami caiu sobre o navio com fora suficiente para inclinar
o Pogodin para estibordo. Os trs homens e o canho de lanamento
do cabo desapareceram sob a enorme mar negra.
A gua gelada explodiu contra a torre, ergueu-se nos ares e
ficou suspensa por instantes, num desafio  gravidade... para
depois se precipitar sobre a torre. Centenas de fragmentos de
gelo, arrastados pela gua, com alguns to grandes como o punho
de um homem, choveram contra o ao e atingiram Gorov,
Zhukov e Semichastny.
  A gua escorreu pelas aberturas da ponte e o navio inclinou-se
para bombordo. A onda secundria atingiu-os com apenas
uma fraco da fora da primeira.
  No convs, os trs homens tinham sido derrubados. Se no
se encontrassem amarrados, provavelmente teriam sido arrastados,
perdendo-se no mar.
  Enquanto os marinheiros se punham de p, Gorov virou o
binculo para a falsia de gelo.
  - Continua a ser demasiado lisa - comentou.

  A tremenda queda de gelos pouco fizera para mudar a
topografia do flanco do icebergue. Uma concavidade de duzentos
metros marcava o lugar onde os gelos se tinham partido
mas mesmo essa era plana, estranhamente lisa, sem fendas,
rebordos ou salincias que pudessem ser utilizadas como base
de trabalho. A falsia mergulhava a direito na gua, tal como
antes da exploso do foguete. No havia uma plataforma ou um
  nicho onde um barco de borracha pudesse acostar.
  Gorov baixou o binculo. Virando-se outra vez para os
homens que se encontravam no convs, fez-lhes sinal para que
  desmontassem o canho e descessem para o interior do submarino.
  Desencorajado, Zhukov disse:
  - Podamos aproximar-nos mais e enviar dois homens
num dos barcos. Igualavam as velocidades, acompanhavam-no,
prendiam-se de qualquer maneira e deixavam-se arrastar.
A seguir poderiam usar o barco como plataforma para os trepadores...
  - No. Seria demasiado instvel - contraps Gorov.
  - Ou ento... podiam levar explosivos para tentarem criar
uma plataforma...
  Gorov abanou a cabea.
  - No. Seria extremamente perigoso... To perigoso como
correr de bicicleta ao lado de um comboio expresso e tentar
agarr-lo para ir a reboque. Claro que o gelo no anda to depressa
como um comboio... mas temos o problema do vento e
do mar agitado. No enviarei ningum numa misso suicida.
A plataforma tem de l estar quando os barcos chegarem ao
gelo.
  - E agora?
  Gorov limpou os culos de proteco com as costas de uma
luva coberta de gelo e estudou a falsia atravs do binculo.
Por fim, acabou por ordenar:
  - Dize ao Timoshenko para chamar o grupo de Edgeway.
  - Sim, senhor. Que dever dizer-lhes?
  - Trata de saber onde fica a caverna em que se abrigaram.
Se for deste lado do icebergue... Bom, talvez no seja
necessrio...
mas se for perto deste lado... dize-lhes para a
abandonarem
imediatamente.
  - Para a abandonarem? - repetiu Zhukov.
  - Vou ver se podemos criar uma plataforma de desembarque
atingindo a base do icebergue com um torpedo.

  - Vo  frente - insistiu Harry. - Tenho de informar
Gunvald sobre o que se est a passar. Levarei o rdio logo que
acabe de falar com ele.
  - Ora, de certeza que o Larsson deve ter escutado todas
as nossas conversas com os Russos - declarou Franz.
  -  provvel... - confirmou Harry com um aceno -,
mas se no as ouviu, tem o direito de ser informado.
  - S nos restam alguns minutos - disse Rita, preocupada.
Agarrou-lhe na mo, como se pretendesse pux-lo para o
exterior da caverna, quer quisesse, quer no... Todavia, de
repente pareceu pressentir que Harry tinha outros motivos para
contactar com Gunvald e que preferia escond-los dos restantes.
Os olhos dos dois encontraram-se, transmitindo a compreenso.
  - Recorda-te que s faltam alguns minutos - insistiu.No
percas tempo a conversar com ele a respeito de velhas namoradas.
  - Nunca tive nenhuma - respondeu Harry com um sorriso.
  - Quer dizer que s tiveste namoradas jovens?
  Claude interveio:
  - Harry, penso que  uma loucura ficares...
  - No te preocupes. Prometo-te que sairei daqui muito
antes da exploso. Agora... mexam-se.
  A caverna de gelo no ficava junto da falsia nem perto do
seu ponto central, onde o operador de rdio russo dissera que
o torpedo iria explodir. De qualquer modo, e por unanimidade,
haviam decidido bater em retirada para os trens motorizados.
As vibraes provocadas pelo torpedo atravessariam o
icebergue de uma ponta  outra... e o amontoado de placas de
gelo que formavam a caverna poderia sucumbir a essas vibraes.
  Logo que se viu sozinho, Harry ajoelhou-se na frente do
rdio e chamou Larsson.
  - Estou a ouvir-te, Harry. - A voz de Harry era distante,
fraca e abafada pela esttica.
  - Escutaste as minhas conversas com os Russos? -
perguntou Harry.
  - O que pude ouvir. A tempestade est a gerar muitas interferncias
e vocs afastam-se de mim de minuto para minuto.
  - Bom, pelo menos tens uma ideia geral da situao
continuou Harry. - No tenho tempo para conversar sobre
isso. Chamei-te para te pedir que me faas uma coisa importante.
 algo que talvez consideres moralmente repugnante.
  To sucintamente quanto possvel, Harry explicou a Gunvald
Larsson que se verificara uma tentativa para assassinar
  Brian Dougherty, e depois passou rapidamente ao que pretendia.
Apesar de ter ficado chocado com o ataque a Brian, o
sueco compreendeu a urgncia do assunto e no perdeu tempo
com exigncias de mais pormenores.
  - O que queres que eu faa no  nada agradvel - respondeu.
- Contudo, atendendo s circunstncias...
  A esttica abafou o resto das palavras.
  Harry praguejou, olhou para a entrada da caverna, virou-se
de novo para o microfone e pediu:
  -  melhor repetires o que disseste. No consegui ouvir...
  ... disse que... em tais circunstncias... parece necessrio
- explicou Gunvald por entre os estalidos da esttica.
  - Vais faz-lo, no  verdade?
  - Sim, imediatamente.
  - De quanto tempo precisas?
  - Para fazer um trabalho bem feito... - a voz de Gunvald
apagou-se, para voltar logo a seguir - ... e como talvez possa
estar escondido... uma meia hora.
  - Est bem, mas despacha-te.
  Pete Johnson entrou na caverna quando Harry pousava o
microfone.
  - Homem, queres suicidar-te? Talvez me tivesse enganado
quando disse que s um heri por natureza. Se calhar, s um
verdadeiro masochista. Vamos embora daqui antes que o tecto
nos caia em cima da cabea.
  Desligando o cabo do microfone e entregando-o a Pete,
Harry retorquiu:
  - No faria diferena. Recorda-te que sou de Boston. No
me ralo mesmo que o tecto me caia em cima da cabea.
  - Nesse caso, tambm no s masochista... mas sim completamente
louco.
  Pegando no rdio pelas espessas correias de cabedal cruzadas
no cimo da caixa, Harry disse:
  - S os ces raivosos e os Ingleses passeiam ao Sol da
meia-noite.
  No referiu o pedido que fizera a Gunvald porque ia levar
 letra os conselhos de Pete. No confiaria em ningum... excepto
nele prprio, em Rita... e em Brian Dougherty.
  Saindo da caverna para aquela noite de ventos uivantes,
Harry descobriu que a neve j no caa e que dera lugar a uma
verdadeira tempestade de gelo. As finas agulhas de gelo eram
duras e aguadas, brilhavam sob a luz das lanternas como se
fossem grandes nuvens de p de diamantes e seguiam um percurso
quase paralelo ao cho. Soltavam um silvo abrasivo contra
todas as superfcies que encontravam. Picavam as zonas expostas
do rosto de Harry e comearam imediatamente a
cobrir-lhe as roupas com uma armadura transparente.

  A barraca que servia de armazm na Estao Edgeway era
formada por um par de cabanas Nissen unidas uma  outra.
Era ali que a expedio guardava as ferramentas, as peas sobressalentes,
o equipamento que no estava a ser utilizado, os
comestveis e outras provises. Gunvald despiu o pesado casaco
logo que entrou e pendurou-o numa prateleira de madeira,
perto de um dos aquecedores elctricos. O casaco estava coberto
de gelo e comeou a pingar quando Gunvald ainda nem
sequer tivera tempo para descalar as botas exteriores.
  Apesar de a deslocao desde a sala das comunicaes at
ali no ter sido grande, ficara gelado s por ter de
atravessar a neve amontoada e de caminhar por entre as nuvens de agulhas
de gelo. Agora, reconfortava-se no abenoado calor.
  No produziu um som quando avanou para o fundo da
comprida barraca calado apenas com as botas de feltro. Teve
uma desagradvel mas inabalvel imagem de si mesmo: era como
um ladro a penetrar numa casa estranha.
  O fundo da barraca dos abastecimentos estava mergulhado
numa escurido de veludo. A nica luz existente era a da lmpada
por cima da porta por onde entrara. Por instantes, passou
pela fantasmagrica sensao de que havia algum  sua
espera nas sombras.
  Encontrava-se s,  claro. A inquietao tinha a sua origem
na culpa. No lhe agradava o trabalho que ia ter pela
frente e sentia-se como se merecesse ser apanhado em flagrante
delito.
  Estendendo a mo para cima na escurido, encontrou a
corrente que acendia a luz e puxou-a. A lmpada de cem watts
pestanejou e emitiu uma luz branca e fria. Quando largou a
corrente, a lmpada ficou a oscilar de um lado para o outro
e a barraca encheu-se de sombras saltitantes.
  Ao longo da parede do fundo encontravam-se nove armrios
de metal que pareciam caixes colocados na vertical. Havia
um nome escrito a letras brancas por cima da grelha de
ventilao de cada uma das portas cinzentas: H. CARPENTER,
R. CARPENTER, JOHNSON, JOBERT... e aSSim por diante.
  Gunvald dirigiu-se ao armrio das ferramentas, pegou num
pesado martelo e num p-de-cabra. Ia rebentar com as portas
de cinco armrios. Pretendia abri-los um a um, to depressa
quanto possvel, antes de ter tempo para mudar de ideias e desistir.
  As anteriores expedies  calota polar tinham concludo
  que cada pessoa necessitava do seu espao privado, por muito
 pequeno que fosse, que pudesse considerar como seu e de
 mais ningum e onde lhe fosse possvel guardar artigos pessoais
sem receio de uma violao por inadvertncia. No
atulhado ambiente de uma estao de investigao no rctico,
  montada com um mnimo de fundos numa era em que o
dinheiro era escasso, muito em especial durante estadas
prolongadas, a preferncia natural das pessoas pela privacidade
podia transformar-se rapidamente numa ansiedade e numa obsesso
debilitante.
  A Estao Edgeway no tinha instalaes privadas e no
existiam quartos onde as pessoas pudessem dormir sozinhas;
A maior parte das cabanas alojava duas pessoas, alm das
vrias peas de equipamento. Por outro lado, os vastos espaos
vazios em volta do acampamento no ofereciam refgio a
algum que necessitasse de solido. Se uma pessoa dava valor
 sua vida, nunca saa sozinha. Nunca.
  Normalmente, a nica maneira de conseguir alguns minutos
de solido era fazendo uma visita a uma das duas casas de
banho aquecidas, ligadas  cabana dos abastecimentos. Todavia,
no era prtico guardar os objectos pessoais nas casas da
banho.
  No fim de contas, toda a gente possua pelo menos meia
dzia de artigos que preferia manter em privado: cartas de
amor, fotografias, recordaes, dirios pessoais ou qualquer
outra coisa. No era provvel que existissem coisas vergonhosas
escondidas nos armrios, nada que pudesse chocar Gunvald
ou embaraar o proprietrio. Cientistas como eles, talvez
racionais de mais e compulsivamente dedicados ao trabalho
eram pessoas normais e no do tipo das que tinham segredos
terrveis para esconder. A finalidade dos armrios era apenas
a de fornecer um espao totalmente pessoal, a fim de preservar
a necessria sensao de identidade de cada pessoa num ambiente
claustrofbico e comunal onde, com o passar do tempo;
era fcil virem a sentir-se absorvidas pela identidade do
grupo,
o que as tornaria psicologicamente perturbadas e acabaria por
as deprimir.
  Guardar os artigos mais pessoais debaixo da cama no era
uma soluo satisfatria, mesmo que estivesse subentendido
que o espao por baixo do colcho era sacrossanto. Isto no
significava que os membros de uma expedio desconfiassem
automaticamente uns dos outros. A confiana nada tinha a ver
com o assunto. A necessidade de um espao seguro e privado
era psicolgica, profunda e talvez irracional, e s os
armrios de metal a podiam satisfazer.
  Gunvald serviu-se do martelo para arrancar os fechos de
segredo dos armrios, um aps outro. Os estilhaos saltitaram
pelo cho e retiniram nas paredes, e por instantes a cabana
dos abastecimentos pareceu-se com uma serralharia atarefada.
  Se um membro da expedio era um assassino psicopata, se
um daqueles aparentes cordeiros da cincia no passava de um
lobo disfarado, e se existissem provas capazes de o
identificar,
ento os armrios eram o local mais lgico - e nico - para
as encontrar. Harry estivera seguro disso e Gunvald concordara,
embora com relutncia. Parecia razovel supor que no
meio dos artigos pessoais - mesmo no caso de um psicopata
que passava facilmente por uma pessoa normal -, poderia
existir qualquer coisa reveladoramente diferente daquilo que
as pessoas normais levavam consigo para o topo do mundo.
Digo - talvez at horrvel - que indicasse uma fixao doentia
ou uma obsesso. Um objecto to inesperado e to invulgar
que dissesse imediatamente: "Isto pertence a uma pessoa
perigosamente perturbada."
  Enfiando a ponta do p-de-cabra no buraco circular onde
se encontrara o fecho de segredo, Gunvald puxou-o com todas
as suas foras e rebentou a fechadura do primeiro armrio.
O metal guinchou, dobrou-se... e a porta abriu-se. No parou
para olhar para o seu interior e avanou rapidamente para as
quatro portas seguintes. Bang, bang bang, bang... e j est!
  Atirou o p-de-cabra para um lado.
  Tinha as mos a suar. Limpou-as ao colete isolador e depois
s calas almofadadas.
  Depois de meio minuto para recuperar o flego, tirou um
dos caixotes de madeira cheios de comida liofilizada de entre
os muitos que se encontravam ao longo da parede direita. Pousou-o
na frente do primeiro armrio e sentou-se.
  Levou a mo ao bolso, em busca do cachimbo, mas acabou
por desistir da ideia. Tocou-lhe no pipo mas os dedos contraram-se-lhe
e retirou a mo. O cachimbo descontraa-o. Provocava-lhe
agradveis associaes de ideias... e aquela busca
no podia ser considerada como um dos momentos mais agradveis
da sua vida. Se o usasse, se remexesse no contedo dos armrios
dos amigos enquanto o fumava, ento... Bom, de qualquer
modo tinha a sensao de que nunca mais conseguiria
apreciar uma boa cachimbada...
  Muito bem. Por onde deveria comear?
  Roger Breskin.
  Franz Fischer.
  George Lin.
P Claude Jobert.
  Pete Johnson.
  Eram aqueles os cinco suspeitos. Tanto quanto soubesse,
eram cinco pessoas boas, embora alguns deles fossem mais
agradveis e mais fceis de lidar do que outros. Eram mais inteligentes
e equilibrados do que a maior parte das pessoas da
rua. Tinham de o ser para conseguirem carreiras de xito no
rctico ou na Antrctida, onde a dureza do trabalho e as presses
invulgares a que estavam sujeitos eliminavam rapidamente
os que no fossem autoconfiantes e excepcionalmente estveis.
Nenhum deles era um provvel candidato  designao de;
"assassino psicopata", nem sequer George Lin, que s
revelara um comportamento inslito nos ltimos tempos e naquela expedio,
depois de ter participado em muitos projectos nos gelos
durante uma longa e admirvel carreira.
  Decidiu comear por Roger Breskin porque o seu armrio
era o primeiro da fila. Todas as prateleiras se encontravam
vazias, excepto a superior, onde se via uma caixa de carto.
Gunvald pegou na caixa e colocou-a entre os ps.
  Tal como esperara, o canadiano viajava com pouca carga.
A caixa continha apenas quatro coisas. Uma fotografia dezoito
por vinte e quatro, a cores e plastificada, da me de Roger,

que era uma senhora de queixo forte, sorriso de vencedora;
cabelos cinzentos encaracolados e culos de aros pretos. Um
conjunto de escova e pente, em prata muito manchada. Um rosrio.
Um livro cheio de fotografias e recortes de jornais,
todos relacionados com a carreira de Breskin como halterofilista
amador.
  Gunvald deixou tudo no cho e arrastou o caixote meio
metro para a esquerda. Sentou-se em frente do armrio de Fischer.


  O submarino estava outra vez submerso, mantendo-se estvel
logo abaixo da superfcie,  mxima profundidade de
periscpio.
Jazia,  espera, ao longo da projectada rota do icebergue.
  Na plataforma da sala de controlo, Nikita Gorov permanecia
junto do periscpio com os braos dobrados por cima das
"orelhas" horizontais existentes na base do mesmo. Mesmo
apesar de o alto do periscpio se encontrar dois ou trs
metros acima do nvel do mar, de vez em quando as ondas tempestuosas
explodiam contra ele ou submergiam-no, ocultando-lhe a
viso. Contudo, quando a janela superior ficava fora da gua,
Gorov podia ver o mar nocturno vagamente iluminado por
quatro foguetes luminosos que pairavam no ar, prestes a apagarem-se.
  O icebergue comeara j a atravessar-se na proa do submarino,
trezentos metros a norte. A cintilante montanha branca
destacava-se nitidamente contra o negrume da noite e do mar.
  Zhukov permanecia ao lado do comandante. Usava auscultadores
e escutava uma linha que o ligava ao sargento da sala
dos torpedos. Declarou:
  - O tubo nmero um est carregado.
   direita de Gorov, um jovem marinheiro controlava um
painel de segurana cheio de luzes vermelhas e verdes que representavam
equipamentos e escotilhas de todo o submarino.
Quando Zhukov, transmitindo o relatrio da sala dos torpedos,
disse que a porta do tubo se encontrava fechada, o marinheiro
declarou:
  - Verde e confirmado.
  - Tubo inundado.
  O marinheiro repetiu:
  - Tubo inundado.
  - Tubo aberto.
  - Vermelha e confirmada.
  O Ilya Pogodin no era, basicamente, um navio de guerra
mas sim de recolha de informaes. No transportava msseis
nucleares. Contudo, a marinha russa planeara que todos os
submarinos deviam estar preparados para combater o inimigo
no caso de uma guerra no nuclear. Por isso mesmo, o navio
transportava doze torpedos elctricos. Pesando mais de tonelada
e meia e albergando quatrocentos e cinquenta quilos de explosivos
especiais, cada um daqueles tubares de ao dispunha
de elevado potencial destrutivo. O Ilya Pogodin no era um
navio de guerra mas podia afundar, se lho ordenassem, uma
considervel tonelagem de navegao inimiga.
  - Tubo nmero um... pronto - repetiu Zhukov, transmitindo
a informao que lhe chegara pelos auscultadores.
  - Tubo nmero um... pronto - afirmou o marinheiro do
quadro de controlo.
  Pela primeira vez, Nikita Gorov compreendeu que o processo
de preparao e lanamento de um torpedo tinha uma
  qualidade ritualista estranhamente parecida com a de um servio religioso... talvez porque a adorao e a guerra
lidavam ambas, embora de modos diferentes, com o tema da morte.
 No penltimo momento da litania, a sala de comando por
 detrs dele ficou silenciosa, excepto quanto ao zumbido da
  maquinaria e ao murmrio electrnico dos computadores.
  Depois de um silncio prolongado e quase reverente, Nikita
Gorov declarou:
  - Preparar... Fogo!
  - Tubo nmero um... Fogo! - ordenou Zhukov.
  O jovem marinheiro olhou para o seu painel de controlo
quando o torpedo partiu:
  - Nmero um, disparado.
  Tenso e na expectativa, Gorov espreitou pela ocular do periscpio.

  O torpedo fora programado para procurar uma profundidade
de quatro metros e meio. Atingiria o icebergue exactamente
a essa distncia da linha de gua. Com sorte, a
configurao
dos gelos, depois da exploso, seria melhor do que era agora
para permitir a abordagem de alguns barcos de borracha e para
o estabelecimento de um ponto de partida para os homens
que os iriam escalar.
  O torpedo atingiu o alvo.
  Gorov anunciou:
  - Impacte!
  O negro oceano inchou e saltou na base da falsia. Por instantes,
a gua ficou cheia de uma feroz luz amarela, como se
serpentes do mar de olhos luminosos estivessem a subir  superfcie.
  Os ecos da exploso fizeram vibrar o casco exterior do submarino.
Gorov sentiu o cho a zumbir debaixo dos ps.
  A parte inferior da falsia branca comeou a dissolver-se.
Um bloco de gelo do tamanho de uma casa desprendeu-se do
alto e caiu, seguido por uma avalancha de fragmentos.
  Gorov fez uma careta. Sabia que os explosivos no eram
suficientemente poderosos para causarem grandes prejuzos ao
icebergue e muito menos para o desfazerem em bocados. De
facto, o alvo era to enorme que o torpedo no faria mais do
que arrancar-lhes uma lasca... mas durante alguns segundos teve
uma iluso de destruio total.
  O sargento da sala dos torpedos informou Zhukov que o
tubo estava fechado e o primeiro-oficial passou a informao
para os tcnicos.
  - Verde e confirmado - disse um deles.
  Levantando o auscultador do ouvido, Zhukov perguntou:
  - Qual  o aspecto das coisas l fora, senhor?
  Gorov respondeu sem tirar os olhos do periscpio:
  - No muito melhor do que estava.
  - No h nenhuma plataforma?
  - No... mas o gelo continua a cair.
  Zhukov fez uma pausa, escutando o sargento que se encontrava
na outra extremidade da linha.
  - Porta exterior fechada.
  - Verde e confirmado.
  Gorov no ligava  srie de verificaes de segurana porque
tinha toda a sua ateno no icebergue. Havia algo errado.
a montanha flutuante comeara a actuar de uma maneira estranha...
ou seria da sua imaginao? Semicerrou os olhos,
tentando ver melhor por entre as vagas que continuavam a cobrir
a janela superior do periscpio. O alvo parecia j no se
deslocar para leste... Na verdade, tinha a sensao de que a
"proa" do icebergue comeara a desviar-se para sul... muito,
muito ligeiramente. No. Absurdo. No podia acontecer. Fechou
os olhos e disse a si mesmo que estava a ver coisas.
Todavia, quando voltou a olhar, ficou ainda mais certo de que...
  O operador do radar interveio:
  - Alvo a mudar de curso!
  - No pode ser - afirmou Zhukov, surpreendido. - To
de repente? Impossvel. O icebergue no tem motor...
  - De qualquer modo, est a virar - confirmou Gorov.
  - No pode ter sido o torpedo. Nem sequer todos os nossos
torpedos juntos provocariam um efeito to sensvel num
objecto desse tamanho!
  - No.  qualquer outra coisa - declarou Gorov, preocupado.
O comandante afastou-se do periscpio. Levou a
mo ao tecto e puxou um microfone com um fio em espiral.
Falou para a sala de comando  sua volta e tambm para a do
sonar, que ficava logo a seguir,  proa:
  - Quero uma anlise das camadas inferiores, com todos os
sistemas, at uma profundidade de duzentos metros.
  A voz que saiu do altifalante por cima da sua cabea era
seca e eficiente:
  - Anlise iniciada, senhor.
  Gorov voltou a olhar pelo periscpio.
  A finalidade da anlise era a de localizar qualquer corrente
ocenica com fora suficiente para afectar um objecto to
grande como o icebergue. Por intermdio dos sonares de alcance
limitado, de sensores de anlise trmica, de
sofisticados equipamentos de escuta e de pesquisa martima, os tcnicos do
Ilya Pogodin podiam investigar os movimentos das formas de
vida marinha tanto de guas quentes como de frias, por baixo
e em torno do submarino. Cardumes de pequenos peixes, milhes
e milhes de krill, criaturas semelhantes a camares de
que se alimentavam os peixes maiores, eram arrastados pelas
 correntes mais poderosas ou viviam nelas por escolha, em especial
se essas auto-estradas ocenicas fossem mais quentes
do que a gua que as rodeava. Se descobrissem massas de peixes
e de krill - bem como espessas camadas de plncton - a deslocarem-se
na mesma direco, e se vrios outros factores pudessem
ser correlacionados com o movimento, os tcnicos
eram capazes de identificar uma corrente importante, baixar
um medidor e obter uma indicao razovel sobre a velocidade
da gua.
  Dois minutos depois de Gorov ordenar a anlise, o altifalante
voltou a guinchar:
  - Detectada forte corrente, deslocando-se para sul, com
incio a uma profundidade de cem metros.
  Gorov desviou os olhos do periscpio e voltou a pegar no
microfone.
  - Que profundidade alcana abaixo dos cem metros?
  - Impossvel de dizer, senhor. Est repleta de vida marinha.
Sond-la  o mesmo que tentar ver atravs de uma parede.
Temos leituras que vo at aos cento e dez metros mas a
corrente  mais funda.
  - Qual a velocidade?
  - Aproximadamente nove ns, senhor.
  Gorov empalideceu.
  - Repete isso...
  - Nove ns.
  - Impossvel!
  - Cus! - exclamou Zhukov.
  Gorov largou o microfone, que desapareceu no tecto, e virou-se
mais uma vez para o periscpio com uma nova sensao
de urgncia. Encontravam-se no caminho de um monstro.
A macia ilha de gelo estivera a virar lenta e majestosamente
para a nova corrente... e o icebergue era agora empurrado por
toda a fora da gua em movimento. Continuava a rodar, virando
a "proa", mas permanecia quase inteiramente de lado
em relao ao submarino e iria manter-se assim durante vrios
minutos.
  - Alvo a aproximar-se - avisou o operador do radar, lendo
a medida que acabara de fazer. - Quinhentos metros!
  Antes de Gorov poder responder, o submarino abanou subitamente,
como se tivesse sido preso por mos gigantescas.
Zhukov caiu. Os papis escorregaram da mesa das cartas.
O acontecimento durou apenas dois ou trs segundos, mas toda
a gente ficou abalada.
  - Que diabo...? - perguntou Zhukov, pondo-se de p -
  - Coliso.
  - Com qu?
  O icebergue ainda se encontrava a quinhentos metros de
distncia.
  - Provavelmente com algum bocado de gelo - respondeu
Gorov, que logo a seguir se dirigiu a todas as seces do submarino,
pedindo relatrios sobre eventuais estragos.
  Sabia que no tinham chocado com um objecto muito grande.
Se isso tivesse acontecido, j estariam a afundar-se. O
casco do submarino no era de metal temperado, uma vez que
necessitava de um certo grau de flexibilidade para poder subir
e descer rapidamente atravs de estratos com temperaturas e
presses diferentes. Consequentemente, uma nica tonelada
de gelo a mover-se com a velocidade suficiente para ter uma
substancial energia de impacte teria rasgado o casco como se
este fosse feito de carto. O objecto com que acabavam de colidir
fora de pequeno tamanho... mas devia ter provocado alguns
prejuzos.
  O operador do sonar indicou a posio do icebergue:
  - Quatrocentos e cinquenta metros e a aproximar-se.
  Gorov tinha um dilema. Se no fizesse descer o submarino
iriam chocar contra a montanha de gelo. Porm, se mergulhasse
antes de ter um relatrio dos estragos... ento talvez
nunca mais regressassem  superfcie. No tinham tempo suficiente
para rodar o submarino e fugir para leste ou para oeste. Como
o icebergue avanava de lado para eles, estendia-se quase quatrocentos
metros tanto para estibordo como bombordo. Os nove
ns da corrente de guas profundas que se iniciava a cem
metros de profundidade no virariam o icebergue de frente para
eles nos minutos mais prximos... e Gorov no conseguiria
escapar-se ao longo do mesmo.
  Fechou as barras horizontais do periscpio e enviou-o para
a sua manga hidrulica.
  - Quatrocentos e vinte metros e a aproximar-se! - comunicou
o operador do sonar.
  - Mergulhar! - ordenou Gorov, no momento em que lhe
chegavam os primeiros relatrios sobre os estragos. - Mergulhar!
  Os apitos soaram por todo o navio, bem como o alerta de
coliso iminente.
  - Vamos descer abaixo do gelo antes que ele nos atinja disse
Gorov.
  Zhukov empalideceu.
  - Mas... os icebergues podem ir at aos cento e oitenta
metros abaixo da linha de gua!
  Com o corao a galopar e a boca seca, Nikita Gorov respondeu:
  - Eu sei... e no estou certo de que iremos conseguir.


  A ventania feroz flagelava incansavelmente as tendas Nissen
e fazia estalar as cavilhas nas paredes de metal. As
agulhas de gelo embatiam constantemente nas duas pequenas janelas
de trs vidros, como se fossem as unhas de dez mil homens
mortos a quererem entrar, enquanto o ar a temperaturas negativas
gemia e assobiava por cima das estruturas.
  Gunvald nada descobrira de interesse na barraca dos abastecimentos
mesmo depois de ter passado revista aos armrios
de George Lin e Franz Fischer. No havia ali qualquer indicao
de que algum desses homens tivesse tendncias homicidas
ou fosse apenas um pouco menos estvel e normal.
  Gunvald avanou para o armrio de Pete Johnson.

  Gorov sabia que os homens das outras naes consideravam
os Russos como pessoas amargas, sombrias e decididamente
tristes. Apesar da desanimadora tendncia histrica para
se prejudicarem a eles prprios com governantes brutais e
ideologias tragicamente cheias de falhas, era claro que esse
esteretipo estava to vazio de verdade como qualquer outro. Os
Russos riam, organizavam festas, amavam, embebedavam-se e
faziam papel de parvos tal como qualquer outro povo do mundo.
A maioria dos estudantes universitrios do Ocidente lera
Feodor Dostoievski e tentara ler Tolstoi... e fora a partir
desses poucos exemplos de literatura que se formaram opinies
sobre os Russos modernos. Todavia, se naquele momento se
encontrassem alguns estrangeiros na sala de comando do Ilya
Pogodin, teriam visto os Russos descritos pelo esteretipo:
homens de rostos sombrios e carrancudos, de testas franzidas,
exibindo um profundo respeito pelo destino.
  Os relatrios de estragos j haviam sido feitos: no existiam
chapas amolgadas, no entrava gua no navio. O choque
fora pior nas instalaes da proa e particularmente assustador
para os homens da sala dos torpedos, dois conveses abaixo da
sala de comando. Apesar de a sinalizao de segurana no
detectar qualquer perigo imediato, era bvio que o navio sofrera
alguns danos no casco exterior,  proa e ligeiramente a
estibordo, logo a seguir aos planos de imerso, que pareciam
no terem sido afectados.
  Se a pele exterior sofrera apenas um arranho ou uma pequena
amolgadela, o submarino sobreviveria. Contudo, se o
navio ficara grandemente amachucado - e se isso provocara
uma distoro ao longo de uma das linhas de soldadura -, poderia
no aguentar uma imerso profunda. A resistncia 
presso sobre o casco no seria uniforme, distribuda nas
reas danificadas, o que poderia provocar grandes tenses... e o
submarino rebentaria e iria directamente para o fundo.
  A voz do jovem oficial de imerso era alta e, tendo em
conta as circunstncias, nem sequer tremia:
  - Sessenta metros e a descer.
  O operador do sonar informou:
  - O perfil do alvo est a estreitar. Continua a virar-se
para a corrente.
  - Setenta e cinco metros - informou o oficial de imerso.
  Tinham de descer, no mnimo, at aos cento e oitenta metros.
O icebergue erguia-se a cerca de trinta metros acima do
nvel do mar... e s um stimo da sua massa era visvel  superfcie.
Por uma questo de segurana, Gorov preferiria descer
at aos duzentos e dez metros, mas receava que a velocidade
do alvo que se aproximava lhes reduzisse a probabilidade
de atingir os cento e oitenta a tempo de o evitar.
  O operador do sonar indicou a distncia:
  - Trezentos e oitenta metros e a aproximar-se.
  - Se eu no fosse ateu... - comentou Zhukov -, comearia
a rezar.
  Ningum se riu. Num momento como aquele nenhum deles
era ateu... Nem sequer Emil Zhukov, apesar do que acabara
de dizer.
  No obstante toda a gente parecer calma e confiante, Gorov
sentia o cheiro do medo a pairar na sala de comando. No
se tratava de um exagero ou de um conceito teatral. Era um
facto que o medo tinha um odor pungente muito prprio: o
cheiro de um suor invulgarmente cido. Um suor frio. Na sala
de comando, quase todos estavam a suar... e o lugar empestava
a medo.
  - Noventa e cinco metros - anunciou o oficial de imerso.

  O operador do sonar comunicou a nova distncia do icebergue:
  - Trezentos e cinquenta metros e a aproximar-se rapidamente.

  - Cento e oito metros.
  Procediam a uma imerso de emergncia e afundavam-se
  rapidamente. O casco sofria muitas tenses.

  Os homens que vigiavam atentamente os seus prprios
equipamentos ainda conseguiam arranjar tempo para lanarem
olhadelas para os postos de mergulho, que, subitamente, pareciam
ter-se tornado no centro da sala. O ponteiro do indicador
de profundidade descia rapidamente, muito mais depressa do
que jamais tinham visto.
  Cento e quinze metros.
  Cento e vinte.
  Cento e vinte e cinco.
  A bordo, todos sabiam que o navio fora desenhado para
manobras sbitas e radicais, mas esse facto no lhes aliviava
a tenso. Nos anos mais recentes, enquanto o pas se debatia para
escapar  pobreza que as dcadas de totalitarismo tinham
deixado para trs, os oramentos para a defesa haviam sido reduzidos
- excepto no programa de desenvolvimento de armas
nucleares - e a manuteno dos sistemas atrasara-se, fora
adiada ou, nalguns casos, suspensa por tempo indefinido.
O Pogodin no se encontrava na sua melhor forma e era um
submarino a envelhecer que talvez ainda viesse a prestar muitos
anos de bons servios... mas que tambm podia ter uma falha
suficientemente grave para ditar o seu fim de um momento
para o outro.
  - Cento e quarenta metros - disse o oficial de imerso.
  - Alvo a trezentos metros.
  - Cento e quarenta e cinco metros.
  Gorov serviu-se das duas mos para se firmar ao corrimo
da plataforma de comando com toda a fora e resistiu  inclinao
do convs at os braos lhe doerem. Tinha os ns dos
dedos to visveis e brancos como ossos nus.
  - Alvo a duzentos metros!
  - Est a ganhar velocidade como se descesse uma vertente!
- exclamou Zhukov.
  - Cento e cinquenta e cinco metros.
  A descida acelerava... mas no o bastante para satisfazer
Gorov. Precisavam de pelo menos mais sessenta metros - ou
talvez de muito mais do que isso -, para ter a certeza de
ficarem a salvo por baixo do icebergue.
  - Cento e sessenta metros.
  - Em dez anos de servio, s atingimos esta profundidade
por duas vezes - disse Zhukov.
  - J tens qualquer coisa para contar quando escreveres
para casa - retorquiu Gorov.
  - Alvo a cento e sessenta metros, aproximando-se rapidamente!
- avisou o operador do sonar.

  - Cento e setenta metros - disse o oficial de imerso apesar
de saber que todos tinham os olhos postos no enorme indicador
da profundidade.
  Trezentos metros era a profundidade mxima para o Ilya
Pogodin, uma vez que no se tratava de um dos submarinos
nucleares de guas profundas. Todavia, se o casco exterior sofrera
algum dano durante a anterior coliso, trezentos metros
eram um valor sem significado e ningum fazia apostas.
O choque a estibordo da proa podia ter provocado danos capazes
de tornar o navio susceptvel de imploso a uma profundidade
muito menor do que a indicada pelo manual.
  - Alvo a cento e vinte metros e a aproximar-se.
  Gorov contribua com a sua parte para o cheiro a medo
que invadia a pequena sala. Tinha a camisa suada no meio das
costas e debaixo dos braos.

  A voz do oficial de imerso tornara-se quase num murmrio
mas foi perfeitamente audvel em toda a sala de comando.
  - Cento e oitenta metros e a descer.
  O rosto de Emil Zhukov estava to tenso como uma mscara
de morte.
  Sempre agarrado ao corrimo, Gorov disse:
  - Temos de nos arriscar a descer mais vinte ou trinta metros.
Precisamos de ficar bem abaixo do icebergue.
  Zhukov acenou uma confirmao.
  - Cento e oitenta e cinco metros.
  O operador de sonar esforava-se por controlar a voz. Mesmo
assim, havia uma fraca nota de preocupao no seu relatrio
seguinte:
  - Alvo a sessenta metros e a aproximar-se. Mesmo em
frente da proa! Vai atingir-nos!
  - Acalma-te! - ordenou-lhe Gorov com secura. - Vamos
conseguir.
  - Duzentos metros de profundidade.
  - Alvo a trinta metros.
  - Duzentos e cinco metros.
  - Vinte metros.
  - Duzentos e dez metros.
  - Perdi o contacto com o alvo - declarou o operador do
sonar com uma voz que subiu uma oitava na ltima palavra.
  Ficaram imveis,  espera do primeiro impacte, que iria
destruir o casco.
  "Fui um louco ao pr em perigo a minha vida e setenta e
nove outras para salvar um dcimo desse nmero", pensou
Gorov.

  O tcnico que controlava o profundmetro de superfcie
gritou:
  - Gelo por cima de ns!
  Estavam debaixo do icebergue.
  - Qual  a nossa margem de segurana? - perguntou o
comandante.
  - Quinze metros.
  Ningum se manifestou. Estavam ainda demasiado tensos
para isso... mas permitiram-se um suspiro de alvio, modesto e
colectivo.
  - Estamos por baixo... - comentou Zhukov, espantado.
  - Duzentos e dez metros e a descer - interveio o oficial
de imerso com um tom preocupado.
  - Estabilizem a duzentos e vinte metros - ordenou Gorov.
  - Encontramo-nos a salvo - afirmou Zhukov.
  Gorov afagou a barba bem aparada e descobriu-a hmida
de transpirao.
  - No. No inteiramente. Os icebergues no tm fundo
plano. Haver salincias estendidas para alm dos cento e oitenta
metros... e podemos at encontrar uma que atinja a nossa
profundidade. S estaremos seguros quando sairmos de debaixo
dele.

  Alguns minutos depois de as vibraes provocadas pelo
torpedo terem percorrido o gelo, Harry e Pete abandonaram
os trens onde os outros se abrigavam e regressaram cautelosamente
 caverna. Avanaram apenas at  entrada, onde pararam
com as costas viradas contra os ventos furiosos.

  Precisavam de levar o rdio, que Harry transportava, at
ao ponto mais profundo e tranquilo da caverna para poderem
contactar com o tenente Timoshenko a bordo do Pogodin e saberem
o que iria acontecer a seguir. L fora, o vento era uma
monstruosidade de mil vozes, todas ensurdecedoras altas. Mesmo
no interior das cabinas dos trens, os rugidos, uivos e
assobios
da tempestade tornavam impossvel que uma pessoa ouvisse
a sua prpria voz e muito menos compreender o que
algum dissesse atravs da rdio.
  Preocupado, Pete iluminou as placas de gelo do tecto com
o feixe da lanterna.
  - Parece tudo bem! - gritou Harry, apesar de ter a boca
a no mais de cinco centmetros da cabea do outro homem.
  Pete olhou, inseguro quanto ao que Harry lhe dissera.
  - Tudo bem! - berrou Harry, fazendo um sinal com o polegar
levantado.

  Peter acenou a sua concordncia.
  Contudo continuavam a hesitar porque no sabiam se o
submarino russo iria lanar um segundo torpedo.
  Se voltassem a entrar na caverna com o rdio e os Russos
disparassem de novo contra o gelo, as vibraes poderiam causar
o abatimento do tecto. Ficariam esmagados ou enterrados
vivos.
  Contudo, o vento malevolente que tinham pelas costas era
to poderoso e terrivelmente frio que Harry se sentia como se
algum lhe tivesse metido vrios cubos de gelo nas costas, por
baixo das roupas isoladoras. Sabia que no podiam ficar ali
durante muito mais tempo, paralisados pela indeciso... e acabou
por entrar. Pete seguiu-o com a lanterna e apressaram-se
em direco ao fundo da gruta.
  A cacofonia da tempestade diminuiu drasticamente  medida
que avanavam na caverna. Contudo, mesmo junto  parede
do fundo, o rudo era to intenso que teriam de pr o volume
do receptor no mximo.
  O cabo elctrico cor de laranja ainda se encontrava no seu
lugar, estendido at um dos trens motorizados. Harry ligou-o
ao rdio. Tanto quanto possvel, preferia usar a energia dos
trens, poupando as baterias do aparelho, no se desse o caso
de virem a ser necessrias mais tarde.
  Enquanto trabalhavam, Pete perguntou:
  - Reparaste na direco do vento?
  Ainda tinham de levantar as vozes para se ouvirem um ao
outro, mas j no precisavam de gritar. Harry respondeu:
  - H um quarto de hora soprava de um lado diferente.
  - O icebergue voltou a mudar de direco.
  - E qual  a tua concluso?
  - No fao ideia.
  - s o especialista em demolies. O torpedo poderia ser
suficientemente poderoso para desviar todo o icebergue da sua
rota anterior?
  Abanando a cabea, num gesto enftico, Pete declarou:
  - Impossvel.
  - Foi o que me pareceu.
  De sbito, Harry sentia-se desesperadamente fatigado e
oprimido por uma sensao de total impotncia. Era como se
a prpria me-natureza se tivesse encarniado contra eles. Os
factores impeditivos da sobrevivncia aumentavam de minuto
para minuto e em breve seriam inultrapassveis... se  que j
no o eram. Apesar da vaselina que lhe cobria o rosto e da
mscara de malha, em geral to eficiente, apesar das camadas
de isolamentos Gore-Tex e Thermolite, apesar de terem podido
passar parte da noite na caverna ou, periodicamente, no calor
das cabinas dos trens motorizados, comeava a sucumbir ao
frio impiedoso, capaz de rebentar com os termmetros.
Doam-lhe as articulaes. Mesmo com as luvas, tinha as mos
to frias como se tivesse passado meia hora a arrumar coisas
num congelador. Por outro lado, os seus ps ficavam gradualmente
entorpecidos... o que era muito enervante. Se os depsitos
dos trens ficassem vazios, negando-lhes as sesses
peridicas no interior das cabinas aquecidas a dez graus, correriam
o risco de ficar com o rosto queimado pelo frio... e as poucas
energias que lhes restassem esgotar-se-iam rapidamente, deixando-os
demasiado exaustos para se manterem de p ou at
acordados, incapazes de irem ao encontro dos Russos.
  Porm, independentemente do peso do cansao e da depresso,
no podia ceder porque tinha de pensar na mulher.
Rita era uma responsabilidade sua uma vez que no se sentia
to  vontade nos gelos como ele. Receava-os mesmo nas melhores
condies. Acontecesse o que acontecesse, estava decidido
a encontrar-se presente, at ao ltimo minuto da sua vida,
sempre que Rita precisasse dele. Rita era a razo da sua
vida. A recompensa de mais anos de vida em conjunto, de
mais gargalhadas e amor deveriam bastar para o aguentar, por
muito feroz que a tempestade se tornasse.
  - A nica outra explicao - disse Harry enquanto ligava
o rdio e subia o volume do som -  a de que o icebergue foi
apanhado por uma nova corrente muito mais forte que o desviou
do seu rumo anterior e comeou a empurr-lo para sul.
  - Isso ir fazer dificultar ou facilitar a tarefa dos
Russos,
que tm de trepar c acima para nos virem buscar?
  - Creio que dificultar. Se o gelo se dirige para sul e o
vento vem quase do norte, a nica rea abrigada ser a
"proa".
No podero desembarcar homens numa costa que se precipita
sobre eles...
  - E so quase dez horas...
  - Exacto - confirmou Harry.
  - Se no nos conseguirem tirar a tempo... se tivermos de
ficar at  meia-noite... achas que escaparemos com vida? No
me venhas com tretas. D-me uma opinio honesta.
  - Devia ser eu a perguntar-to. Foste tu quem desenhou as
bombas... e sabes melhor do que ningum quais os estragos
que provocaro.
  Pete ficou com uma expresso sombria.
  - Penso que as ondas de choque vo desfazer a maior parte
do gelo em que nos encontramos. H uma vaga hiptese de
restarem cento e cinquenta ou duzentos metros de icebergue...
mas no a zona que vai da "proa"  primeira bomba. Se sobrarem
apenas cento e cinquenta metros de icebergue... sabes o
que ir acontecer?
  Harry sabia demasiado bem.

  - O icebergue ter duzentos metros de comprimento... e
duzentos e vinte metros de altura.
  - No conseguir flutuar na mesma posio.
  - Nem por um minuto. O centro de gravidade ser outro.
Rolar sobre si mesmo e procurar uma nova posio de equilbrio.
  Olharam um para o outro enquanto o rdio emitia guinchos
e estalidos que competiam com o vento que soprava para
l da entrada da caverna.
  Por fim, Pete acabou por dizer:
  - Se tivssemos conseguido extrair dez das bombas...
  - Sim, mas no conseguimos. - Harry pegou no microfone:
- Agora, vejamos se os Russos tm alguma boa notcia
para nos dar.

  Gunvald no descobriu nada de incriminador nos armrios
que pertenciam a Pete Johnson e Claude Robert.
  Cinco suspeitos. Nenhuma descoberta sinistra. Nenhuma
pista.
  Levantou-se do caixote de madeira e caminhou at  extremidade
da sala. Achava que poderia encher e acender o cachimbo
se se encontrasse longe dos armrios violados, apesar
de a distncia no o fazer sentir-se menos culpado. Precisava
do cachimbo para se acalmar e para o ajudar a pensar. Pouco
depois, o ar ficou cheio do rico aroma do tabaco com sabor a
cereja.
  Fechou os olhos, encostou-se  parede e pensou nos numerosos
artigos que retirara dos armrios.  primeira vista, no
descobrira nada de ultrajante naqueles artigos pessoais. Todavia,
era possvel que as pistas, se existissem, fossem subtis.
Talvez as descobrisse apenas por reflexo. Por isso, recordou
cuidadosamente cada um dos objectos que encontrara nos armrios,
conservando-os ante os olhos da mente, em busca de
uma qualquer anomalia em que no tivesse reparado quando
tivera o objecto na mo.

  Roger Breskin.
  Franz Fischer.
  George Lin.
  Claude Jobert
  Pete Johnson.
  Nada.
  Se um daqueles homens era mentalmente desequilibrado e
um assassino em potncia... teria de ser muito inteligente.
Escondera to bem a sua loucura que no existiam sinais da mesma
nem sequer nos seus objectos mais pessoais.
  Frustrado, Gunvald esvaziou o cachimbo num balde cheio
de areia, meteu-o no bolso e regressou para junto dos armrios.
O cho estava coberto com os preciosos detritos de cinco
vidas.  medida que os reunia e guardava onde encontrara, a
sensao de culpa foi substituda por uma grande vergonha pela
violao de privacidade que cometera, mesmo que os acontecimentos
do dia a justificassem.
  Foi ento que viu o sobrescrito. Tinha vinte e cinco por
trinta
centmetros e cerca de dois centmetros e meio de espessura.
Estava no fundo do armrio, encostado  parede traseira.
  Tivera tanta pressa que no dera por ele, em parte porque
exibia um tom cinzento semelhante ao do metal e se encontrava
ao nvel dos seus ps, por baixo da ltima prateleira. Na
verdade, o que mais o surpreendia era t-lo encontrado. No
momento em que o vira tivera imediatamente a vvida premonio
de que continha as provas incriminatrias que procurava.
  Encontrava-se firmemente preso  parede do armrio.
Quando o arrancou, descobriu os seis bocados de fita isoladora
que o seguravam. Era bvio que fora colocado ali de propsito,
na esperana de que permanecesse oculto mesmo que o armrio
fosse violado.
  O sobrescrito estava fechado com uma mola metlica, que
Gunvald abriu. Continha apenas um bloco-notas com lombada
em espiral, com o que pareciam ser recortes de jornais e
revistas
guardados entre as pginas.
  Relutante, mas sem hesitao, Gunvald abriu-o e comeou
a folhe-lo. O contedo atingiu-o com uma fora tremenda e
chocou-o de um modo que jamais considerara possvel. Era
terrvel. Pgina aps pgina. Soube imediatamente que o homem
que compilara aquela coleco, mesmo que no fosse um
manaco enlouquecido, estava gravemente perturbado e era
perigoso.
  Fechou o bloco, puxou a corrente para apagar a luz da sala
e apressou-se a envergar o casaco e as botas exteriores.
Pontapeando
os montes de neve, de cabea baixa para proteger o
rosto de um vento selvagem cheio de agulhas de gelo, correu
de volta para a barraca das comunicaes, frentico por comunicar
a Harry o que acabara de descobrir.

  - Gelo por cima. Trinta metros.
  Gorov abandonou o posto de comando e parou por detrs
do tcnico que lia o profundmetro de superfcie.
  - Gelo por cima. Trinta e seis metros.
  - Est a afastar-se? Como  possvel?! - Gorov fez uma
careta. Tinha relutncia em acreditar nas provas fornecidas
por uma tecnologia em que sempre confiara. - Neste momento
j o icebergue deve ter virado o seu perfil mais estreito
para ns, pelo que ainda teremos de passar por baixo de mais de
metade do seu comprimento. Continuamos a ter uma enorme
montanha por cima da nossa cabea.
  O tcnico tambm se mostrava surpreendido.
  - No compreendo, senhor... mas o gelo, neste momento,
est a quarenta e dois metros de distncia... e continua a
afastar-se.
  - Temos quarenta e dois metros de gua entre ns e o
fundo do icebergue?
  - Sim, senhor.
  O profundmetro de superfcie era uma verso sofisticada
dos velhos sonares utilizados havia muitas dcadas para
localizar o fundo do oceano por baixo de um submarino. Emitia ondas
sonoras de alta frequncia para cima, num feixe muito
concentrado que provocava um eco na parte inferior dos gelos
- se estes se encontrassem por cima do navio - e determinava
a distncia entre o cimo da torre e o tecto gelado que
cobria o mar. Era equipamento-padro em todos os submarinos que
pudessem necessitar - raramente ou nunca - de passar por
baixo das calotas polares para levarem a cabo as suas misses
ou para escaparem a navios inimigos.
  - Quarenta e oito metros, senhor.
  O estilete do aparelho agitava-se de um lado para o outro
sobre uma folha de papel contnuo. A mancha negra que desenhava
tornava-se progressivamente mais larga.
  - Gelo por cima. Cinquenta e quatro metros.
  O gelo continuava a afastar-se deles.
  No fazia sentido.
  O altifalante por cima do posto de comando assobiou e
estalou. A voz que saiu dele era resmungona por natureza e metlica,
tal como todas as vozes que passavam pelo intercomunicador.
O oficial da sala de torpedos comunicava uma notcia
que Nikita Gorov esperara nunca ouvir, a qualquer profundidade...
e muito menos a duzentos e vinte metros.
  - Comandante, a antepara da frente est a "suar".
  Na sala de comando, toda a gente ficou imvel. Tinham
dedicado toda a ateno aos relatrios sobre o gelo e s
leituras
do radar porque lhes parecera que o maior perigo era o de
virem a chocar com uma estalactite de gelo pendurado no fundo
do icebergue. O aviso vindo da sala de torpedos recordava-lhes
que tinham chocado com uma massa de gelo,  deriva,
de dimenses desconhecidas, um pouco antes da imerso de
emergncia, e que estavam a mais de duzentos metros da superfcie,
onde cada centmetro quadrado do casco se encontrava
sujeito a uma presso brutal. Entre eles e o mundo do cu,
do sol e do ar - o mundo a que pertenciam - mediavam muitos
milhes de toneladas de gua.
  Puxando por um microfone, Gorov disse:
  - Comandante  sala dos torpedos. H um isolamento seco
por detrs dessa antepara.
  O altifalante era agora o centro das atenes, como acontecera
momentos antes com o indicador de profundidade.
  - Sim, senhor, mas est a "suar". O isolamento j deve
estar molhado.
  Era evidente que tinham sofrido danos considerveis depois
da coliso com o gelo flutuante.
  - H muita gua?
  - Apenas uma pelcula, senhor.
  - Onde a encontraram?
  - Ao longo da soldadura entre o tubo nmero quatro e o
nmero cinco - elucidou o oficial dos torpedos.
  - Alguma amolgadela?
  - No, senhor.
  - Observem essa zona com ateno.
  - No tenho olhos para outra coisa, senhor.
  Gorov largou o microfone, que se encaixou no nicho respectivo.


  Zhukov encontrava-se na plataforma de comando.
  - Podemos mudar de rumo, senhor.
  - No.
  Gorov sabia o que o seu primeiro-oficial estava a pensar:
passavam por baixo do icebergue ao longo do seu comprimento,
com metade dele - pelo menos setecentos metros, ainda
por percorrer. Contudo, para bombordo e estibordo, o mar
aberto estaria apenas a duzentos ou trezentos metros de distncia
porque o icebergue era muito mais estreito do que comprido.
Mudar de rumo parecia uma opo razovel... mas tambm
era um desperdcio de esforos.
  - Quando consegussemos dar a volta para bombordo ou
estibordo - explicou Gorov -, j o icebergue teria passado
por ns. Aguente-se, tenente.
  - Sim, senhor.
  - Leme ao centro e mantenham-no assim a no ser que a
corrente comece a atirar-nos para um lado e para o outro.
  O operador do profundmetro de superfcie anunciou:
  - Gelos por cima. Setenta e cinco metros.
  Ali estava, mais uma vez, o mistrio do gelo que se
afastava.
  No estavam a descer. Gorov sabia perfeitamente bem que
o icebergue que se encontrava por cima deles no levitava, por
magia, para fora de gua. Ento, porque era que a distncia
aumentava?
  - No deveramos subir um pouco, senhor? - sugeriu
Zhukov. - Se subirmos para mais perto do gelo, para os cento
e oitenta metros, talvez a antepara da sala dos torpedos
deixe de "suar". A presso seria consideravelmente menor.
  - Firme nos duzentos e vinte metros - declarou Gorov
com secura.
  Estava mais preocupado com o suor da tripulao do que
com o da antepara. Eram bons tipos e tivera muitas razes para
se orgulhar deles durante o tempo em que haviam servido
juntos. J haviam enfrentado muitas situaes de risco e os
homens, sem qualquer excepo, haviam-se mantido calmos
e eficazes. Contudo, nessas ocasies s tinham necessitado
de bons nervos e de habilidade. Agora, tambm precisavam
de uma boa dose de sorte. Nem os nervos nem a destreza os
poderiam salvar se o casco rebentasse sob a presso titnica a
que estava a ser sujeito. Incapazes de confiar apenas neles
prprios, eram forados a confiar tambm nos engenheiros sem
rosto que haviam desenhado o navio e nos trabalhadores de
estaleiro que o tinham construdo. Talvez no fosse pedir muito...
se no tivessem a aguda conscincia de que os problemas
econmicos do pas tinham levado a uma reduo da frequncia
e extenso da manuteno em doca seca. Isso era o suficiente
para os assustar um pouco... e talvez para que se tornassem
descuidados.

  - No podemos subir - insistiu Gorov. - Ainda temos
todo aquele gelo por cima de ns. No sei o que se est a passar
ou como  possvel que o gelo se afaste... e precisamos de
muito cuidado at compreendermos a situao.
  - Gelo por cima. Oitenta e cinco metros.

  Gorov voltou a olhar para o grfico do profundmetro de
superfcie.
  - Noventa metros, senhor.
  Abruptamente, o estilete imobilizou-se e produziu uma linha
negra, fina e horizontal, precisamente no centro do papel.
  - guas limpas! - exclamou o tcnico com um espanto
bvio. - No h gelo por cima de ns!
  - Samos de debaixo do icebergue? - perguntou Zhukov.
  - Impossvel - retorquiu Gorov. - O icebergue  monstruoso
e tem pelo menos mil e duzentos metros de comprimento.
Ainda nem sequer passmos metade. No pode...
  - Gelo por cima! - gritou o operador. - Noventa metros.
Gelo a noventa metros e a baixar!
  Gorov observou atentamente o estilete. A camada de gua
livre entre a torre do Pogodin e o fundo do icebergue diminua
de uma maneira constante e rpida.
  Setenta e cinco metros. Sessenta e cinco.
  Cinquenta e cinco. Quarenta e cinco. Trinta.
  Vinte e cinco. Quinze.
  A separao permaneceu nos quinze metros durante alguns
segundos, mas depois comeou a variar de uma maneira louca:
quinze metros, trinta metros, vinte e cinco, quinze metros,
sessenta...
para cima e para baixo, no meio de picos e fendas
completamente imprevisveis. A seguir voltou novamente aos
quinze metros e o estilete descreveu um percurso um pouco
menos errtico.
  - A manter-se... - disse o tcnico - entre os quinze e os
vinte metros... Pequenas variaes... A manter-se... a manter-se...
  - O profundmetro poderia estar a funcionar mal, h momento?
- perguntou Gorov.
  O tcnico abanou a cabea.
  - No, senhor. No me parece. Agora est bom.
  - Ser que entendi bem o que aconteceu? Passmos por
um buraco no meio do icebergue?
  O tcnico mantinha um olhar atento sobre o grfico, pronto
para avisar se a distncia entre eles e o gelo diminusse
para menos de quinze metros.

  - Creio que sim. Segundo tudo indica, h um buraco,
mais ou menos no meio.
  - Um buraco em forma de funil.
  - Sim, senhor. Comeou a registar com a forma de um
prato invertido mas quando estvamos por baixo os dois teros
superiores da cavidade estreitaram incompreensivelmente.Gorov
prosseguiu, com uma excitao crescente:
  - Ser um buraco at ao alto do icebergue?
  - Quanto a isso, no sei, senhor. Vai pelo menos at ao
nvel do mar.
  O profundmetro,  claro, no conseguia fazer uma medio
acima da superfcie do mar.
  - Um buraco - repetiu Gorov, pensativo. - Em nome
de Deus, como foi que ele apareceu ali?
  Ningum tinha uma resposta.
  Gorov encolheu os ombros:
  - Talvez um dos membros do grupo Edgeway o saiba. Tm
andado a estudar os gelos. O importante  que ele existe...
  - O que  que o torna assim to importante? - inquiriu
Zhukov.

  Gorov tinha uma semente de ideia, o germe de um plano terrivelmente
ousado para salvar os cientistas. Se o buraco
fosse...
  - guas limpas - anunciou o tcnico. - No h gelos
por cima.
  Emil Zhukov premiu algumas teclas da consola de comando
e olhou para o monitor do computador,  sua direita.
  - Bate certo. Tendo em conta a corrente para sul e a nossa
velocidade, j devemos estar fora do icebergue. Desta vez,
 a srio.
  - guas limpas - repetiu o tcnico.
  Gorov olhou para o relgio: eram dez e dois. Restavam-lhes
menos de duas horas at ao momento em que as sessenta
cargas explosivas rebentariam com o icebergue. Era pouco
tempo para que a tripulao do Pogodin montasse, com xito,
uma tentativa de salvamento convencional. O plano pouco ortodoxo
que o comandante tinha em mente poderia parecer
uma loucura total... mas com a vantagem de poder resultar no
tempo limitado que lhes restava.
  Zhukov pigarreou. O primeiro-oficial, que sem dvida tinha
na mente uma vvida imagem da antepara a suar na sala
dos torpedos, aguardava ordens para levar o submarino para
profundidades menos perigosas.
  Puxando o microfone para baixo, Gorov disse:
  - Comandante  sala de torpedos. Como esto as coisas a?
  - Ainda a suar, comandante - respondeu o altifalante.
- No melhoraram... mas tambm no pioraram.
  - Continuem a vigilncia e mantenham-se calmos. - Gorov
largou o microfone e regressou  plataforma de comando.
- Motores a meia velocidade. Leme todo a estibordo.
  O espanto fez com que o comprido rosto de Zhukov parecesse
ainda mais comprido. Abriu a boca para falar mas no
conseguiu emitir um som. Engoliu em seco. A sua segunda
tentativa teve mais xito:
  - Quer dizer que no vamos subir?
  - No, por enquanto - retorquiu Gorov. - Precisamos
de fazer uma nova passagem por baixo daquele monstro. Quero
dar mais uma olhadela ao buraco...

  O volume de som do rdio de ondas curtas estava no mximo,
pelo que a voz do oficial de comunicaes russo a bordo
do Pogodin podia ser ouvida acima do rugido da besta que
pairava  entrada da caverna e por cima do telhado de placas
de gelo amontoadas umas nas outras. Os guinchos da esttica
e as interferncias electrnicas ecoavam nas paredes de gelo
como se fossem o som, enormemente amplificado, de unhas a
raspar sobre quadros pretos.
  Os outros tinham-se reunido a Harry e Pete, dentro da caverna,
para ouvir as espantosas notcias em primeira mo. Estavam
amontoados junto da parede do fundo.
  Quando o tenente Timoshenko descrevera o buraco e a
grande rea extremamente irregular por baixo da sua priso
flutuante, Harry explicara a sua causa provvel. O icebergue
separara-se da calota por causa de um tsunami e este fora gerado
por um sismo no fundo do mar, quase directamente por
baixo deles. Naquela parte do mundo, a actividade vulcnica
era de rigor, associada s fracturas da crosta terrestre, tal
como o testemunhavam as violentas erupes vulcnicas da Islndia,
algumas dcadas antes. Se existira uma actividade vulcnica
submarina associada ao recente sismo, podiam ter sido
descarregadas enormes quantidades de lava para o mar, atiradas
para o alto com tremenda fora. Os jactos de lava incandescente
podiam ter aberto aquele buraco e os milhes de litros
de gua a ferver produzidos pela lava esculpiriam com
facilidade os picos irregulares que marcavam a base do icebergue
junto ao mesmo buraco.
  Apesar de ter a sua origem num submarino  superfcie, a
apenas algumas centenas de metros de distncia, a voz de Timoshenko
estava salpicada de esttica mas a transmisso no
falhava.
  - Tal como o comandante Gorov v as coisas, h trs possibilidades:
em primeiro lugar, o buraco no fundo do vosso
icebergue
pode terminar em gelo slido logo acima da linha de
gua. Em segundo, pode conduzir a uma caverna ou ao fundo
de uma fenda estreita. Em terceiro, poder continuar por mais
umas dezenas de metros acima do nvel do mar, abrindo-se no
alto do icebergue. A anlise parece-lhe correcta, doutor Carpenter?

  - Sim - respondeu Harry, impressionado com o raciocnio
impecvel do comandante. - Creio saber qual das trs
possibilidades  a mais certa. - Falou a Timoshenko na fenda
que se abrira a meio do icebergue quando as gigantescas ondas
ssmicas haviam passado por baixo da calota polar. - No
existia quando samos para ir colocar os explosivos... e j l
estava,  nossa espera, quando regressamos ao acampamento
temporrio. Quase me precipitei nela e perdi o meu tren motorizado.

  - O fundo dessa fenda estar aberto at ao mar? - perguntou
Timoshenko.
  - No sei, mas comeo a desconfiar que sim. Tanto quanto
posso calcular, deve encontrar-se directamente por cima do
buraco que vocs encontraram. Mesmo que o jacto de lava
no furasse todo o gelo acima da superfcie da gua, o calor
necessrio para abrir um buraco nessa massa submarina deve
ter provocado fendas... que muito provavelmente tm ligao
  directa com as guas limpas que o vosso tcnico detectou.
  - Se o buraco se encontra no fundo da fenda (suponho
  que lhe deveramos chamar poo), estaro dispostos a tentar
  atingi-lo, descendo para o interior da fenda? - inquiriu
Timoshenko.
  Harry achou que a pergunta era estranha: no via qual a
  vantagem de descer ao fundo do precipcio onde o seu tren
  desaparecera.
  - Se tivssemos de o fazer... suponho que poderamos
improvisar equipamento para a descida. Mas... para qu? No
  estou a perceber qual  a vossa ideia...
  -  por a que vamos tentar tir-los dos gelos. Atravs da
  fenda e por baixo do icebergue.
  Na caverna, por detrs de Harry, os outros sete reagiram 
sugesto com uma ruidosa descrena.
  Fez-lhes sinal para se calarem e continuou, dirigindo-se ao
operador de rdio russo:
  - Querem que desamos essa fenda, ou tnel... para entrarmos
no submarino? Como?
  - Com equipamento de mergulho - retorquiu Timoshenko.
  - No temos.
  - Sim, mas ns temos. - Timoshenko explicou-lhes como
lhes entregariam o equipamento.
  Harry ficou mais impressionado do que nunca com a engenhosidade
dos Russos... mas continuava duvidoso.
  - No passado, fiz alguns mergulhos. No sou especialista,
mas sei que no se pode mergulhar a uma tal profundidade
sem muito treino e equipamento especial.
  - Temos o equipamento especial - declarou Timoshenko
-, mas receio que tenham de passar sem o treino. - Gastou
os cinco minutos seguintes a explicar-lhe o plano do comandante
Gorov com algum pormenor.
  O esquema era brilhante, imaginativo, ousado... e bem
pensado. Harry queria conhecer aquele comandante Gorov,
para ver que tipo de homem tivera uma ideia to espantosa.
  - Pode resultar, mas  arriscado. Por outro lado, no h
qualquer garantia de que o buraco, do vosso lado, esteja ligado
ao fundo da fenda que se encontra do nosso lado. Podemos
no encontrar a ligao.
  - Talvez - concordou Timoshenko -, mas  a vossa melhor
hiptese. De facto,  a vossa nica hiptese. Falta
apenas hora e meia para a detonao das cargas explosivas. Em noventa
minutos no poderemos enviar os barcos para o icebergue,
trepar at ao alto e trazer-vos para baixo, tal como
tnhamos planeado. Neste momento, o vento est  popa do
icebergue e sopra ao longo de ambos os flancos. Teramos de
atracar os barcos de borracha na proa... o que  impossvel
com toda a montanha de gelo a avanar contra ns a toda a
velocidade.
  Harry sabia que aquilo era verdade. Ainda no havia meia
hora que o dissera a Pete.
  - Tenente Timoshenko, preciso de discutir o assunto com
os meus colegas. D-me um minuto, por favor. - Ainda agachado
na frente do rdio, virou-se para os outros e perguntou:
- Ento, que acham?
  Rita teria de controlar as suas fobias como nunca antes fizera,
uma vez que ia ser forada a penetrar no gelo, a ficar
inteiramente
rodeada por ele. No entanto, foi a primeira a manifestar-se
a favor do plano.
  - No percamos mais tempo. Claro que o faremos. No
vamos ficar sentados  espera da morte.
  Claude Jobert acenou a sua concordncia.
  - No temos por onde escolher.
  - H uma hiptese em mil de sairmos daqui com vida calculou
Franz -, mas no  impossvel.
  - Pessimismo teutnico - disse Rita, com um sorriso.
  Mesmo contra a sua vontade, Fischer exibiu um sorriso.
  - Foi o que disseste quando me preocupei com a possibilidade
de o tremor de terra nos atingir antes de regressarmos ao
acampamento base.
  - Contem comigo - declarou Brian.
  - E comigo - afirmou Roger Breskin, com um aceno.
  - Juntei-me a vocs por causa da aventura - interveio Pete
Johnson - e a aventura acabou por ser maior do que esperava...
Se conseguirmos sair deste sarilho, ficarei muito
satisfeito
por passar as noites em casa, com um bom livro.
  Virando-se para Lin, Harry inquiriu:
  - E tu, George?
  Com os culos empurrados para a testa e a mscara em
baixo, Lin revelava a sua preocupao em todas as linhas do
rosto.
  - Se ficarmos aqui, se no nos formos embora antes da
meia-noite, haver alguma hiptese de as exploses deixarem
  ficar um bocado de gelo capaz de nos sustentar? Fiquei com a
  impresso de que contvamos com isso antes do aparecimento
  do submarino...
  Harry ps o problema com toda a franqueza:
  - Se s h uma hiptese em mil de escaparmos com vida
graas ao plano de fuga do comandante Gorov... ento no
haver mais do que uma, num milho, de sobrevivermos s exploses
da meia-noite.
  Lin mordia o lbio inferior com tanta fora que Harry no
ficaria surpreendido se viesse sangue a escorrer-lhe no
queixo.
  - George? Ests connosco... ou no?
  George acabou por responder com um aceno.
  Harry voltou a pegar no microfone.
  - Tenente Timoshenko?
  - Estou a ouvi-lo, doutor Carpenter.
  - Conclumos que o plano do seu comandante faz sentido...
 mais que no seja por pura necessidade. Vamos lev-lo
a
  cabo, se tal for possvel.
  -  possvel, doutor. Estamos convencidos disso.
  - Teremos de nos despachar - disse Harry. - No conseguiremos
chegar  fenda antes das onze horas... e ficaremos
s com uma hora para tudo o resto.
  - Se todos mantivermos na mente a imagem do que vai
acontecer  meia-noite... ento devemos ser capazes de fazer o
que  preciso no tempo de que dispomos. Boa sorte para todos
vs.
  - E para vocs tambm - retorquiu Harry.
  Alguns minutos depois, quando j estavam prontos para
abandonar a caverna, Harry ainda no tivera notcias de Gunvald
a respeito do contedo dos armrios. Tentou chamar a
Estao Edgeway pela rdio, mas a nica resposta foi a dos
guinchos da esttica e o silvo de uma atmosfera vazia.
  Aparentemente, iam ter de descer s profundezas da fenda
nos gelos e seguir pelos tneis que pudessem existir por baixo
dela sem saberem qual deles, iria, muito provavelmente e se a
oportunidade lhe surgisse, cometer um novo atentado contra
a vida de Brian.
  Nem sequer o mais sofisticado equipamento de comunicaes
poderia lidar com as interferncias que acompanhavam
uma tempestade de Inverno nas latitudes polares. Gunvald j
no conseguia captar as poderosas emisses provenientes da
base dos Estados Unidos, em Thule. Tentou todas as bandas
de frequncias, onde s a tempestade reinava. Os nicos vestgios
de sons de origem humana eram os fragmentos de um
programa de msica das big bands que se ouvia intermitentemente,
em ciclos de cinco segundos. Os altifalantes estavam
cheios de esttica: uivos, guinchos, estalidos, num concerto
catico que no era acompanhado por uma nica voz humana.
  Regressou  frequncia em que Harry deveria estar  espera
da sua chamada, inclinou-se para o aparelho e encostou o
microfone aos lbios, como se a pura fora de vontade pudesse
estabelecer a ligao.
  - Harry, ests a ouvir-me?
  Esttica.
  Talvez pela quinquagsima vez, leu os indicativos de chamada,
levantando a voz, como que a tentar fazer-se ouvir por
cima das interferncias.
  Nenhuma resposta. No era uma questo de os escutar ou
de se fazer ouvir por cima da esttica. Pura e simplesmente,
no o recebiam.
  Sabia que tinha de desistir.
  Olhou para o livro de apontamentos de lombada em espiral
que jazia, aberto, na mesa a seu lado. No obstante j ter
olhado para aquela pgina uma dzia de vezes... ainda estremecia.
  No podia desistir. Tinham de conhecer a natureza do
monstro que se encontrava entre eles.
  Voltou a chamar.
  Esttica.


  22.45 HORAS
UMA HORA E QUINZE PARA A DETONAO


  Vestido com o pesado equipamento de Inverno e de p na
ponte do Pogodin, Nikita Gorov investigou metodicamente um
tero do horizonte com o seu binculo nocturno, atento  possibilidade
de existirem outros gelos  deriva, para alm do
icebergue
do grupo Edgeway. Essa formidvel montanha branca
encontrava-se directamente  proa do submarino e continuava
a ser empurrada pela corrente que se iniciava aos cem metros
de profundidade e se estendia at cerca dos duzentos e trinta
metros.
  O mar agitado pela tempestade, remoinhando  volta de
todo o navio, no exibia nenhum dos seus familiares movimentos
rtmicos. Afectava o submarino de maneiras imprevisveis,
pelo que Gorov no teve possibilidade de se preparar para o
ataque seguinte.
  Sem qualquer aviso, o navio rolou para bombordo com
tanta violncia que todos os que se encontravam na ponte foram

atirados para o lado. O comandante chocou com Emil
Zhukov e Semichastny. Desenvencilhou-se deles e agarrou-se a
parte da amurada, coberta de gelo, quando uma muralha de
gua saltou sobre a torre e inundou a ponte.
  Quando o submarino se endireitou, Zhukov gritou:
  - Preferia estar a duzentos metros de profundidade!
  - Ah! Ests a ver? - retorquiu Gorov, tambm a gritar:
- Ainda no tinhas percebido que  melhor para ti!
  - Nunca mais voltarei a queixar-me.
  O icebergue j no servia de abrigo para proteger o Ilya
Pogodin da fora do vento. A tempestade assaltava o icebergue
por trs, com toda a sua fora, pelo que ambos os lados se
encontravam vulnerveis ao vento impiedoso. O submarino
era forado a aguentar-se  superfcie, oscilando e rolando,
subindo
e descendo, to agitado como uma criatura viva no
estertor da morte. Uma outra onda monumental caiu sobre estibordo,
trepou pela torre com um rugido e lanou Nigaras de
espuma para o outro lado, encharcando todos os que se encontravam
na torre. Durante a maior parte do tempo, o submarino
mantinha-se inclinado para bombordo, no dorso de ondas
monstruosas e negras, simultaneamente montonas e aterrorizadoras.
Os homens que permaneciam na ponte estavam cobertos
por uma espessa camada de gelo, tal como o metal que os
rodeava.

  O rosto de Gorov, nos locais no protegidos pelo capuz ou
tapados pelos culos, estava coberto por uma grossa camada
de lanolina. Apesar de o seu posto no o obrigar a enfrentar
directamente o vento diablico, o nariz e as faces j haviam
sido cruelmente mordidos pelo ar gelado.
  Emil Zhukov estivera a usar um cachecol sobre a metade
interior da cara, mas o vento arrancara-lho. No seu posto, onde
tinha de permanecer virado para a tempestade, no podia
manter-se sem qualquer espcie de proteco uma vez que as
partculas de gelo, que eram como milhes de agulhas empurradas
por um vento a cento e vinte quilmetros por hora, acabariam
por lhe arrancar a pele da cara. Apertou e torceu rapidamente
o cachecol com as duas mos, estalando a camada de
gelo que o cobria, e voltou a coloc-lo apressadamente sobre o
nariz e a boca. Miservel mas estico, regressou  observao
do seu tero do horizonte tempestuoso.
  Gorov baixou o binculo e virou-se para olhar para trs,
para os dois homens que trabalhavam no alto da torre, mesmo
por detrs da ponte. Estavam parcialmente iluminados pela luz
vermelha da ponte e por uma gambiarra de luz de arco. Ambos
lanavam sombras estranhas e retorcidas, como se fossem
demnios a operar diligentemente as lgubres maquinarias do
inferno.
  Um dos tripulantes encontrava-se de p sobre a torre, encaixado
entre os dois periscpios e o mastro do radar, numa
posio que deveria ser inimaginavelmente mais aterrorizadora
ou excitante do que montar um cavalo selvagem num rodeo do
Texas - dependendo da tolerncia do homem para com o perigo
-, mesmo apesar de ter um cabo de segurana em volta
da cintura e estar preso ao mastro das telecomunicaes.
Constitua uma das vises mais estranhas que o comandante
Gorov jamais vira. Estava revestido por tantas camadas de
roupas  prova de gua que tinha dificuldade para se mover livremente.
Contudo, naquela situao perigosamente exposta,
precisava de toda a proteco possvel para no morrer congelado.
Como um pra-raios humano no pinculo da superstrutura
do submarino, era um alvo perfeito para o constante ataque
dos ventos ciclnicos, para as agulhas de gelo e para a espuma
lanada pelo mar. A sua cobertura de gelo era extremamente
espessa e sem aberturas ou intervalos. Tinha fendas bem delineadas
no pescoo, ombros, cotovelos, pulsos, ancas e joelhos,
mas, mesmo a, as roupas que usava por baixo dessa camada
brilhante no eram visveis. Tirando isso, o pobre diabo
brilhava
e cintilava da cabea aos ps e levava Gorov a pensar nos
homens-de-biscoito cobertos por acar branco que por vezes
se podiam ver entre os presentes oferecidos s crianas de
Moscovo no Dia de Ano Novo.
  O segundo homem encontrava-se na curta escada que subia
da ponte para o cimo da torre. Bem amarrado a um dos degraus
para ter as mos livres, ligava vrias caixas estanques,
em alumnio, a uma corrente de liga de titnio.
  Satisfeito com o facto de o trabalho estar quase concludo,
Gorov regressou ao seu posto e levantou o binculo de viso
nocturna.


  22.56 HORAS
UMA HORA E QUATRO MINUTOS PARA
  A DETONAO


  Como tinham os ventos violentos pelas costas, puderam
utilizar os trens motorizados para se dirigirem  fenda dos
gelos.
Se avanassem de frente contra as garras da tempestade, a
visibilidade seria quase nula e nesse caso teria sido melhor
irem a p, amarrados uns aos outros, para impedir que o vento
arrastasse um deles e o fizesse desaparecer. Contudo, ao avanarem
a favor do vento, por vezes chegavam a ter uma visibilidade
de quinze metros, que no entanto diminua de momento
a momento. Muito em breve, no seria possvel ver um palmo
em frente do nariz.
  Harry travou o tren quando j se encontrava nas vizinhanas
do precipcio e saiu da mquina com alguma relutncia.
Apesar de estar bem agarrado  porta, uma rajada de cento e
oitenta quilmetros por hora atirou-o imediatamente ao cho,
caindo sobre os joelhos. Quando a fora da ventania assassina
diminuiu o suficiente, Harry levantou-se e agarrou-se  porta,
no sem um esforo considervel, praguejando contra a tempestade.

  Os outros trens motorizados pararam por detrs dele.
O ltimo veculo do comboio estava apenas a trinta metros de
distncia, mas via apenas vagas aurolas amarelas no local onde
deveriam encontrar-se os faris, to fracas que quase as
poderia confundir com uma partida pregada pelos olhos lacrimejantes.
  Atrevendo-se a largar a porta e encolhendo-se todo para
oferecer a menor resistncia possvel ao vento, Harry apressou-se,
com a lanterna na mo, investigando o gelo at ter a
certeza de que os prximos trinta metros eram seguros. O ar
estava capaz de gelar os ossos. Respir-lo, mesmo atravs da
mscara de malha, fazia-lhe doer a garganta e queimava-lhe os
pulmes. Regressou apressadamente ao relativo calor do seu
tren motorizado e conduziu com cautela durante mais trinta
metros, voltando a sair para um novo reconhecimento.
  Acabou por localizar a fenda dos gelos sem que, desta vez,
corresse o perigo de se despenhar nas suas profundezas.
A fenda tinha trs ou quatro metros de largura e estreitava
para
um fundo envolto numa escurido que a lanterna elctrica
no conseguia vencer.
  Tanto quanto podia ver atravs dos culos gelados - que
ficaram imediatamente cobertos de gelo novo no instante em
que os limpou -, a parede que teria de descer era relativamente
lisa e sem grandes perigos. Contudo, no estava muito
certo daquilo que via. O ngulo de viso em relao ao precipcio,
a maneira curiosa como o gelo mais profundo refractava
e reflectia a luz, as sombras que saltavam como demnios
a danar sempre que fazia o menor movimento com a lanterna,
a neve empurrada pelo vento que rodopiava no rebordo e caa
na fenda rodando em espiral - eram tudo factores que o impediam
de ter uma viso clara do que se encontrava por baixo
dele. A menos de trinta metros de profundidade achava-se o
que lhe pareceu ser o fundo, ou um largo terrao, que talvez
conseguisse atingir sem se matar.
  Harry inverteu a posio do seu tren e f-lo recuar ousadamente
quase at  beira do precipcio. Era uma opo que
poderia ser considerada, com toda a razo, como suicida. Todavia,
considerando os preciosos sessenta minutos que lhes
restavam, um certo grau de loucura parecia-lhe no s justificvel
como essencial. Excepto no caso dos manequins ou dos
primeiros-ministro britnicos, ningum chegava a lado nenhum
se se limitasse a ficar quieto. Era uma das mximas favoritas
de Rita - que era cidad britnica - e Harry sorria sempre
que pensava nela. Naquele momento, porm, no lhe apetecia
sorrir. Corria um risco calculado com mais possibilidades de
falhano do que de xito. O gelo podia abater sob o seu peso e
precipitar-se no abismo, tal como acontecera algumas horas
antes, naquele mesmo dia.
  Contudo, estava disposto a confiar na sorte e a colocar a
vida nas mos dos deuses. Se houvesse justia no universo, teria
de beneficiar de uma mudana na sorte ou, pelo menos, essa
mudana era-lhe devida.
  Quando os outros estacionaram os trens motorizados e se
lhe juntaram  beira da fenda, j Harry fixara dois cabos de
nylon,testados para pesos de quinhentos quilos, ao gancho
de reboque do seu tren. A primeira corda era um cabo de segurana
com vinte e quatro metros que o deixaria a curta distncia
do fundo da fenda se por acaso casse. Amarrou-o em
volta da cintura. A segunda era a que iria utilizar para
tentar uma descida controlada. Tinha trinta metros de comprimento
e Harry atirou a ponta livre para o fundo da ravina.
  Pete Johnson aproximou-se da beira e entregou-lhe a sua
prpria lanterna elctrica. Harry j prendera outra no cinto
de ferramentas que levava  cintura. Tinha-a sobre a anca
direita, de fundo para cima e lente virada para baixo. Fixou a lanterna
de Pete sobre a anca esquerda. Agora, tinha dois feixes de luz
amarela a iluminarem-lhe as calas acolchoadas.
  Nem ele nem Pete tentaram falar. O uivo do vento era to
agudo como algo que tivesse rastejado para fora das tripas do
Inferno no Dia do Julgamento Final. Era to alto que os deixava
estupefactos, muito mais alto do que anteriormente. No
se teriam ouvido um ao outro mesmo que gritassem a plenos
pulmes.
  Harry estendeu-se sobre o gelo, de barriga para baixo, e
agarrou na corda com as duas mos.
  Debruando-se, Pete deu-lhe palmadas tranquilizadoras no
ombro. A seguir, devagar, empurrou Harry para trs, por cima
do rebordo e para o interior da fenda.
  Harry pensara que tinha a corda bem agarrada e estivera
certo de poder controlar a descida... mas enganara-se. A corda
escorregou-lhe nas mos como se estivesse oleada e ele precipitou-se
para o fundo do precipcio. Talvez fosse por causa
da crosta de gelo nas luvas e tambm por o couro estar humedecido
pela vaselina por ter tocado frequentemente no rosto
protegido pela gordura. Fosse qual fosse a razo, a corda escorregava-lhe
nas mos como uma enguia viva e f-lo mergulhar
no abismo.
  A parede de gelo brilhava a seu lado, a dez ou quinze centmetros
do rosto, cintilando com os reflexos das duas lanternas
que o precediam. Agarrava-se  corda com todas as suas
foras e tentava prend-la entre os joelhos... mas ia praticamente
em queda livre.
  Sob os redemoinhos da neve soprada pelo vento e graas 
peculiar refraco prismtica da luz nos gelos profundos, Harry
pensara que a parede de gelo era plana e relativamente lisa...
mas no tivera a certeza. O cabo mais curto no o salvaria
se encontrasse uma salincia de gelo mais aguada saindo
da parede da fenda. Se embatesse nela a alta velocidade, poderia
rasgar-lhe o pesado fato, abri-lo de alto a baixo, empal-lo...

  A corda ia queimando a camada superficial das luvas e de
sbito Harry conseguiu deter a queda a talvez vinte metros do
rebordo do abismo. O corao martelava-lhe no peito como
um tambor e tinha todos os msculos do corpo transformados
em ns mais apertados do que os da corda amarrada  cintura.
Ofegante, ficou a oscilar de um lado para o outro, pendurado
na corda, embatendo dolorosamente - mas depois com mais
suavidade - na parede de gelo, enquanto as sombras e os frenticos
clares de luz reflectida saltitavam l em baixo como
bandos de espritos a escaparem-se do reino de Hades.
  No ousou fazer uma pausa para se acalmar. Os dispositivos
temporizadores das cargas explosivas continuavam a contar
os segundos.
  Depois de descer mais cinco ou seis metros, Harry atingiu
o fundo do abismo. Tinha vinte e sete metros de altura, o que
estava muito perto da estimativa que fizera quando o observara

l do alto.
  Desprendeu uma das lanternas do cinto das ferramentas e comeou
a procurar a entrada do tnel que o tenente Timoshenko
lhe descrevera. Recordava-se, do seu primeiro encontro com o
precipcio, naquele mesmo dia, que a fenda nos gelos tinha
treze a quinze metros de comprimento e trs ou quatro metros
de largura no ponto central, estreitando para as extremidades.
Naquele momento no conseguia ver todo o fundo da ravina.
Quando parte da parede de gelo cedera sob o peso do seu tren
motorizado, este cara no fundo e formava agora um muro
de trs metros de altura que dividia o abismo em duas partes
mais ou menos iguais. Os destroos do tren, queimados, jaziam
no alto desse muro.
  A seco em que Harry descera era um beco sem sada.
No tinha passagens laterais, no existiam fendas profundas
que lhe permitissem descer mais e no havia sinais de tneis
ou da superfcie da gua.
  Deslizando, escorregando, com medo de que as placas de
gelo mudassem de posio e o entalassem como um insecto no
meio de dois tijolos, trepou para fora daquela parte do abismo.
Chegado ao alto do monte de neve, procurou caminho
por entre os destroos calcinados do tren e por cima de placas
de gelo que se moviam, traioeiras, sob os seus ps, e
desceu
para o outro lado.
  Para l da separao, na segunda metade do abismo, deparou-se-lhe
uma sada que mergulhava em reinos de gelo mais
misteriosos e profundos. A parede do lado direito no exibia
aberturas ou fendas, mas a da esquerda no chegava at ao
fundo. Terminava a um metro e vinte de altura.
  Harry deitou-se sobre o estmago e meteu a lanterna naquela
abertura baixa. A passagem tinha cerca de nove metros
de largura e um mximo de um metro e pouco de altura. Parecia
seguir a direito durante seis ou sete metros, avanando
para
o interior do icebergue, para depois descrever uma curva
abrupta e comear a descer, desaparecendo das vistas.
  Valeria a pena explor-la?
  Olhou para o relgio: 23.02 horas.
  Cinquenta e oito minutos para a detonao.
  Segurando a luz na sua frente, Harry contorceu-se e penetrou
na passagem horizontal. Nalguns stios e apesar de rastejar
sobre o estmago, o tecto era to baixo que lhe batia na
cabea.
  No sofria de claustrofobia mas tinha um lgico e saudvel
receio de se ver confinado num espao extremamente apertado,
quase trinta metros abaixo da superfcie dos gelos, na
vastido
rctica... rodeado por cinquenta e oito enormes cargas
explosivas que contavam rapidamente o tempo em direco 
detonao. No era uma sensao agradvel...
  De qualquer modo, contorceu-se, arrastou-se e puxou-se
para a frente com a ajuda dos cotovelos e dos joelhos. Quando
j percorrera oito ou nove metros descobriu que a passagem
conduzia ao fundo do que parecia ser um grande espao aberto,
uma cavidade no corao do gelo. Deslocou a lanterna de
um lado para o outro, mas a posio em que se encontrava
no lhe permitia ter uma ideia clara sobre as verdadeiras dimenses
da caverna. Deslizou para fora da passagem, endireitou-se
e desprendeu a segunda lanterna da cintura.
  Encontrava-se numa cmara circular de trinta metros de
dimetro, com dzias de fissuras, buracos e aberturas de tneis.
Aparentemente, o tecto fora formado por uma torrente
de gua quente e vapor: era uma cpula quase perfeita,
demasiado lisa, que s podia ter sido formada por um fenmeno excepcional,
tal como uma extica actividade vulcnica. Esta
cpula,
marcada apenas por algumas estalactites e por fendas finas
como teias de aranha, ficava a dezoito metros de altura no seu
pice
e encurvava-se at aos nove metros, onde se ligava s paredes.
O cho descia progressivamente para o centro da sala numa
srie de sete degraus sucessivos, cada um deles com alturas
variando
entre o meio metro e o metro, pelo que o efeito geral
era o de um anfiteatro. No centro da caverna, onde deveria
encontrar-se o palco, havia um lago de doze metros de dimetro,
de guas agitadas.

  O poo.
  Muitas dezenas de metros mais abaixo, aquele largo poo
abria-se para o fundo do icebergue, para o mundo sem luz do
profundo oceano rctico, onde o Ilya Pogodin estaria  espera
que aparecessem.
  Harry ficou to hipnotizado com aquela lagoa escura como
teria ficado com um portal aberto entre esta dimenso e a seguinte,
por uma porta no fundo de um velho guarda-roupa
dando acesso  terra encantada de Narnia, ou por um tornado
capaz de atirar um co e uma criana para o reino de Oz.
  - Ora esta! - exclamou. A cpula reflectiu a sua voz e
devolveu-lha sob a forma de um eco.
  De sbito, a esperana renovou-lhe as energias.
  No fundo da mente sempre abrigara muitas dvidas sobre a
existncia do poo. Preferira pensar que o profundmetro de
superfcie do Pogodin estivera a funcionar mal. Naqueles mares
frgidos, como era possvel que um poo profundo aberto
nos gelos se mantivesse aberto? Porque no gelara e no voltara
a fechar-se? No perguntara aos outros se conseguiriam explicar-lhe
esse facto. No os quisera preocupar. Ser-lhes-ia
mais fcil passar as ltimas horas de vida se tivessem alguma
esperana a que se pudessem agarrar. De qualquer modo, fora
um enigma para que no encontrara soluo.
  Agora, tinha a resposta para aquele mistrio. A gua dentro
do poo continuava a ser afectada pelas tremendas foras
de mar do mar que ficava l muito em baixo. No estava estagnada,
nem sequer calma. Subia pelo poo e voltava a descer
de uma maneira rtmica, chegando a erguer-se dois ou trs metros
no interior da caverna, fervilhando, para depois descer
rapidamente,
ficando quase ao nvel da beira da abertura. Subia
e descia, subia e descia... e aquele movimento contnuo impedia-a
de congelar e inibia o crescimento de gelo dentro do
prprio poo.
  Era claro que, se passasse muito tempo, talvez dois ou trs
dias, era provvel que o poo se tornasse cada vez mais
estreito.

Gradualmente, ir-se-ia formando gelo novo nas paredes do
poo, independentemente do movimento das guas, at que a
passagem se tornasse intransponvel ou se fechasse.
  Todavia, no precisavam do poo dentro de dois ou trs
diaS. Precisavam dele agora.
  A natureza lanara-se contra eles nas ltimas duas horas..,
mas talvez agora trabalhasse a favor do grupo e estivesse
pronta
para lhes mostrar um pouco de piedade.

  Sobrevivncia.
  Paris. Hotel George V.
  Moet & Chandon.
  O Crazy Horse Saloon.
  Rita...
  A fuga era possvel.  justa.
  Harry prendeu uma das lanternas ao cinto. Segurando a
outra na sua frente, voltou a introduzir-se no tnel que
ligava
aquela caverna  fenda nos gelos, ansioso por fazer sinal aos
outros para descerem e para comearem a tortuosa fuga quela
priso de gelo.

  23.06 HORAS
CINQUENTA E QUATRO MINUTOS PARA
  A DETONAO


  Na plataforma de comando, Nikita Gorov observava uma
srie de cinco monitores montados no tecto. Sem grande esforo,
observava simultaneamente os clculos - alguns dos quais
expressos sob uma forma grfica - feitos por cinco programas
diferentes que recolhiam constantemente dados sobre a posio
do submarino e do icebergue, latitudes relativas e velocidades.

  - guas limpas - declarou o tcnico que operava o profundmetro
de superfcie. - No h gelos por cima.
  Gorov colocara o Ilya Pogodin por baixo da cavidade de
trezentos metros de comprimento, em forma de disco, existente
no fundo do icebergue. A torre do submarino encontrava-se
directamente por baixo do poo de doze metros no centro dessa
concavidade. Essencialmente, mantinha-se estabilizado sob
o funil invertido aberto no gelo, e teria de ficar naquela
posio
durante toda a operao.
  - Velocidade igualada - disse Zhukov, repetindo o relatrio
que lhe chegara da sala de manobra pelos auscultadores.
  Um dos tcnicos ao longo da parede do lado esquerdo
anunciou:
  - Velocidade igualada e confirmada.
  - Leme ao centro - ordenou Gorov.
  - Leme ao centro, senhor.
  Sem vontade de desviar os olhos, Gorov fez uma careta para
os monitores como se estivesse a falar para eles e no para
a equipa da sala de comando.
  - No percam de vista os indicadores de deriva.
  - guas limpas. No h gelo por cima.

  Claro que havia uma enorme estrutura de gelo por cima
deles, toda uma ilha gigantesca... mas no directamente por
cima do profundmetro de superfcie instalado no alto da torre.
O aparelho sondava o poo de doze metros de largura e o sinal
de retorno indicava que a superfcie, cento e oitenta metros
mais acima, dentro da cmara de gelo que o Dr. Carpenter
descrevera a Timoshenko, se encontrava livre.
  O comandante hesitou. Tinha relutncia em agir antes de
ter a certeza de que se encontravam devidamente posicionados.
Quando verificou que a velocidade do submarino estava
to coordenada com o avano do icebergue como era humanamente
possvel, puxou por um microfone e disse:
  - Comandante ao centro de comunicaes. Liberte a antena,
tenente.
  A voz de Timoshenko fez-se ouvir, spera, no altifalante
por cima da cabea de Gorov.
  - Antena libertada.
  L no alto encontravam-se oito caixas de carga de alumnio,
 prova de gua, aninhadas entre os mastros, periscpios
e snorkels da torre do Pogodin. Eram mantidas no seu lugar
por cordas de nylon, algumas das quais deveriam ter rebentado,
como se esperava, durante a segunda descida do submarino
at aos duzentos metros.
  Quando Timoshenko libertara a antena, o balo de hlio
fora ejectado, no meio de um cardume de bolhas, do tubo
pressurizado existente no cimo da torre. Se funcionasse devidamente
- como sempre acontecera - estaria agora a subir
na escurido do mar, puxando atrs de si o fio das comunicaes.
Ao longo dos anos, uma vez que era um navio de recolha
de informaes, o Ilya Pogodin libertara desse modo a antena
em milhares de diferentes ocasies.
  Contudo, as oito caixas de alumnio presas ao topo da torre
no constituam uma caracterstica habitual daquela operao.
Estavam presas ao fio das comunicaes por uma fina corrente
de liga de titnio. Quando o balo de hlio se encontrasse a
seis metros acima da torre, a sua subida daria um violento
estico
 corrente com a fora suficiente para fazer escorregar os
ns das cordas que prendiam as caixas. Como as caixas de alumnio
flutuavam, erguer-se-iam imediatamente e no seriam
um peso para o balo.
  Em segundos, a esfera cheia de hlio atingiria os cento e
oitenta metros, os cento e sessenta, cento e cinquenta... e
entraria no funil invertido por cima do submarino. As caixas de
alumnio seguiriam na sua esteira. As bolhas de ar do tubo
pressurizado ficariam para trs da antena e das caixas quase
logo desde o princpio porque o hlio do balo se expandia e
subia muito mais depressa do que o oxignio das bolhas.
Aproximadamente aos cento e vinte metros, o balo deslizaria
para a entrada do longo poo e continuaria a subir sem esforo,
cada vez mais alto e mais depressa.
  Debruado sobre o grfico do profundmetro de superfcie,
o tcnico anunciou:
  - Estou a registar uma obstruo fragmentada, no poo.
  - No  gelo? - perguntou Gorov.
  - No, a obstruo est a subir.
  - So as caixas.
  - Sim, senhor.
  - Est a dar resultado - comentou Zhukov.
  - Assim parece - concordou o comandante.
  - Agora, se os membros do grupo Edgeway j localizaram
a outra extremidade do poo...
  ... poderemos dar incio  parte mais difcil - concluiu
Gorov.
  Os nmeros e imagens piscavam nos monitores.
  Por fim, o altifalante estralejou e Timoshenko disse:
  - Antena erguida. Balo  superfcie, comandante.
  Gorov puxou pelo microfone, tossicou e respondeu:
  - Desligue o sistema automtico, tenente. Desenrole mais
vinte metros de fio.
  Momentos depois, Timoshenko informava.
  - Mais vinte metros de fio desenrolado, comandante.
  Emil Zhukov passou uma das mos pelo rosto saturnino.
  - Agora... a longa espera.
  - Sim, agora s nos resta esperar - concordou Gorov,
com um aceno.


  23.10 HORAS
CINQUENTA MINUTOS PARA A DETONAO


  O balo de hlio apareceu na outra extremidade do poo e
ficou a flutuar alegremente na superfcie agitada. Pelo menos
para Harry, o balo pareceu-lhe - apesar do seu tom bao,
azul-acinzentado - to brilhante e colorido como se fosse um
balo de uma festa.
  Uma a uma,  medida que Timoshenko soltava mais fio, as
oito caixas de alumnio apareceram  superfcie embatendo
umas nas outras com sons abafados e quase inaudveis.
  Harry no se encontrava sozinho na caverna em cpula.
Rita, Brian, Franz, Claude e Roger j se lhe tinham reunido.
Naquele momento George Lin deveria estar a chegar ao fundo
da fenda e Pete Johnson comeava provavelmente a descer a
corda, abandonando o alto do icebergue varrido pela tempestade.

  Pegando no gancho que tinham improvisado com bocados
de tubos de cobre e com seis metros de arame grosso, Harry
disse:
  - Vamos. Temos de tirar aquelas coisas da gua.
  Com a ajuda de Franz e de Roger, Harry conseguiu enganchar
a corrente e puxar as caixas para fora do lago. Os trs
homens ficaram molhados at aos joelhos durante o processo e
segundos depois tinham as calas congeladas em volta das pernas.
Apesar de as botas e de as roupas serem impermeveis,
aquela simples submerso parcial comeou a roubar-lhes calor
corporal. Gelados, a tremer, apressaram-se a abrir as caixas
de alumnio e a retirar do interior os equipamentos que o Ilya
Pogodin lhes enviara.
  Cada caixa continha um equipamento completo de mergulho.
Todavia, no se tratava de um equipamento vulgar, uma
vez que fora desenhado para guas extremamente profundas
ou frias. Cada fato encontrava-se equipado com um conjunto
de baterias presas a uma correia e usadas  cintura. Quando
as ligassem s calas e ao casaco estanque, o forro interior
forneceria calor como se fosse um cobertor elctrico.
  Harry pousou o seu equipamento no gelo, longe da linha
da mar da gua do lago, constantemente a subir e a descer.
Cada um dos equipamentos trazia um tanque de ar comprimido.
A mscara de mergulho era suficientementve grande para
cobrir quase todo o rosto, desde o queixo  testa, eliminando
a necessidade de um respiradouro separado. O ar era introduzido
directamente na mscara, pelo que o mergulhador podia
respirar pelo nariz.
  Estritamente falando, no iriam respirar ar, uma vez que os
tanques continham uma mistura de oxignio e hlio, alm de
vrios aditivos especiais que permitiam que o utilizador
mergulhasse
a grandes profundidades. Anteriormente, quando lhe
explicara o equipamento atravs da rdio, Timoshenko garantira-lhes
que a mistura de gases nos tanques lhes permitiria
mergulhar com apenas "um razovel grau de perigo" para os
sistemas circulatrio e respiratrio. Harry no considerara as
palavras do tenente como sendo particularmente tranquilizadoras.
Contudo, a ideia de ter  sua volta cinquenta e oito
macias cargas explosivas era mais do que suficiente para que pusesse
toda a sua confiana na tecnologia de mergulho dos
Russos.
  Os fatos tambm eram diferentes do que era habitual ver-se,
mas tratava-se de pequenas diferenas, menos importantes.
As calas tinham ps, como se fossem uma espcie de pijama
de criana. As mangas do casaco terminavam em luvas.
O capuz protegia toda a cabea e a parte do rosto que no ficava
tapada pela enorme mscara, como se deixar um nico
centmetro quadrado de pele exposta pudesse resultar numa
morte instantnea e extremamente violenta. No seu conjunto,
os fatos de mergulho pareciam ser verses mais justas dos largos
e volumosos fatos de presso utilizados pelos astronautas
no espao.
  George Lin entrara na caverna quando retiravam o material
de dentro das caixas. Estudou o equipamento com uma
desconfiana que no se deu ao trabalho de ocultar.
  - Harry, deve haver outra maneira, outra coisa qualquer.
Deve haver...
  - No - retorquiu Harry, sem a sua habitual diplomacia
e pacincia. - Temos isto... e mais nada. No h tempo para
mais discusses, George. Cala-te e veste um destes fatos.
  Lin ganhou uma expresso sombria...
  .. mas no tinha aspecto de ser um assassino.
  Harry observou os outros, ocupados a retirar os equipamentos
de dentro das caixas. Nenhum deles tinha aspecto de
assassino mas no entanto houvera um que atacara Brian e que,
por qualquer motivo louco, lhes poderia provocar grandes problemas
quando estivessem dentro de gua, descendo ao longo
do comprido poo de gelo.
  Pete Johnson chegou em ltimo lugar, contorcendo-se para
sair do tnel que ligava a caverna  fenda, praguejando contra
os gelos  sua volta. Para ele, a passagem fora muito mais
apertada e provavelmente tivera dificuldades para introduzir
os ombros nalgumas das zonas mais estreitas.
  -  melhor vestirmo-nos - disse Harry. A sua voz tinha
uma tonalidade oca e estranha quando ressoava na cpula do
anfiteatro de gelo. - No h tempo a perder.
  Trocaram as roupas rcticas pelos fatos de mergulho com
uma pressa eficiente, nascida do desconforto e do desespero.
Harry, Franz e Roger j pagavam, com dores violentas, o facto
de terem mergulhado no lago at aos joelhos. At esse momento
tinham sentido os ps meios entorpecidos, o que era
mau sinal, mas o choque restaurara-lhes temporariamente demasiadas
sensaes... e agora as suas carnes, desde as canelas
aos dedos dos ps, picavam, doam e ardiam. Os outros haviam
sido poupados a esse sofrimento adicional mas praguejaram
e queixaram-se amargamente durante o breve perodo de
nudez. No havia vento a circular na caverna mas a temperatura
do ar talvez atingisse os vinte graus negativos... ou mais.
Por isso, mudaram a roupa por fases, primeiro uma parte do
corpo e depois a outra, para nunca ficarem inteiramente nus e
vulnerveis ao frio assassino. As botas exteriores, as
interiores,
as meias, as calas e as compridas roupas interiores
foram as primeiras coisas a sair, sendo rapidamente substitudas
pelas calas justas e isoladas. S depois despiram os casacos,
coletes, camisolas, camisas e camisolas interiores para envergar os casacos
de borracha forrada, com os respectivos capuzes.
  Potencialmente, a modstia era to mortfera como o frio.
Quando Harry olhou para cima, depois de ter enfiado as calas
de borracha, viu os seios nus de Rita, que se debatia para
vestir o casaco. Tinha a pele com um tom azul-esbranquiado,
e coberta de pele-de-galinha. Rita puxou o fecho de correr,
viu que Harry estava a observ-la e piscou-lhe o olho.
  Harry ficou maravilhado. Imaginava o medo agonizante
que deveria estar a afligi-la. J no se encontrava apenas nos
gelos... mas sim dentro deles. No interior de um tmulo.
O seu terror deveria atingir nveis agudos. Antes de descerem
o poo para o submarino e para a segurana - se conseguissem
sobreviver a essa viagem -, Rita iria sem dvida reviver
mais do que uma vez a morte dos seus pais e recordar, com
pormenores hediondos, a provao por que tivera de passar
aos seis anos de idade.
  Pete estava com problemas para vestir o equipamento e
protestou:
  - Ser que os Russos so todos pigmeus?
  Toda a gente se riu.
  A piada no fora assim to engraada. As gargalhadas fceis
eram um indicativo das tenses que sofriam. Harry pressentiu
que o pnico se encontrava muito perto da superfcie
em todos eles.


  23.15 HORAS
QUARENTA E CINCO MINUTOS PARA
  A DETONAO


  O altifalante por cima das cabeas transmitiu a m notcia
que toda a gente esperava ouvir do oficial da sala de
torpedos:
  - Comandante, a antepara est outra vez a "suar".
  Gorov desviou os olhos da fileira de monitores e puxou um
microfone.
  - Comandante  sala dos torpedos.  apenas uma fina pelcula,
como da outra vez?
  - Sim, senhor.  mais ou menos a mesma coisa.
  - No a percam de vista.
  - Agora que conhecemos a disposio dos gelos por cima
de ns - interveio Zhukov -, podamos levar o submarino
para os cento e oitenta metros, entrando no funil de gelo.
  Gorov abanou a cabea.
  - Neste momento s temos que nos preocupar com uma
coisa: a humidade naquela antepara da sala dos torpedos. Se
subirmos aos cento e oitenta metros podemos continuar a ter
esse problema: e para alm disso teramos de nos preocupar
com a possibilidade de o icebergue ser apanhado por uma corrente
diferente e mudar repentinamente de rumo.
  Se subissem cautelosamente trinta ou mais metros, penetrando
na concavidade do icebergue para aliviar parte da tremenda
presso sobre o casco, o Pogodin ficaria entalado no
icebergue... como um beb por nascer abrigado na barriga da
me. Se o icebergue comeasse a deslocar-se mais depressa ou
mais devagar do que naquele momento, talvez no compreendessem
o que se estava a passar antes de ser demasiado tarde.
Colidiriam com os gelos mais profundos que teriam pela proa
ou pela popa.
  - Mantenham-no firme - ordenou Gorov.

  O livro de apontamentos tinha um poder diablico a que
Gunvald no conseguia resistir. O seu contedo chocava-o,
enojava-o e deixava-o doente... mas tinha de examinar mais
uma pgina, mais outra e mais outra... Era como um animal
selvagem que encontrava as entranhas e a carne semidevorada
de um da sua prpria espcie, vitimado por um predador. Metera
o focinho naquelas runas e farejara-as ansiosamente, assustado
mas curioso, envergonhado de si mesmo mas mrbida
e completamente fascinado pelo terrvel destino que podia
atingir um dos seus.
  Num certo sentido, o livro de apontamentos era um dirio
de demncia, uma crnica, semana a semana, de um esprito
que se deslocava entre as fronteiras da sanidade e os
territrios da loucura... apesar de, obviamente, no ser isso o que o seu
proprietrio pensara. Para um homem to perturbado, o que
ali estava talvez lhe pudesse parecer uma espcie de trabalho
de investigao, um registo retirado de fontes pblicas
respeitante a uma conspirao imaginria contra os Estados Unidos
e a democracia em todo o mundo. Os recortes de jornais e de
revistas estavam dispostos de acordo com as suas datas de publicao
e colados s pginas com fita gomada. Nas margens,
ao lado de cada artigo, o compilador escrevinhara os seus comentrios.
  As primeiras entradas pareciam ter sido retiradas de vrias
publicaes polticas de amadores, de circulao limitada, impressas
nos EUA por vrios grupos de extrema esquerda e extrema
direita. Aquele homem encontrava alimento para a sua
parania ardente tanto numa como noutra extremidade do espectro
poltico. Coleccionara as histrias mais descabidas e
tolas, estpidas e escandalosas. Num recorte, o presidente era
um comunista dedicado, da linha dura... e noutro era um fascista
dedicado, da linha dura. O presidente era um homossexual
oculto com um apreo especial por rapazinhos... ou um
insacivel stiro que contrabandeava dez prostitutas por semana
para o interior da Casa Branca. O papa era alternadamente
um desprezvel zelota da ala direita que apoiava secretamente
os ditadores do Terceiro Mundo e um manaco da extrema esquerda
que pretendia a destruio da democracia e confiscava
todas as riquezas do mundo para benefcio dos jesutas. Num
lado dizia-se que os Rockefellers e os Mellons eram descendentes
de famlias com mentalidades conspiratrias que tentavam
governar o mundo desde o sculo xIv, ou talvez xiI... ou
at desde que os dinossauros haviam desaparecido. Um recorte
afirmava que, na China, as raparigas eram educadas desde a
infncia em "quintas de prostitutas"... para depois serem
entregues, com apenas dez anos, a depravados polticos ocidentais
em troca de segredos da segurana nacional. Dizia-se que
os homens de negcios ambiciosos poluam o planeta e estavam
to loucos por dinheiro que no se ralavam com a morte
de todas as focas bebs que existiam, fabricavam mobilirio de
jardim com as ltimas e imponentes sequias, envenenavam
crianas e destruam a Terra numa busca incessante do todo-poderoso
dlar. As suas conspiraes diablicas eram to
complexas e to vastas que ningum podia ter a certeza de a
prpria me no se encontrar tambm ao servio desses homens.
Tambm os aliengenas de outra galxia tentavam conquistar
o mundo com a cooperao clandestina do ( s escolher)
Partido Republicano, do Partido Democrtico, do
Partido Libertrio, dos judeus, pretos, cristos-renascidos,
liberais, conservadores, executivos brancos de meia-idade das
indstrias de camionagem. O contedo dos recortes era tal
que Gunvald no ficaria surpreendido se descobrisse um em
que se dissesse que Elvis fingira a sua morte para controlar
secretamente o sistema bancrio internacional a partir de uma
manso subterrnea na Sua.
  A partir do recorte de jornal na pgina vinte e quatro, o
livro de apontamentos tornava-se mais feio e perturbador. Era
uma fotografia do falecido presidente Dougherty. Por cima da
fotografia via-se um cabealho: ASSASSNIO DE DOUGHERTY:
fAz HoJE DEz ANos. Na margem, em letras vermelhas irregulares
mas escritas com cuidado, vinha uma divagao psictica:
O seu crebro apodreceu. A sua mente j no existe. A sua lngua
j no pode produzir mais mentiras. Foi entregue aos vermes,
livrando-se dos outros filhos que poderia vir a ter. Hoje
vi um cartaz que dizia: "No posso convencer um homem da minha
verdade silenciando-o quando tenta explicar-me a sua. No
 uma mentira. A morte convence os homens... e creio que ajuda
a convencer os seus seguidores. Desejava ter sido eu a mat-lo.
  A partir daquele ponto o livro de apontamentos dedicava
cada vez mais espao  famlia Dougherty. Na pgina cem, a
um tero do livro, a famlia Dougherty tornara-se na sua nica
obsesso. Todos os recortes das duzentas pginas seguintes
eram acerca dessa famlia. Coleccionara tanto histrias importantes
como triviais. Havia ali um relato de um discurso de
campanha que o pai de Brian fizera dois anos antes, um artigo
sobre uma festa-surpresa organizada por altura do aniversrio
da viva do falecido presidente, um despacho da UPI a respeito
das aventuras de Brian numa das praas de touros de Madrid...
  Na pgina duzentos e dez encontrava-se uma fotografia da
famlia Dougherty tirada durante o casamento da irm de
Brian e publicada pela revista People. Por baixo viam-se duas
palavras manuscritas a vermelho: O inimigo.
  Na pgina duzentos e trinta desapareciam os ltimos vestgios
de sanidade e revelava-se o rosto da mais pura loucura.
O compilador colara-lhe uma pgina de revista com uma fotografia
a cores da irm mais velha de Brian, Emily. Era uma jovem
bonita, de nariz arrebitado, grandes olhos verdes e uma
sugesto de sardas. Estava de lado e ria-se para algum por
causa de algo que fora feito, ou dito, fora do campo da cmara.
Muito bem escritas, numa espiral em volta do rosto, repetiam-se
trs palavras que cobriam todo o resto da folha, at
s margens: porca, puta, verme, porca, puta, verme...
  As pginas seguintes eram de pr os cabelos em p.
  Gunvald tentou contactar Harry mais uma vez. No houve
resposta. No conseguia comunicar com ningum. A tempestade
era a sua nica companhia.
  Em nome de Deus... que estaria a passar-se naquele icebergue?


  Brian Dougherty e Roger Breskin eram os nicos membros
do grupo com bastante experincia de mergulho. Como Brian
no podia - oficialmente -, ser considerado como um membro
da expedio mas apenas como observador, Harry pensou
que o rapaz no deveria seguir  frente na descida do poo,
descida que poderia vir a demonstrar-se muito mais perigosa
do que eram capazes de imaginar. Assim, seria Roger Breskin
o primeiro a descer.
  Seguiriam atrs dele, por esta ordem: Harry em segundo
lugar, seguido por Brian, Rita, George, Franz e Pete. Pensara
muito at chegar quela disposio. Brian seguiria entre Harry
e Rita, as duas nicas pessoas em quem podia confiar inteiramente.

George Lin desceria atrs de Rita e poderia constituir
uma ameaa para ela ou para Brian. Por causa da sua idade e
temperamento, Claude Jobert parecia ser o suspeito menos
provvel - a seguir a Pete; portanto, iria atrs de Lin, o que
lhe permitiria notar, e tentar evitar, qualquer aco mais
perigosa.
Se o culpado fosse Franz, as suas hipteses de se lanar
a Brian seriam muito limitadas pelo facto de Pete Johnson o estar
a vigiar pelas costas. Por outro lado, se se desse o caso,
muito improvvel, de ser Pete Johnson o candidato a assassino,
no lhe seria fcil ultrapassar Franz, Claude, Lin e Rita
para poder chegar a Brian.
  Se tivessem de descer o poo envoltos pela escurido, ento
a ordem de descida no faria qualquer diferena porque a
ausncia de luz ocultaria tudo o que viesse a suceder. Felizmente,
as caixas de alumnio continham trs poderosas lanternas
de halognio destinadas a serem utilizadas debaixo de
gua, sob presses considerveis. Roger transportaria uma, na
frente do grupo. George Lin teria outra, no meio da fila. Pete
transportaria a terceira. Se cada membro do grupo mantivesse
uma distncia de trs metros at ao que seguia na sua frente,
a distncia entre a primeira e a terceira lanternas seria
aproximadamente de quarenta metros. No nadariam no meio de
uma luz muito brilhante, mas Harry calculava que a iluminao
fosse suficiente para desencorajar um assassnio.
  Cada um dos fatos de mergulho estava equipado com um
relgio  prova de gua com um grande mostrador digital luminoso.
Harry olhou para o seu quando acabou de se vestir.
Onze horas e dezoito minutos.
  Quarenta e dois minutos para a detonao.
  - Estamos prontos? - perguntou.
  Estavam todos vestidos e com as mscaras nos seus lugares...
incluindo George Lin.
  - Ento... boa sorte, meus amigos - disse Harry. Colocou
a sua prpria mscara, levou a mo acima do ombro para
ligar a entrada do ar na mscara e respirou fundo meia dzia
de vezes para ter a certeza de que o equipamento funcionava
devidamente. Virou-se para Roger Breskin e fez-lhe um sinal
com o polegar levantado.
  Roger pegou na sua lanterna, patinhou  beira do lago, hesitou
por um momento... e saltou de ps para a frente para o
poo de doze metros de largura.
  Harry seguiu-o, cortando a gua com menos estardalhao
do que Roger. Apesar de saber que no seria assim, esperava
que o abrao gelado do mar lhe cortasse a respirao e lhe interrompesse
as batidas do corao. Ofegou involuntariamente
quando a gua se fechou  sua volta. Todavia, as baterias e o
forro aquecido do fato de borracha funcionavam bem... e no
sentiu qualquer mudana de temperatura ao passar da caverna
para o poo.
  A gua estava turva. Na frente da luz amarelada das lanternas
passavam milhes de partculas em suspenso, nuvens de
diatomceas em quantidade suficiente para alimentar um cardume
de baleias e minsculos fragmentos de gelo. Por detrs
da lmpada de halognio, Roger era apenas uma sombra pouco
visvel que o fato de borracha tornara perfeitamente negra
e misteriosa, como uma sombra que se tivesse escapado  pessoa
que a produzira... ou como a prpria morte, sem a sua foice
habitual.
  Tal como lhe tinham dito, Brian mergulhou imediatamente
na gua, para evitar uma possvel tentativa contra a sua vida
depois de Harry e Roger terem abandonado a caverna.
  Este ltimo j comeara a descer, agarrado ao fio das telecomunicaes
que os conduziria ao Ilya Pogodin.
  Harry levou o punho esquerdo junto da mscara para ver o
mostrador luminoso do relgio: 11.20 horas.
  Quarenta minutos para a detonao.
  Seguiu Roger Breskin para o desconhecido.


  23.22 HORAS
TRINTA E OITO MINUTOS PARA A DETONAO


  - Messe dos oficiais ao comandante.
  Na sala do comando, Gorov levantou a mo para um microfone.
  - Digam.
  As palavras saltaram do altifalante com tanta rapidez que
se colaram umas s outras, quase indecifrveis.
  - Temos gua numa das anteparas.
  - Qual antepara? - perguntou Gorov com toda a calma
apesar de sentir o estmago a agitar-se de medo.
  - Estibordo, senhor.
  -  grave?
  - No, senhor, por enquanto.  uma humidade fina com
dois metros de comprimento e cinco centmetros de largura,
logo abaixo do tecto.
  - H alguma indicao de deformao, ou de que a chapa
esteja amolgada?
  - No, senhor.
  - Mantenham-me informado - respondeu, sem revelar a
extenso da sua preocupao e largando o microfone.
  O tcnico sentado em frente ao profundmetro de superfcie
anunciou:
  - Estou novamente a detectar um bloqueio parcial da
abertura no gelo.
  - Mergulhadores?
  O tcnico estudou o grfico por instantes.
  - Sim, senhor, pode ser essa a interpretao. Os objectos
esto todos a descer.
  As boas notcias afectaram-nos a todos. Os homens no estavam
menos tensos do que um minuto antes, mas, pela primeira
vez em muitas horas, essa tenso era temperada por algum
optimismo, embora reservado.


  - Sala dos torpedos ao comandante.
  Sem dar nas vistas, Gorov limpou as palmas das mos s
calas e puxou novamente pelo microfone.
  - Comuniquem.
  A voz era controlada mas a nota de preocupao era iniludvel.

  - A humidade entre os tubos nmeros quatro e cinco est
a piorar, comandante. O seu aspecto no me agrada...
  - Est a piorar... at que ponto?
  - A gua j pinga para o convs.
  - Muita gua?
  O altifalante por cima da cabea de Gorov zumbiu enquanto
o oficial da sala dos torpedos avaliava a situao.
  - Cerca de um quarto de decilitro, comandante.
  - E  tudo?
  - Sim, senhor.
  - H alteraes nas chapas?
  - Nada de visvel.
  - E os rebites?
  - No h distores na fileira de rebites.
  - Alguns sons de fadiga do metal?
  - Estivemos  escuta com um estetoscpio, senhor. No
h nenhum som alarmante, nenhum sinal de fadiga, apenas os
rudos do costume.
  - Ento porque esto to preocupados? - inquiriu Gorov,
indo directamente ao cerne da questo.
  O oficial dos torpedos no respondeu logo, mas acabou por
dizer:
  - Bom, senhor, quando pousamos a mo na chapa... sente-se
uma vibrao estranha.
  -  dos motores.
  A voz do oficial voltou a soar no altifalante:
  - No, senhor.  qualquer outra coisa, mas no sei o qu.
Nunca tinha sentido isto. Penso...
  - Sim?
  - Como?
  - Pensas o qu? - perguntou Gorov. - Vamos, desembucha.
Que pensas que sentes quando pes a mo no ao?
  - Presso.
  Gorov tinha conscincia de que a tripulao da sala de comando
j perdera a sensao de optimismo reservado. Respondeu
para o oficial dos torpedos:
  - Presso? A presso no se sente atravs do ao. Sugiro
que controles a imaginao. No h motivo para pnico. Mantenham
as chapas sob vigilncia.
  Era evidente que o oficial da sala de torpedos esperara outra
reaco. Desanimado, retorquiu:
  - Sim, senhor.
  A face lupina de Zhukov estava distorcida pelo medo mas
tambm pela dvida e ira. Exibia um mosaico de emoes assustadoramente
distintas e fceis de ler. Um primeiro-oficial
necessitava de controlar melhor as suas expresses se quisesse
vir a ser comandante. Falou to baixinho que Gorov teve de se
esforar para o ouvir:
  - Um minsculo furinho, uma estaladela da grossura de
um cabelo no casco de presso... e o navio ser esmagado.
  Era verdade... e podia acontecer numa fraco de segundo.

Tudo teria terminado ainda antes de compreenderem que comeara...
Pelo menos, a morte seria misericordiosamente rpida.
  - Vai tudo correr bem - insistiu Gorov.
  Viu a confuso de lealdade nos olhos do primeiro-oficial e
perguntou a si mesmo se estaria enganado. Deveria fazer subir
o Pogodin algumas dezenas de metros para o aliviar da tremenda
presso sobre o casco, abandonando os cientistas da
Edgeway?
  Pensou em Nikki.
  Era um juiz suficientemente duro para consigo mesmo para
admitir a hiptese de o salvamento da expedio Edgeway se
ter tornado numa obsesso, num acto de expiao pessoal que
no servisse os melhores interesses da sua tripulao. Se era
esse o caso... ento perdera o domnio sobre si mesmo e j
no estava em condies de comandar.
  Interrogou-se: vamos todos morrer por minha causa?

  23.27 HORAS
TRINTA E TRS MINUTOS PARA A DETONAO


  A descida ao longo do fio das comunicaes demonstrou
ser muito mais difcil e cansativa do que Harry Carpenter
esperara.
No tinha tanta experincia de mergulho como Brian e
Roger, apesar de ao longo dos anos j ter usado o equipamento
por vrias vezes e de julgar saber o que iria enfrentar.
No tomara em conta o facto de um mergulhador passar normalmente
a maior parte do seu tempo a nadar num plano mais ou
menos paralelo ao fundo do oceano... enquanto aquela descida,
de cabea para baixo ao longo de um fio de duzentos metros
era perpendicular ao fundo e muito cansativa. De facto,
era inexplicavelmente cansativa porque no existiam razes
fsicas
para que fosse mais difcil do que os outros mergulhos que
realizara. Quase no tinha peso quando se encontrava debaixo
de gua, fosse qual fosse o ngulo, e as barbatanas eram to
teis como se estivesse a nadar paralelo ao fundo. Desconfiava
que aquele cansao especial era em grande parte psicolgico,
mas no conseguia ver-se livre dele. Apesar dos pesos de
chumbo presos  cintura, tinha a sensao de estar constantemente
a combater a tendncia natural para flutuar. Doam-lhe
os braos. Em breve compreendeu que precisava de fazer pausas
peridicas para mudar de posio e colocar a cabea para
cima, a fim de recuperar o equilbrio. Caso contrrio, apesar
de o cansao e de a crescente desorientao serem sem dvida
inteiramente psicolgicos, acabaria por perder os sentidos.
  Na sua frente, Roger Breskin parecia progredir sem esforo.
Deslizava a mo esquerda ao longo do fio das comunicaes
enquanto descia, segurava na lanterna com a direita e
propulsionava-se apenas com ajuda das pernas. A sua tcnica
no era substancialmente diferente da de Harry, mas tinha a
vantagem de uns msculos mais desenvolvidos graas a diligentes
exerccios com pesos.
  Quando sentiu os ombros a ceder, a base do pescoo a
doer e novas correntes de dor ao longo dos braos, Harry desejou
ter passado tanto tempo nos ginsios como o que Roger
gastara nos ltimos vinte anos.
  Olhou por cima do ombro para ver se Brian e Rita estavam
bem. O rapaz seguia-o a uma distncia de cerca de trs metros
e meio, com as feies quase invisveis debaixo da mscara de
mergulho. O seu fato de mergulho libertava erupes de bolhas
que eram, embora por pouco tempo, coloridas de dourado
pelo claro da lmpada de Roger e que desapareciam rapidamente
na escurido l de cima. Apesar de tudo o que tivera
de aguentar nas ltimas horas, parecia no ter dificuldade em
acompanh-los.
  Quase no conseguia ver Rita, que seguia atrs de Brian, e
que era ligeiramente iluminada pela lmpada de George Lin.
Os feixes amarelados eram derrotados pelas guas turvas.
Contra aquele fundo fantasmagoricamente luminoso mas fraco,
Rita no passava de uma sombra ondulante, por vezes to
indistinta e estranha que poderia no ser humana mas sim de
um desconhecido habitante dos mares polares. Harry no tinha
hiptese nenhuma de lhe ver a cara mas sabia que o seu
sofrimento psicolgico - pelo menos - deveria ser grande.
  Criofobia: o medo do gelo.
  A frgida gua do poo era to escura como se tivesse sido
tingida por nuvens de tinta dos polvos, uma vez que estava repleta
de diatomceas, de minsculos fragmentos de gelo e de
partculas inorgnicas. Rita nem sequer conseguia ver o gelo
que ficava apenas a seis metros dela, em todas as direces,
mas tinha uma aguda conscincia da sua existncia. Por vezes,
o seu medo era to avassalador que o peito lhe inchava, a garganta
se lhe apertava e era incapaz de respirar. Contudo, sempre
que isso lhe acontecia, quando estava j  beira de um pnico
cego, acabava por exalar explosivamente, aspirava a
mistura de gases com um sabor metlico e escapava  histeria.
  Frigofobia: o medo do frio. No sentia qualquer espcie de
frio no fato de mergulho dos Russos. Na verdade, estava mais
quente do que em qualquer outro momento dos ltimos meses,
desde que tinham chegado aos gelos polares e montado a
Estao Edgeway. Mesmo assim, continuava a ter a inevitvel
conscincia do frio mortal da gua, de que estava separada
apenas por uma fina camada de borracha e de isolamentos
electrificados. A tecnologia russa era impressionante... mas
se as baterias que levava nas ancas se esgotassem antes de
atingir o submarino, o calor do seu corpo escapar-se-ia rapidamente.
O insistente frio do mar insinuar-se-ia nos msculos e na medula,
torturando-lhe o corpo e entorpecendo-lhe a mente...
  Para baixo, sempre para baixo, envolta por um frio que
no podia sentir. Rodeada por gelos que no podia ver. Por
paredes curvas e brancas, fora das vistas,  esquerda, 
direita,
por cima, por baixo,  frente e atrs. Rodeando-a e prendendo-a.
Um poo de gelo. Uma priso de gelo, cheia de escurido
e de um frio amargo, silenciosa, para alm do sussurro da
sua respirao e das pancadas do corao. Inultrapassvel.
Mais profunda do que um tmulo.
  Enquanto nadava para as profundezas desconhecidas, Rita
por vezes tinha uma menor conscincia da luz que seguia  sua
frente porque regressava repetidamente quele Inverno em
que tivera apenas seis anos.
  "Feliz. Excitada. A caminho das suas primeiras frias de
esqui nas montanhas, na companhia do pai e da me, ambos
com muita experincia nas vertentes e ansiosos por l chegarem.
O carro  um Audi. A me e o pai vo  frente e ela est
sozinha no banco traseiro. Sobem para reinos fantsticos e cada
vez mais brancos. Uma estrada serpenteante nos Alpes
Franceses. Uma terra de maravilhoso alabastro, que os rodeia
por todos os lados e por baixo, com panoramas espectaculares
de florestas sempre verdes cobertas de neve, salincias rochosas
pairando no alto como rostos idosos de deuses vigilantes
com barbas de gelos. Gordos flocos brancos que comeam subitamente
a cair do cu da tarde, um cu cor de ao. Ela  filha
do Mediterrneo Italiano, do sol, dos olivais, do oceano
brilhante, e nunca antes vira as montanhas. Agora, a aventura
faz vibrar o seu jovem corao. E tudo to belo: a neve, a
terra
ngreme os vales cobertos de rvores e de sombras prpura,
salpicadas por pequenas aldeias. Mesmo quando a morte
surge, de repente, traz consigo uma beleza terrvel,
resplandecente,
vestida de branco. A me  a primeira a ver a avalancha
l no alto,  direita da estrada... e solta um grito de
alerta. Rita
olha pela janela lateral, v a grande muralha branca no cimo
da montanha, deslizando, crescendo to rapidamente como
uma onda de tempestade atravessando o oceano em
direco  costa,lanando nuvens de neve que parece a espuma
do mar, inicialmente silenciosa, to silenciosa e branca
que no pode acreditar que lhe possa vir a fazer mal. O pai diz:
"Podemos andar mais depressa do que ela", mas parece assustado
quando carrega no acelerador, e a me insiste: "Depressa,
por amor de Deus, mais depressa", e aquela coisa continua
a descer, silenciosa, branca, enorme, resplandecente, maior de
segundo a segundo... silenciosa... at que se comea a ouvir
um rumor quase indistinto... como uma trovoada ao longe..."

  Rita escuta estranhos sons. Vozes ocas e distantes. Gritando
ou lamentando-se. So como as vozes dos malditos implorando
que os libertem do sofrimento, provenientes do ter por
cima de uma mesa de espiritismo.
  Depois compreendeu que se tratava apenas de uma voz.
A sua. Emitia sons de pnico para dentro da mscara, mas como
os ouvidos no se encontravam dentro da mscara ouvia os
seus prprios gritos atravs da estrutura ssea da face. Se
pareciam os lamentos de almas amaldioadas... isso era porque o
Inferno, naquele momento, era um lugar dentro dela prpria,
um recanto escuro do seu corao.
  Olhou para l de Brian, concentrando-se na forma sombria
que se encontrava mais longe, ao longo do fio. Harry. Era
quase invisvel, agitando as pernas, descendo para o vazio negro...
ali to perto mas to distante. Rita estava a trs ou
quatro metros de Brian. Contando com um metro e oitenta para
Brian e talvez trs metros e meio entre ele e Harry... tinha
cerca de nove metros e meio a separ-la do marido. Enquanto
pensasse em Harry e mantivesse em mente os bons tempos que
iriam passar juntos quando aquela provao terminasse, poderia
deixar de gritar para dentro da mscara e continuar a nadar.
Paris. Hotel George V. Uma garrafa de bom champanhe.
Os beijos. O toque dele. Partilhariam mais uma vez todas essas
coisas se no permitisse que os seus medos a dominassem.

  Harry olhou para trs, para Rita. Continuava onde deveria
estar, seguindo Brian ao longo do fio das comunicaes.
  Virando-se para a frente, disse a si mesmo que se preocupava
excessivamente com Rita. Em geral, dizia-se que as
mulheres tinham mais resistncia do que os homens. Era verdade,
muito em especial no caso daquela mulher.
  Sorriu para si mesmo e disse: "Aguenta-te", como se ela o
pudesse ouvir.
   frente de Harry, quando talvez j tivessem percorrido
quarenta e cinco metros do escuro poo, Roger Breskin parou
finalmente para descansar. Executou uma reviravolta como se
participasse num ballet aqutico, de maneira a ficar virado
para
Harry, numa posio mais natural: de cabea para cima.

  Cinco metros atrs dele, Harry tambm parou e preparava-se
para se virar ao contrrio quando a lmpada de Roger se
apagou. Ainda havia duas lanternas a brilharem por trs de
Harry mas as suas luzes eram difusas por causa da gua turva e
no o iluminavam, nem a Roger. Ficou envolto em escurido.
  Um instante depois, Breskin colidia com ele. Harry no
conseguiu manter-se agarrado ao fio das comunicaes. Caram
s cambalhotas, para baixo e em ngulo em relao s paredes
do poo. Por instantes, Harry no compreendeu o que
se estava a passar... mas a seguir sentiu a mo do outro a
agarrar-lhe
o pescoo e soube que ia ter problemas. Investiu
contra
Breskin, com toda a fora de que era capaz, mas a gua amortecia
a energia dos seus murros e transformava-os em pancadas
amistosas.
  A mo de Berskin cerrava-se com fora em volta da garganta
de Harry. Este tentou afastar a cabea e libertar-se,
mas
debalde: o halterofilista tinha dedos de ferro.
  Breskin atirou o joelho contra o estmago de Harry, mas a
gua virou-se contra ele, atenuando o golpe.
  Mais rapidamente do que esperara - e com mais fora as
costas de Harry embateram na parede do poo e a dor percorreu-o
ao longo da espinha. O outro homem, muito mais
corpulento, apertou-o de encontro ao gelo.
  As duas lmpadas restantes - uma nas mos de George e
outra na de Pete - encontravam-se muito para cima e cerca
de seis metros mais para o centro do poo, no passando de
vagas manchas luminosas no meio das guas turvas. Na prtica,
Harry estava como cego. No conseguia ver o seu assaltante
mesmo a curta distncia.
  A mo que lhe apertava a garganta deslizou mais para cima
e comeou por apalpar-lhe o queixo... para depois lhe arrancar
a mscara da cara.
  Com aquele golpe estratgico, Harry ficara sem possibilidade
de respirar e sem a pouca viso de que dispusera at a,
alm de ter ficado exposto ao frio assassino. Impotente, desorientado,
j no constitua uma ameaa para Breskin, que o
largou.
  O frio era como um punhado de pregos espetados no rosto
e o calor corporal parecia perder-se por ali como se fosse um
lquido quente a escoar-se pelos furos abertos na pele.
  Aterrorizado,  beira do pnico mas consciente de que este
podia ser a sua morte, Harry rolou na escurido, procurando
atrs das costas a preciosa mscara que flutuava na extremidade
do tubo do ar.

  Rita compreendeu o que estava errado apenas um segundo
depois de a lmpada que seguia  frente do grupo se ter apagado.
Breskin era o candidato a assassino de Brian Dougherty.
Um segundo depois disso, soube o que tinha de fazer.
  Apesar de no poder ver Harry ou Breskin na escurido l
em baixo, estava certa de que os dois homens lutavam pela vida.
Por muito resistente que fosse, Harry no tinha qualquer
possibilidade contra um mergulhador experiente. Comeou
por avanar em sua ajuda, mas a ideia era estpida e rejeitou-a
imediatamente. Emocionalmente sentia-se puxada para
Harry... mas no ousava perder o controlo das suas emoes
ou poderiam vir a morrer todos. Se Harry no tinha hipteses
contra Breskin... ento ela tambm no. O melhor que havia a
fazer era confiar que Harry, de um ou de outro modo, conseguiria
sobreviver enquanto ela desaparecia na escurido, afastando-se
do fio das comunicaes e aguardando a sua oportunidade,
preparada para aparecer por detrs de Breskin quando
este se atirasse a Brian.
  Largou a linha e nadou para fora da luz ambarina da lmpada
de George Lin, luz que decerto permitiria que Breskin
visse a sua silhueta. Rezando para que George no a seguisse
e no revelasse a sua posio, depressa chocou com a parede
do poo, a suave curva do... gelo.

  "O murmrio transforma-se num rugido e o pai volta a dizer:
"Podemos andar mais depressa do que ela", mas as suas
palavras eram agora mais uma orao do que uma promessa.
A grande muralha branca desce, desce, desce e a me grita..."
  Rita afastou de si o passado e lutou por reprimir o medo
do gelo a que estava encostada. Aquela parede no ia cair em
cima dela. Era slida, e tinha dezenas de metros de espessura
- pelo menos at que as cargas explosivas detonassem  meia-noite
-, e no estava sujeita a presses suficientemente
grandes
para a fazerem implodir.
  Dando meia volta, encostou as costas  parede e olhou na
direco da agitao ao longo do fio das comunicaes. Deslocando
a gua com as barbatanas e pousando uma das mos
com firmeza na superfcie gelada, Rita conseguiu resistir ao
constante impulso para baixo provocado pelos pesos que transportava
 cintura.
  O gelo no era uma coisa viva, no era uma entidade consciente.
Sabia-o muito bem... mas no entanto sentia que o gelo
a queria. Pressentia-lhe a ansiedade, a fome, a convico de
que ela lhe pertencia. No ficaria surpreendida se se abrisse
uma boca na parede, por baixo da sua mo, para lha morder e
arrancar-lha do pulso... ou para se abrir ainda mais e
engoli-la
inteira.
  Chegou-lhe o gosto a sangue. Debatia-se tanto para controlar

o seu terror que acabara por morder o lbio inferior. A
dor e o sabor metlico a cobre e a sal ajudaram-na a aclarar a
mente e a foc-la na verdadeira ameaa contra a sua vida.
  Roger Breskin surgiu no centro do tnel vindo das profundezas
negras e penetrando na vaga luz da lanterna de George
Lin.
  Harry desaparecera no abismo l em baixo, que de repente
lhe parecia estender-se no apenas por algumas centenas de
metros mas tambm por toda uma eternidade.
  Breskin foi direito a Brian.
  Era claro que Brian comeara naquele momento a compreender
o que se estava a passar. Nunca se conseguiria mover
suficientemente depressa para escapar a Breskin, no obstante
ser um mergulhador experimentado.
  Rita afastou-se da parede e foi atrs do atacante, desejando
ter uma arma e esperando que o elemento de surpresa lhe
desse a vantagem de que necessitava.

  Quando Brian viu Roger Breskin subir das profundezas
sem luz como se fosse um tubaro, recordou-se das palavras
trocadas horas antes entre os dois, quando tinham salvo George
Lin do rebordo no flanco do icebergue. Brian fora puxado
de volta ao alto da falsia, tremendo, abalado, e enfraquecido

de  alvio:
  Incrvel.
  De que ests a falar?
  No esperava safar-me desta.
  No tinhas confiana em mim?
  No  isso. Estive sempre  espera que a corda se partisse,
que o gelo cedesse... ou qualquer coisa do mesmo gnero.
  Vais morrer... mas no era este o sitio, nem o momento.
  Brian pensara que Roger estava a ser invulgarmente filosfico...
mas agora compreendia que fora uma ameaa clara,
uma promessa de violncia sentida no fundo do corao.
  Talvez Breskin no quisesse que George Lin fosse testemunha
ou no o tivesse atacado mais cedo por causa de outro
qualquer motivo, louco e inexplicvel. Desta vez tinha mais do
que uma testemunha mas parecia no se importar.
  Enquanto aquela conversa se desenrolava mais uma vez no
crebro de Brian, este tentara afastar-se de Roger e
dirigir-se
para as paredes do poo mas acabaram por colidir um com o
outro e mergulharam para a escurido. Breskin rodeou Brian
com as poderosas pernas, prendendo-o como se fossem as pinas
de um caranguejo. Depois, Brian sentiu a mo na garganta.
E na mscara. No!

  George Lin pensou que mergulhadores russos, vindos do
submarino, os estavam a atacar.
  George soubera, desde o momento em que os Russos se tinham
oferecido para os ajudarem, que tinham um qualquer
truque na manga. Tentara imaginar o que este poderia ser,
mas nunca pensara naquilo: um acto de traio assassina nas
profundezas do poo. Para que se dariam a tanto trabalho para
matarem um grupo de cientistas ocidentais que j estavam
destinados a serem feitos em bocados por uma exploso ou a
mergulharem num mar gelado,  meia-noite? No fazia sentido
era uma loucura intil... Porm, por outro lado, sabia que
nada do que os comunistas tinham feito fazia sentido, fosse
qual fosse o lugar do mundo, a Rssia, a China ou qualquer
outro, e em nenhum momento do seu reinado de terror. A sua
ideologia nada mais era do que uma louca fome de poder sem
limites, as polticas eram uma religio de culto divorciada da
moralidade e da razo... enquanto as pilhagens sangrentas e a
crueldade sem limites nunca poderiam ser compreendidas por
algum que no pertencesse  sua enlouquecida faco.
  Preferia nadar de volta ao cimo do poo, trepar para fora
da gua, voltar ao alto dos gelos, procurar uma das cargas explosivas
e deitar-se em cima dela... deixando que a exploso
da meia-noite o desfizesse, porque seria uma morte mais limpa
do que s mos daquela gente. Todavia, no era capaz de se
mexer. Tinha a mo esquerda apertada com tanta fora em
volta do fio das comunicaes que era como se as duas coisas
estivessem soldadas uma  outra. A mo direita segurava a
lanterna to firmemente que os dedos lhe doam.
  Esperava morrer, tal como a irm morrera. Tal como a
me morrera. Tal como o av e a av tinham morrido. O passado
saltara para a frente para dominar o presente.
  Fora um louco ao acreditar que escapara aos horrores da
infncia. No fim, nenhum cordeiro escapava  matana.

  O tubo do ar oscilava ao lado da cabea de Harry com a
mscara de mergulho pendurada na extremidade, flutuando

por cima dele. Puxou a mscara para baixo e colocou-a no rosto.
Estava cheia de gua e no ousou respirar imediatamente
apesar de sentir os pulmes em fogo. Quando levantou um
canto do rebordo de borracha, o influxo da mistura de oxignio
e hlio forou a gua para fora da mscara. Depois da
gua expulsa, voltou a comprimir a borracha contra o rosto e
aspirou fundo, uma vez, duas vezes, trs vezes, cuspindo, engasgando-se
e ofegando de alvio. O cheiro levemente estranho
e o sabor do gs eram mais deliciosos do que tudo o que
comera ou bebera durante toda a sua vida. Tinha o peito magoado,
ardiam-lhe os olhos e a dor de cabea era to violenta
que o crnio parecia prestes a rebentar. Desejava ficar ali,
onde
estava, suspenso no tenebroso mar, recuperando do ataque...
mas pensou em Rita e nadou para cima, na direco das
duas luzes restantes e de um tumulto de sombras.

  Brian agarrou o punho esquerdo de Breskin com as duas
mos e tentou afastar a mo de ao do homem do seu rosto,
mas no foi capaz. A mscara foi-lhe arrancada.
  O ar estava mais frio do que a temperatura de congelao
da gua mas no gelara por causa do seu contedo em sal.
Quando lhe atingiu as faces, o choque foi quase to doloroso
como ter um maarico a arder apontado para a pele.
  Mesmo assim, reagiu to calmamente que se surpreendeu a
si mesmo. Fechou as plpebras antes de a gua lhe congelar
instantaneamente os tecidos superficiais dos globos oculares,
cerrou os dentes e conseguiu no respirar, nem pela boca nem
pelo nariz.
  No aguentaria durante muito tempo. Um minuto. Um minuto
e meio. A seguir respiraria de um modo involuntrio e
espasmdico...
  Breskin apertou as pernas com mais fora em volta da cintura

de Brian, meteu os dedos cobertos de borracha entre os
lbios cerrados da sua vtima e tentou abrir-lhe a boca.

  Rita nadou por detrs e por cima de Roger Breskin, sob a
luz amarelada e cida da lanterna que George segurava na
mo. Deslizou para as costas de Breskin e envolveu-lhe a cintura
nas suas compridas pernas tal como ele fizera com Brian.
  Com os reflexos aguados - e no abafados - pelo seu
frenesim de manaco, Breskin largou Brian e agarrou Rita pelos
tornozelos.
  Esta sentia-se como se estivesse a montar um cavalo selvagem.
Contorcia-se e saltava como uma besta poderosa mas tinha-o
bem preso nas coxas e estendeu as mos para a mscara
do homem.
  Pressentindo a sua inteno, louco mas no estpido, Breskin
libertou-lhe os tornozelos e prendeu-a pelos pulsos quando
as mos de Rita tocaram no vidro da mscara. Enrolou-se para
a frente, bateu com as barbatanas e executou uma cambalhota.
Rolando na gua, arrancou-lhe as mos do rosto e utilizou a
dinmica do mar para conseguir um impulso que ela no conseguiria
combater, atirando-a para longe. Rita pontapeou ferozmente
enquanto se afastava, na esperana de atingir o louco,
mas os seus pontaps no lhe acertaram.
  Quando voltou a orientar-se, viu que Pete e Franz se tinham
lanado contra Breskin. Franz debatia-se para o manter
seguro enquanto Pete tentava agarrar um dos braos do homem
enfurecido.
  Contudo, Breskin era um mergulhador treinado e eles no.
Mostravam-se lentos, desajeitados, confundidos pela fsica de
ausncia de gravidade do reino em que lutavam... enquanto
Breskin se contorcia como uma enguia, rpido e ligeiro, com
uma fora assustadora,  vontade nas guas profundas. Libertou-se,
atingiu o rosto de Pete com o cotovelo, arrancou-lhe a
mscara por cima da cabea e serviu-se dela para bater em
Franz.
  Brian estava agarrado ao fio, quatro metros e meio abaixo
de Lin. Claude fazia-lhe companhia. O Francs segurava na
lanterna de Pete com uma das mos e servia-se da mo livre
para firmar Brian enquanto o rapaz tirava a gua da sua mscara.

  Afastando-se de Pete e Franz enquanto estes se agitavam
na gua, desorientados, Breskin lanou-se novamente na direco
de Brian.
  Rita deu por um movimento pelo canto dos olhos, virou a
cabea e viu Harry a subir da escurido.

  Harry sabia que Breskin no notara a sua aproximao.
Certo de que anulara temporariamente toda a oposio, o
enorme homem deu meia volta, afastou-se de Franz e Peter,
bateu as pernas com toda a sua fora e atirou-se directamente
contra a sua presa preferida. Sem dvida que tinha a certeza
de que conseguiria lidar rapidamente com um homem da idade
de Claude e acabar com Brian antes de este limpar a mscara
e conseguir respirar outra vez.

256

  Subindo na gua por baixo de Breskin, Harry podia ter colidido

com ele, afastando-o de Brian. Todavia, desviou-se para
um lado, passou para l do louco e agarrou o tubo que lhe ligava
a mscara  botija de gs. Harry bateu as barbatanas com
fora, continuou em frente, arrancando o tubo da vlvula de
alimentao no topo do tanque. Como ele e Breskin se moviam
em direces diferentes, o tubo tambm se soltou da
mscara de mergulho.

  A gua gelada no entrou na mscara de Roger quando o
tubo se soltou. Devia estar equipada com uma vlvula de segurana.

  Procurou o tubo com a mo e compreendeu que o mesmo
fora arrancado no s da mscara como da botija que transportava
nas costas. Desaparecera e no podia voltar a ser ligado.

  Alarmado, bateu as pernas e dirigiu-se para a boca do poo
to depressa quanto podia. A sua nica esperana estava em
conseguir atingir a superfcie.
  A seguir recordou-se de que o lago, dentro da caverna em
cpula, estava a mais de quarenta e cinco metros de distncia.
Como nunca conseguiria atingi-lo com o cinto de chumbo a
pux-lo para baixo, remexeu na cintura, tentando libertar-se
daquele peso incomodativo. Contudo, o fecho no se encontrava
onde deveria estar... O maldito equipamento fora feito
pelos Russos e Breskin estava a utiliz-lo pela primeira vez.
  Roger deixou de bater as barbatanas para se poder concentrar
na procura do fecho. Comeou imediatamente a afundar-se
no poo, muito devagar. Apalpou e torceu o cinto mas no
encontrava o fecho... Jesus, Deus Todo-Poderoso, no o encontrava...
e soube que desperdiara muito tempo, que no
podia perder mais um segundo e tinha de atingir a superfcie
mesmo carregado com o pesado cinto. De braos estendidos
ao lado do corpo, tentando ser to fino como uma seta, reduzindo
tanto quanto possvel a resistncia  gua, batendo os
ps de um modo firme e rtmico, avanou para o alto, sempre
para o alto. Doa-lhe o peito, o corao pulsava como se fosse
explodir e j no conseguia resistir  necessidade de
respirar.
Abriu a boca, exalou o ar com fora, inalou desesperadamente...
mas j no havia nada para respirar excepto os magros
restos de ar que acabara de expelir dos pulmes, ainda mais
escassos quando os voltou a exalar. Tinha os pulmes em brasa
e sabia que a escurido  sua volta j no era a do tnel mas
sim uma escurido por detrs dos olhos. Perderia a conscincia
se no respirasse... e morreria se perdesse a conscincia. Por
isso, arrancou a mscara do rosto e aspirou sofregamente o ar
da maldita caverna... s que nem sequer estava perto da caverna,
 claro... - o que o levara a imaginar que chegara  superfcie?
Como pudera ser to estpido? - e inalou uma gua
to fria que lhe provocou uma violenta dor de dentes. Fechou
a boca, sufocado... mas acabou por tentar respirar outra vez.
S havia ali mais gua, nada mais do que gua. Rasgava-a com
as duas mos, como se se tratasse apenas de uma fina cortina
que pudesse perfurar para conseguir o abenoado ar que se
encontrava do outro lado. S ento compreendeu que no estava
a nadar e que era puxado para o fundo pelos pesos. Tambm
j no rasgava a gua... descia, sempre mais para baixo, e
parecia-lhe ter mais pesos de chumbo dentro do peito do que
em volta da cintura...
  Viu que a morte no tinha o rosto de uma caveira nem de
um homem. A morte era uma mulher. Uma mulher plida e
de feies duras... no sem alguma beleza. Os seus olhos eram
de um encantador cinzento translcido. Roger estudou-lhe o
rosto quando este surgiu nas guas  sua frente... e
apercebeu-se
que era o da me, que tantas coisas lhe ensinara e em
cujos braos ouvira dizer pela primeira vez que o mundo era um lugar
hostil onde as pessoas de uma maldade excepcional governavam
secretamente os homens e as mulheres vulgares por intermdio
de conspiraes interligadas, sem outra inteno que
no a de quebrar o esprito de liberdade de todos os que as
desafiassem.
Agora, apesar de Roger se ter feito forte para
resistir aos conspiradores, se alguma vez o viessem a perseguir, e
no obstante ter-se dedicado aos estudos e tirado dois cursos
superiores para ter conhecimentos suficientes para os
iludir...
acabavam de o vencer. Venciam, tal como a me sempre lhe
dissera que aconteceria, tal como sempre acontecia. Porm,
perder no era assim to terrvel. Havia uma paz na derrota.
A morte de cabelos cinzentos e olhos cinzentos sorria para
ele.
Desejava beij-la e ela tomou-o nos seus braos maternais.

  Harry ficou a olhar enquanto o cadver, com os pulmes
cheios de gua e carregado com os pesos de chumbo  cintura,
deslizava por eles na sua viagem para o fundo do mar. A botija
do morto libertava um jacto de bolhas de ar.

  23.37 HORAS
VINTE E TRS MINUTOS PARA A DETONAO


  A tenso aguara a mente de Nikita Gorov e forava-o a
enfrentar uma verdade desagradvel mas inegvel. Agora compreendia
que os loucos e os heris estavam separados por uma
linha to fina que era praticamente invisvel. Pretendera ser
um heri. Para qu? Para quem? Para um filho morto? O herosmo
no podia modificar o passado. Nikki estava morto e
enterrado. Morto! Por outro lado, a tripulao do Ilya Pogodin,
os setenta e nove homens sob o seu comando - estava viva
e bem viva. Encontravam-se  sua responsabilidade. Era
imperdovel ter arriscado a sua vida apenas porque, de uma
qualquer maneira estranha, desejara cumprir uma obrigao
para com o filho morto. Brincara aos heris... e fora apenas
um louco.
  Independentemente do perigo e do que deveria ter feito, o
submarino estava agora comprometido com a misso de salvamento.
No podia abandon-la quando se encontrava to perto
do xito... a no ser que as duas anteparas que "suavam"
comeassem a dar sinais de deteriorao estrutural. Metera os
seus homens naquilo e cabia-lhe tir-los dali de um modo que
lhes salvasse a pele sem os humilhar. Homens de tanta coragem
no mereciam ser humilhados com um falhano... mas ficariam
muito mais humilhados, aos seus prprios olhos, se metessem
o rabo entre as pernas e fugissem sem bons motivos.

Brincara aos heris... mas agora desejava apenas transform-los
- a eles - em heris aos olhos do mundo e lev-los para
casa em segurana.
  - Alguma alterao? - perguntou ao jovem tcnico que
estudava o profundmetro de superfcie.
  - No, senhor. Os mergulhadores esto parados. No desceram
meio metro nos ltimos minutos.
  O comandante olhou para o tecto como se pudesse ver
atravs do casco duplo, at ao alto do profundo poo. Que estariam
a fazer l em cima? Que teria corrido mal?
  - No compreendem que o tempo est a acabar? - disse
Zhukov. - Quando aqueles explosivos rebentarem com os
gelos,  meia-noite, no podemos ficar aqui. Temos de estar
longe.
  Gorov observou os monitores. Olhou para o relgio. Afagou
a barba e respondeu:
  - Se no comearem a mexer-se nos prximos cinco minutos,
teremos de nos afastar. Um minuto mais... e no conseguiro
entrar a bordo antes da meia-noite.

  23.38 horas.
  Rita nadou para Claude e abraou-o. O homem devolveu-lhe
o abrao. Rita tinha os olhos brilhantes de lgrimas.
  Encostaram os vidros das mscaras um ao outro. Quando
Rita falou, Claude conseguiu ouvi-la como se a mulher se encontrasse
noutro quarto. O Plexiglas transmitia o som
relativamente bem.
  - O Brian no sofreu uma queda. Foi atacado e abandonado
no gelo, para morrer. No sabamos quem o tinha feito...
at este momento.
  Quando Rita terminou, Claude respondeu:
  - Perguntei a mim mesmo que diabo se estava a passar.
Quis ajudar a domin-lo mas o Peter meteu-me a lanterna nas
mos e afastou-me. De sbito, senti que era um velho...
  - Ainda nem sequer tens sessenta...
  - Ento... senti-me mais velho do que sou.

  - Vamos continuar a descida - disse Rita. - Entregarei
a lanterna ao Pete.
  - Ele est bem?
  - Sim. Ficou com o nariz a sangrar quando lhe arrancaram
a mscara. Vai conseguir.
  - Que aconteceu ao George?
  - Suponho que est em choque. Harry foi explicar-lhe o
que se passou com o Roger.
  - Tens lgrimas nas faces.
  - Eu sei.
  - Que se passa?
  - Nada. O Harry est vivo.

  Quando comeou a nadar atrs de Claude Jobert, ao longo
do fio, Franz pensou no que iria dizer a Rita quando atingissem
o outro lado da meia-noite.

  "Portaste-te muito bem. s espantosa. Sabes, outrora
amei-te. Que diabo, ainda te amo. Nunca te consegui esquecer.
Aprendi muito contigo, quer isso fosse aparente, quer
no... Sim, continuo a ser um burro, admito-o, mas estou a
crescer a pouco e pouco. Os velhos hbitos custam a morrer.
Comportei-me como um idiota nestes ltimos meses, fui desagradvel
para com o Harry e distante para contigo. Todavia,
isso acabou. Nunca mais poderemos ser amantes. Vejo o que
existe entre ti e o Harry.  uma coisa nica, mais do que tu e
eu jamais poderamos vir a ter. Contudo, gostaria que fssemos
amigos.,
  Rezava a Deus poder sobreviver para ter a oportunidade
de dizer tudo aquilo.

  23.40 horas
  Brian nadava ao longo do fio.
  No estava muito preocupado com as bombas que tinha
por cima da cabea. A pouco e pouco, ficava cada vez mais
convicto de que ele e os outros chegariam ao submarino e sobreviveriam
s exploses. Agarrado pelas garras da obsesso
de que Rita lhe falara, preocupava-se com o livro que pretendia
escrever.
  O tema seria, definitivamente, o herosmo. Acabara por
compreender que o mesmo tinha duas formas. Uma delas era
a do herosmo que se procurava conscientemente, tal como
acontecia quando um homem trepava a uma montanha ou desafiava
um touro furioso numa das arenas de Madrid. Era um
tipo de herosmo importante porque um homem precisava de
saber quais eram os seus limites. Contudo, era muito menos
valioso do que o herosmo no procurado. Harry, Rita e os outros
tinham posto a vida em risco com o seu trabalho porque
acreditavam que este iria contribuir para uma melhoria da condio
humana e no por quererem testar-se a si mesmos. Contudo,
apesar de com certeza o negarem, eram heris em cada
dia da semana. Eram heris  maneira dos polcias e dos bombeiros,
 maneira de milhes de mes e de pais que tomavam
sobre si a tremenda responsabilidade de suportar as famlias e
educarem as crianas para virem a ser bons cidados. Eram
heris  maneira dos sacerdotes que ousavam falar de Deus
num mundo que acabara por duvidar da Sua existncia e que
troava daqueles que acreditavam,  maneira de muitos professores
que iam para escolas abaladas pela violncia e que mesmo
assim tentavam ensinar aos garotos tudo aquilo de que
iriam necessitar para sobreviver num mundo que no tinha
piedade pelos incultos. A primeira forma de herosmo - o herosmo
procurado - tinha uma distinta qualidade egosta,
qualidade que no se encontrava no herosmo no procurado.
Brian compreendia agora que este ltimo herosmo - e no as
vs glrias da poltica ou das touradas - representava a
verdadeira coragem e as virtudes mais profundas. Quando acabasse
de escrever o livro, quando trabalhasse todas as suas ideias
a respeito do assunto, estaria finalmente pronto para iniciar
a sua vida de adulto... e o herosmo tranquilo iria ser o seu
tema.

  23.41 horas.
  O tcnico levantou os olhos do profundmetro de superfcie.

  - Esto outra vez em movimento.
  - A descer? - perguntou Gorov.
  - Sim, senhor.
  O altifalante levou-lhes a voz do oficial da sala dos torpedos,
que denotava novo tom de urgncia.
  Pegando no microfone com tanto cuidado como se estivesse
a agarrar uma serpente, Gorov disse:
  - Informem.
  - J temos muito mais gua no convs, comandante. Parece
ser cerca de um litro ou dois. A antepara da frente est a
"suar" a toda a altura, desde o tecto ao convs.
  - H distores na linha de rebites?
  - No, senhor.
  - Ouviram alguma coisa de anormal com o estetoscpio?
  - No, senhor.
  - Saremos daqui dentro de dez minutos - afirmou
Gorov.

  Nalguns stios o poo estreitava o suficiente para que a luz
da lanterna se reflectisse nos gelos. Nessas ocasies, o facto
de estarem aprisionados no podia ser posto de lado com tanta
facilidade como quando se viam rodeados de escurido.
  Rita balanava continuamente entre o passado e o presente,
entre a morte e a vida, entre a coragem e a cobardia.
Estava sempre  espera, minuto a minuto, que a sua agitao ntima
chegasse ao fim. Todavia, tornava-se pior.

  Um grupo de rvores dispersas manchava a ngreme vertente
por cima da estrada alpina. No se tratava de uma floresta
densa,
mas talvez constituisse uma barreira capaz de quebrar a
fora da avalancha e deter a tremenda torrente de neve, uma vez
que era formada por altas rvores de folhagem perene, antigas
e resistentes. A mar branca atingiu as rvores, que se partiram
como se fossem fsforos. A me grita, o pai grita e Rita no
consegue desviar os olhos daquela vaga de neve com trinta metros
de altura que vai crescendo, que desaparece, enorme, no
cu de Inverno, como se fosse a face de Deus. A monstruosidade
atinge o Audi, vira o automvel, empurra-o para o outro lado
da estrada, ergue-se por baixo dele, fazendo-o saltar por
cima
da barreira de proteco da estrada, atirando-o para uma
ravina. H brancura a envolv-lo por todo o lado. O carro rola,
vira-se, uma vez, duas vezes... e depois comea a deslizar
de lado, para baixo, para baixo... Ressalta numa rvore e
desliza,
arrastado pelo grande rio de neve. Sofre um impacte, e mais
outro. O pra-brisas rebenta para o interior e segue-se o
silncio...
 um silncio mais profundo do que o silncio de uma
igreja deserta.
  Rita libertou-se daquelas recordaes, soltando patticos
sons de terror, sem qualquer significado.
  George Lin incitava-a a avanar.
  Rita deixara de nadar.
  Praguejando contra si mesma, bateu as barbatanas e continuou
a descida.

  23.43 horas.
  A cerca de cem metros de profundidade, aps terem feito
pouco mais de metade da distncia at ao Ilyia Pogodin, Harry
comeou a duvidar que fossem capazes de ir at ao fim. Tinha
conscincia da presso incrvel, em especial porque os seus
tmpanos estavam sempre a manifestar-se. O rugido do sangue
a correr-lhe pelas veias e artrias era trovejante. Imaginava
que conseguia ouvir vozes distantes, vozes de fadas, mas as
palavras no faziam sentido e calculava que ficaria com um verdadeiro
problema quando compreendesse o que elas diziam.
Perguntava a si mesmo se, tal como um submarino, poderia
ser esmagado pela presso e transformado numa massa achatada
de sangue e ossos.
  Anteriormente, pelo rdio de ondas curtas, o tenente Timoshenko
fornecera-lhes vrias provas em como a descida podia
ser efectuada com xito, e Harry no cessava de repetir
duas delas para si mesmo: no lago Maggiore, em 1961, mergulhadores
suos e americanos haviam atingido os duzentos e
vinte metros com equipamento de mergulho. Lago Maggiore.
Duzentos e vinte metros. 1961. Mergulhadores suos e americanos.
Em 1990, mergulhadores russos com equipamento mais
moderno tinham ido at aos... Esquecera-se, mas fora muito
mais fundo do que no lago Maggiore. Suos, americanos, russos...
Podia ser feito. Pelo menos por mergulhadores
profissionais
bem equipados.
  Cento e vinte metros.

  23.44 horas.
  Seguindo o fio para o interior do poo, George Lin disse
para si mesmo que os Russos j no eram comunistas. Ou que,
pelo menos, os comunistas j no governavam. Por enquanto.
Talvez voltassem ao poder um dia, no futuro. O mal nunca
morria. Porm, os homens do submarino estavam a arriscar a
sua vida e no o faziam com motivos sinistros. Tentou convencer-se
a si mesmo, mas a coisa era difcil de engolir porque
vivera demasiados anos com medo da mar vermelha.
  Canto. Outono de 1949. Trs semanas antes de Chiang
Kai-shek ter sido expulso do continente. O pai de George estivera
fora, fazendo preparativos para levar a famlia e os poucos
bens que lhes restavam para a ilha-nao de Taiwan. Estavam
mais quatro outras pessoas na casa: a av, o av, a me e
a irm de onze anos, Yun-ti. De madrugada, um contingente
de guerrilheiros maoistas,  procura do pai, tinha invadido a
casa. Nove homens fortemente armados. A me conseguira escond-lo
no interior de uma lareira, por detrs de uma pesada
rede de ferro. Yun-ti escondera-se em qualquer lado mas os
homens tinham-na descoberto. Enquanto George espreitava
de dentro da lareira, os avs haviam sido espancados, postos
de joelhos e mortos com tiros na cabea. Os miolos tinham-se
espalhado pelas paredes. Nessa mesma sala, a me e a irm
haviam sido repetidamente violadas pelos nove homens. Haviam
sido sujeitas a todas as degradaes e humilhaes.
George fora uma criana, ainda nem sequer fizera sete anos.
Pequeno, aterrorizado e impotente. Os guerrilheiros ficaram
na casa at s trs horas da manh seguinte,  espera do pai.
Quando finalmente se foram embora, cortaram a garganta de
Yun-ti e depois a da me. Tanto sangue... O pai chegara doze
horas depois... e encontrara George ainda escondido na lareira,
incapaz de falar. Permanecera silencioso mais de trs dias
depois de terem fugido para Taiwan. Por fim, quando quebrara
o silncio, comeara por pronunciar os nomes da me e da
irm. Pronunciara-os e chorara, inconsolvel, at que aparecera
um mdico que lhe administrara um sedativo.
  De qualquer modo, os homens do submarino, l em baixo,
eram Russos e no Chineses... e j no eram comunistas. Talvez
nunca tivessem sido verdadeiros comunistas. No fim de
contas, os soldados e marinheiros combatiam pelos seus pases
mesmo quando sabiam que os governantes eram patifes e loucos.
  Os que l se encontravam em baixo no seriam iguais aos
que lhe haviam violado a me e a irm, para depois as matarem.
Eram pessoas diferentes, num tempo diferente. Podia
confiar-se neles. Tinha de confiar neles.
  Contudo, estava infinitamente mais receoso da tripulao
do Pogodin do que de todos os explosivos do mundo.

  23.46 horas.
  - Messe dos oficiais ao comandante.
  - Estou a ouvir.
  - A antepara de estibordo est a pingar, comandante.
  - A chapa est deformada?
  - No, senhor.
  - H muita gua?
  - Meio litro, senhor.
  Problemas tanto na sala dos torpedos como na messe dos
oficiais. Teriam de se ir embora dali muito em breve.
  - Escutaram com o estetoscpio?
  - H muitos rudos na antepara, senhor, mas nenhum sinal
de fadiga do metal.
  - Saremos daqui dentro de cinco minutos.

  23.47 horas.
  Com o submarino quase ao seu alcance, Harry lembrou-se
de mais uma razo para ter esperana. De acordo com o tenente
Timoshenko, mergulhadores britnicos em Alverstoke,
Hampshire, e mergulhadores franceses em Marselha haviam
atingido os quatrocentos e cinquenta metros de profundidade
com equipamentos de mergulho muito avanados... em cmaras
de simulao.
  Claro que aquela ltima frase, "em cmaras de simulao",
impedia que a informao fosse to tranquilizadora como ele
gostaria.
  Aquilo ali era a vida real.
  O poo alargava-se. As paredes de gelo afastavam-se at
deixarem de reflectir a luz das lanternas.
  Teve a sensao de um vasto espao  sua volta. A gua
era mais transparente, talvez por existirem menos partculas
em suspenso. Segundos depois avistava luzes coloridas por
baixo dele. Primeiro uma verde e depois uma vermelha. Logo
a seguir, a sua lanterna comeou a revelar uma grande forma
cinzenta que pairava no abismo.
  Mesmo quando atingiu a torre do Ilya Pogodin e descansou
contra o mastro do radar, Harry ainda no se encontrava certo
quanto s possibilidades de sobreviverem  tremenda presso.
Permanecia meio convencido de que os seus pulmes iriam explodir
com a fora de granadas e que os vasos sanguneos rebentariam
como bales. No sabia grande coisa a respeito dos
efeitos das grandes presses sobre o corpo. Talvez os pulmes
no explodissem... mas a imagem mental era convincente.
  Por outro lado, no lhe agradava o aspecto do submarino.
Enquanto esperava que os outros o alcanassem, teve quase
um minuto para estudar o navio. Tinha todas as luzes acesas:
vermelha a bombordo, verde a estibordo, branca na torre,
amarela na popa... Talvez os seus processos de pensamento estivessem
afectados pela presso ou pela exausto, mas o Pogodin
parecia-lhe demasiado festivo e enfeitado para ser verdadeiro.
Depois de tanta escurido, o navio assemelhava-se a
uma maldita slot-machine ou a uma rvore de Natal. Era delicado
e frgil, como se tivesse sido construdo de celofane negro.


  23.49 horas.
  Rita esperara que os seus medos desaparecessem quando
atingisse o fundo do poo e j no tivesse gelo  sua volta.
Todavia, a ilha de gelo continuava sobre a sua cabea, alta como
um edifcio de setenta andares, com mil e duzentos metros de
comprimento, to grande como vrios quarteires de arranha-cus
de Manhattan. Sabia que flutuava e que no se afundaria
em cima dela, nem a esmagaria contra o fundo do oceano, mas
aterrorizava-a a ideia de a ter suspenso sobre ela e no tinha
coragem para olhar para cima.

  Est frio no Audi porque o motor parou e no sai calor dos
ventiladores. A neve e os ramos arrancados s rvores encheram
o banco da frente, entrando pelo pra-brisas partido, cobrindo
o painel e os pais, at  cintura. Esto silenciosos,
sentados
na neve, ambos mortos, e  medida que o tempo passa Rita
sabe que no poder sobreviver apenas com o seu prprio casaco
de Inverno. As luzes do painel esto acesas, tal como a do
tejadilho, pelo que o interior do carro no est escuro. V a
neve a pressionar as janelas, em todos os lados do carro.  uma
rapariga inteligente e compreende que a neve pode ter trinta
metros
de altura, demasiado profunda para a poder escavar e para
se salvar sem ajuda. Os salvadores levaro muito tempo para
chegar at ela. Precisa do pesado casaco do pai... Depois
de adiar por um tempo perigosamente longo, ganha coragem para
enfrentar o que ir ver e arrasta-se para o banco da frente.
O pai tem estalactites de sangue gelado pendentes dos ouvidos
e do nariz e a garganta da me foi perfurada pela ponta quebrada
de um ramo que foi empurrado para o interior do carro pela
avalancha. Os rostos tm um tom azul-acinzentado. Os olhos
abertos esto inteiramente brancos porque j se encontram cobertos
de gelo. Rita deita-lhes uma nica olhadela e comea a
escavar a neve que envolve o pai. Tem apenas seis anos,  uma
garota activa e forte para a sua idade, mas  ainda muito
pequena.
Ter-lhe-ia sido impossvel retirar o casaco do corpo do
pai
se este tivesse os braos enfiados nas mangas, mas o pai
despira-o
e pusera-o pelas costas durante a viagem. Agora est
sentado
nele, encostado a ele, e Rita acaba por lho tirar depois de
muitos estices e puxes. Regressa ao assento traseiro - onde
a neve no chegou - com o seu trofu, enrola-se, aperta o casaco
 sua volta e espera que chegue a ajuda. Esconde a cabea debaixo
do casaco forrado a cetim, conservando no seu interior
no apenas o calor corporal como tambm o bafo, porque o
seu bafo  quente. Passado algum tempo comea a ter dificuldade
em se manter acordada e foge do frio do carro para outros
lugares ainda mais frios que existem dentro da sua prpria
mente.
Cada vez que desperta daquele sono perigoso, sente-se mais
confusa do que anteriormente mas lembra-se de escutar se h
sons de salvamento. Depois do que lhe pareceu muito tempo,
ouve - ou pensa que ouve - movimentos no assento da frente:
o estalar de gelo a quebrar-se quando o pai e a me mortos se
cansam de estar sentados e decidem gatinhar para as traseiras,
para lhe fazerem companhia. O som do gelo sangrento a cair-lhe
do nariz. De novo o estalar do gelo. A vm eles. Devem
estar a trepar para a traseira do carro. Mais estalos e depois
uma voz a sussurrar o seu nome. Uma voz familiar a sussurrar
o seu nome? A mo fria a meter-se por baixo do casaco, invejosa
do seu calor...
  Algum tocou em Rita e esta gritou de horror... mas esse
grito atirou o Audi e a avalancha para o passado a que pertenciam.

  Tinha Pete de um lado e Franz do outro. Era evidente que
deixara de se mexer e que a seguravam pelos braos para a
ajudarem a percorrer aqueles metros finais. O submarino estava
directamente na sua frente. Viu Harry agarrado ao mastro
do radar, por cima da torre.


  23.50 horas
  Harry estremeceu de alvio quando viu Rita entre Franz e
Peter e sentiu-se a ser percorrido por um tremor de esperana.
  Quando os outros seis se lhe juntaram, avanou, meio a gatinhar,
meio a nadar, pelo cimo da torre, desceu a curta
escada
para o convs e foi-se arrastando ao longo da linha de cunhos
do convs da superstrutura. Se flutuasse e se afastasse do navio
no seria fcil voltar a apanh-lo porque a corrente de
nove ns no o afectava do mesmo modo que ao submarino, de
trezentos metros de comprimento.
  A sua relao com o navio era semelhante  de um astronauta
com a nave durante um passeio pelo espao: havia uma
iluso de imobilidade apesar de ambos se deslocarem a velocidades
considerveis.
  Cauteloso mas consciente da necessidade de se apressar,
continuou a puxar-se, mo aps mo, ao longo da linha de
cunhos, procurando a escotilha da cmara estanque que Timoshenko
lhe descrevera pela rdio.

  23.51 horas
  O grito de aviso de uma sereia de alerta.
  Os nmeros verdes e os diagramas dimensionais desapareceram
dos monitores que se encontravam directamente por cima
da plataforma do comandante e foram substitudos por letras
vermelhas: EMERGNCIA.
  Gorov carregou numa tecla com a indicao "MOSTRAR". OS
monitores ficaram imediatamente limpos e a sereia de alerta
calou-se. Apareceu uma nova mensagem nas habituais letras
VerdeS: PORTA EXTERIOR REBENTADA NO TUBO DE TORPEDOS NMERO
CINCO DA SALA DA PROA. TUBO CHEIO DE GUA AT  PORTA
INTERIOR.
  - Est a acontecer... - disse Zhukov.
  O tubo nmero cinco deveria ter ficado deformado quando
do embate com os gelos flutuantes. Agora, a porta do casco
exterior cedera.
  Gorov afirmou rapidamente:
  - Foi apenas a porta exterior e no a interior. Por enquanto
no h gua no navio... e nunca haver.
  Um dos marinheiros que vigiava os painis de segurana
anunciou:
  - Comandante, os nossos visitantes abriram a escotilha da
cmara estanque.
  - Vamos conseguir - disse Gorov para a tripulao da sala
de comando. - Tenho a certeza de que vamos conseguir.

  23.52 horas.
  A escotilha da comporta de fuga da proa fora aberta por
algum no painel de comandos do submarino. Harry ficou a
olhar para um minsculo compartimento, brilhantemente iluminado
e cheio de gua. Tal como lhes dissera o tenente Timoshenko,
s podia acomodar quatro mergulhadores de cada
vez... e mesmo assim era duas vezes maior do que as cmaras
de muitos submarinos.
  Um a um, Brian, Claude, Rita e George penetraram na cmara
redonda e sentaram-se no cho com as costas encostadas
 parede.
  Harry fechou a escotilha a partir do exterior, pois seria
mais rpido do que ficar  espera que algum accionasse uma
alavanca para a fechar.
  Olhou para o seu relgio luminoso.

  23.53 horas
  Gorov olhou ansiosamente para os monitores.
  - Cmara estanque pronta - disse Zhukov, repetindo a
mensagem que recebera pelos auscultadores. Simultaneamente,
a informao surgiu nos monitores.
  - Prossigam com o processo - ordenou Gorov.

  23.54 horas.
  Na cmara estanque, Rita agarrou-se s pegas existentes
nas paredes enquanto as poderosas bombas expulsavam a gua
da cmara em apenas trinta segundos. No removeu a mscara
e continuou a respirar a mistura de gases da botija, tal como
lhe tinham dito para fazer.
  Abriu-se uma escotilha no centro do cho. Surgiu um jovem
marinheiro russo que lhes sorriu de uma maneira quase
envergonhada e os chamou agitando um dedo.
  Saram rapidamente da cmara estanque, descendo uma escada
que dava para a sala de controlo da mesma. O marinheiro
voltou a subir a escada e fechou a escotilha exterior,
cerrando-a,
voltando rapidamente ao painel de controlo. Com um
rugido, a gua inundou mais uma vez a cmara estanque.
  Agudamente consciente da enorme massa de gelo carregada
de explosivos que pairava directamente por cima do submarino,
Rita passou, tal como os outros, para a cmara de descompresso
existente ao lado da sala de controlo da cmara
estanque.

  23.56 horas
  Harry experimentou a escotilha, que se abriu.
  Esperou que Franz e Pete entrassem. Depois seguiu-os e
fechou a escotilha pelo lado de dentro.
  Sentaram-se com as costas contra a parede.
  No precisava de olhar para o relgio. O seu prprio relgio
interno dizia-lhe que estavam a cerca de quatro minutos da
exploso.
  As vlvulas abriram-se e as bombas expulsaram a gua da
cmara.

  23.57 horas
  Uma montanha de gelo prestes a desintegrar-se pairava por
cima deles... e se se desfizesse enquanto ali permanecessem
era provvel que o submarino ficasse transformado em sucata.
A morte seria to rpida que muitos deles nem sequer teriam
tempo para gritar.
  Gorov puxou o microfone que tinha sobre a cabea, chamou
a sala de manobra e ordenou uma imediata inverso dos
motores.
  A sala confirmou a manobra e um instante depois o navio
vibrou em resposta  abrupta mudana do impulso das hlices.
  Gorov foi atirado contra o corrimo da plataforma de comando
e Zhukov quase caiu.
  O altifalante por cima deles comunicou:

  - Sala de manobra ao comandante. Motores a toda a
fora.
  - Leme a meio.
  - Leme a meio, senhor.
  O icebergue deslocava-se para o sul a nove ns. O submarino
avanava para norte a dez... doze... e agora quinze ns,
contra uma corrente de nove ns, do que resultava uma velocidade
real de afastamento de quinze ns.
  Gorov no sabia se aquela velocidade seria suficiente para
os salvar... mas era o melhor que podiam fazer naquele momento,
uma vez que para conseguirem uma maior velocidade
precisavam de mais tempo do que aquele que lhe restava at 
detonao.

  - Gelo por cima - anunciou o operador do profundmetro
de superfcie. J se encontravam fora da cavidade em forma
de funil existente no centro do icebergue. - Dezoito metros.
Gelo por cima aos dezoito metros.

  23.58 horas
  Harry entrou na cmara de descompresso e sentou-se ao
lado de Rita. Deram as mos e ficaram a olhar para o relgio
de Harry.

  23.59 horas
  O centro das atenes na sala de comando era o relgio digital
de seis dgitos instalado na frente da plataforma de comando.
Gorov imaginava que conseguia detectar um estremecimento
na tripulao  passagem de cada segundo:
  23.59,10.
  23.59,11.
  - Seja o que for que acontecer - declarou Emil Zhukov -,
estou contente por ter dado o nome de Nikita ao meu filho.
  - Talvez lhe tenhas dado o nome de um louco.
  - Sim... mas de um louco muito interessante.
  Gorov sorriu.
  23.59,30.
  23.59,31.
  O tcnico do profundmetro de superfcie declarou:
  - guas limpas. No h gelo por cima.
  - Samos de debaixo do icebergue - disse algum.
  - Sim, mas ainda no estamos salvos - afirmou Gorov,
consciente de que ainda se encontravam dentro da zona que
poderia ser atingida pelos gelos projectados pela exploso.
  23.59,46.
  23.59,47.
  - guas limpas. No h gelos por cima.
  23.59,49.
  Pela segunda vez em dez minutos, a sereia de alerta soou e
a palavra EMERGNCIA brilhou nos monitores.
  Gorov carregou na tecla respectiva e descobriu que outro
tubo de torpedo na rea danificada do casco sucumbira parcialmente
 preSSO: PORTA EXTERIOR REBENTADA NO TUBO DE
TORPEDOS NMERO QUATRO DA SALA DA PROA. TUBO CHEiO DE
GUA AT  PORTA INTERIOR.
  Agarrando no microfone, Gorov gritou:

  18 DE JANEIRO.

DUNDEE, ESCCIA


  Os sobreviventes chegaram  Esccia pouco antes do meio-dia,
dois dias e meio depois de terem escapado da sua priso
de gelo.
  Havia muitos anos, desde que fugira da China comunista
com o pai, num pequeno barco, que George Lin no era grande
apreciador de viagens pelo mar e foi um alvio quando sentiu
novamente os ps sobre a terra.
  O tempo no estava nem mau nem bom, considerando que
era Inverno em Dundee. A temperatura era de seis graus negativos
e soprava um vento frio vindo do mar do Norte, fazendo
com que a gua se agitasse a todo o comprimento do Firth
of Tay.
  Mais de cem jornalistas de todo o mundo haviam voado para
Dundee para relatar a concluso da histria da expedio
Edgeway. Com um sarcasmo amigvel, um homem do The
New York Times tinha alcunhado o local de "Dandy Dundee"
mais de vinte e quatro horas antes e o nome pegara. Aparentemente,
o clima dava origem a mais temas de conversa entre
os jornalistas do que o acontecimento que os levara ali.
  Depois de desembarcar do Pogodin s 12.30 e de ter ficado
exposto  brisa fresca durante quase uma hora, George ainda
apreciava a sensao do vento no rosto. Cheirava a limpo e era
muito melhor do que o ar enlatado do submarino. A temperatura
no era to baixa que tivesse de recear as queimaduras
pelo frio, o que s por si constitua uma melhoria em relao
ao clima onde tivera de viver nos ltimos meses.
  Passeando energicamente de um lado para o outro,  beira
do cais, seguido por uma multido de jornalistas, George
disse:

  - Este navio... no  uma viso maravilhosa?
  Ancorado em guas profundas, por detrs dele, o submarino
exibia uma enorme bandeira russa e, por cortesia, uma escocesa,
de dimenses um pouco inferiores. Os sessenta e oito
homens da tripulao formavam duas linhas sobre o convs,
todos vestidos de azul e em sentido, prontos para uma inspeco
cerimonial. Nikita Gorov, Emil Zhukov e os outros oficiais
tinham um aspeCto esplndido nos seus. uniformes e sobretudos
de parada. com botes de lato. Na ponte encontrava-se
tambm um certo nmero de dignitrios, bem como na prancha
de desembarque, protegida por um corrimo. Incluam um
representante do Governo de Sua Majestade, o embaixador
russo na Gr-Bretanha, dois ajudantes do embaixador, o presidente
da Cmara de Dundee, dois representantes das Naes
Unidas e uma mo-cheia de funcionrios da representao comercial
russa em Glasgow.
  Um dos fotgrafos pediu a George Lin para posar ao lado
de um pilar de cimento comido pelo tempo com o Ilya Pogodin
a servir de fundo. Fez-lhe a vontade, exibindo um largo
sorriso.
  Um jornalista perguntou-lhe que tal se sentia por ser um
heri nas primeiras pginas dos jornais de todo o mundo.
  - No sou um heri - retorquiu George imediatamente.
Virou-se e apontou os oficiais e tripulao do submarino por
detrs dele. - Os heris esto ali.


[2]

  20 DE JANEIRO.
ESTAO EDGEWAY


  Durante a noite, a velocidade do vento comeou a diminuir
pela primeira vez em cinco dias. Pela manh, as agulhas de gelo
deixaram de bater contra o telhado e paredes da barraca das
comunicaes, e os suaves flocos de neve voltaram a encher o
ar. As violentas tempestades que tinham varrido o Atlntico
Norte comeavam a desaparecer.
  Pouco depois das duas da tarde desse dia, Gunvald Larsson
conseguiu finalmente estabelecer contacto com a base dos Estados
Unidos em Thule, na Gronelndia. O operador de rdio
americano comunicou-lhe imediatamente que o Projecto Edgeway
fora suspenso at ao fim do Inverno.
  - Pediram-nos para o irmos tirar da. Se se confirmarem
as previses de bom tempo, devemos poder ir busc-lo depois
de amanh. Ser tempo suficiente para fechar os edifcios e
desligar a maquinaria?
  - Sim,  tempo mais do que suficiente - respondeu Gunvald
-, mas no se preocupe com isso! Que aconteceu aos outros?
Esto vivos?
  O americano ficou embaraado.
  - Oh, desculpe!  claro que no podia saber, tem estado
isolado. - Leu-lhe duas das histrias dos jornais e a seguir
acrescentou tudo o que sabia.
  Depois de cinco dias de tenso contnua, Gunvald decidiu
que chegara a hora da celebrao. Acendeu o cachimbo e
abriu a garrafa de vodca.


[3]

  25 DE JANEIRO
MENSAGEM POR CORREIO ELECTRNICO
TRANSMITIDA DE MONTEGO BAY, JAMAICA,
  PARA PARIS, FRANA


  Claude, Franz e eu chegmos aqui a 23 de Janeiro. Uma hora
depois da
nossa chegada tanto o motorista do txi que nos trouxe e o
recepcionista do hotel j se referiam a ns como sendo "um grupo esquisito".
Homem, se eles soubessem toda a verdade...
  No h sol capaz de me satisfazer... e at estou a ficar
bronzeado.
  Creio que encontrei a mulher dos meus sonhos. Chama-se
Majean.
Franz foi "caado, no bar, por uma mulher moderna que no
acredita nos papis que costuma corresponder a cada um dos sexos... e est
a tentar aprender a deix-la abrir as portas, se ela assim o desejar.
No se sente muito  vontade com isso e por vezes discutem sobre quem tem o
direito de abrir a porta... mas vai-se habituando. Claude parece estar
constantemente na companhia de uma loura de vinte e oito anos que o considera
indescritivelmente bonito e se encanta com o seu sotaque francs.
  Conversmos a respeito de uma mudana nas nossas carreiras profissionais
e da possibilidade de abrirmos um bar numa qualquer
estncia tropical.
Talvez tu e a Rita queiram entrar no negcio connosco.
Podamos ficar sentados todo o dia, engolindo bebidas de rum enfeitadas com
aqueles bonitos chapus-de-sol em miniatura, feitos de papel. Sempre
seria melhor do que as queimaduras do frio, os explosivos e as batalhas
submarinas de vida ou morte com psicopatas assassinos. Aqui, o problema mais
grave que temos de enfrentar  o da humidade.


Pete.

[4)

26 DE JANEIRO
PARIS, FRANA.


  A garrafa de Dom Perignon jazia no balde de gelo, ao lado
da cama, numa suite do Hotel George V.
  Estavam nos braos um do outro, to ntimos como era
possvel entre duas pessoas... a no ser que se fundissem um
no outro, tornando-se numa entidade nica e gerando calor
mais do que suficiente para aquecer toda uma estao rctica
durante um longo Inverno. De sbito, sobressaltaram-se por
causa de um rudo ao lado da cama. Havia mais de uma semana
que tinham sido salvos pelo Pogodin, mas os nervos ainda
se encontravam demasiado tensos. Harry sentou-se, largou-a e
ambos olharam na direco do som... mas encontravam-se sozinhos.

  - Gelo - disse Rita.
  - Gelo?
  - Sim, gelo, a deslocar-se dentro do balde do champanhe.
  Harry olhou para o balde de gelo pousado na bandeja prateada
e o gelo voltou a deslocar-se.
  - Gelo - repetiu Rita.
  Harry olhou-a. Rita sorriu. Harry sorriu. Rita comeou a
soltar risadinhas, como se fosse uma garota pequena... e Harry
explodiu em gargalhadas.

Guilherme Jorge novembro de 1998
